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José Isidoro Martins Júnior nasceu no Recife em 24 de novembro de 1860 e publicou Visões de Hoje em 1881, ainda aluno da Faculdade de Direito do Recife.
O livro abre a leitura porque tentou pôr no poema o que a ciência ensinava, e o verso de hoje mostra onde a tentativa deu fruto.
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Eu, filho do carbono e do amoníaco, Monstro de escuridão e rutilância, Sofro, desde a epigênese da infância, A influência má dos signos do zodíaco.
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Augusto dos Anjos, Psicologia de um Vencido, Eu, 1912.
Os versos não são de Martins Júnior. Visões de Hoje nunca ganhou reedição popular, e os poemas dele circulam hoje menos que o programa que defendiam; a casa prefere mostrar o programa cumprido por quem chegou depois a reproduzir um verso sem conferir a página impressa.
Epigênese (formação do embrião, órgão por órgão) e amoníaco (gás de cheiro forte, feito de nitrogênio e hidrogênio) vêm do laboratório. Rutilância quer dizer brilho intenso.
Augusto dos Anjos, paraibano formado na mesma faculdade do Recife em 1907, fez da química o vocabulário do sofrimento. O poeta se apresenta como produto de elementos químicos e, no último verso, ainda culpa os astros.
Era esse o sonho de 1881: palavra de cientista dentro do verso, com rima e métrica intactas. Martins Júnior chamou o projeto de poesia científica e passou os anos seguintes explicando o nome.
Em 1883, ele publicou o ensaio A Poesia Científica. A tese: cada época tem a poesia que lhe cabe, e a época dele era a da física, da biologia e da sociologia.
Positivismo (a filosofia de Auguste Comte que só aceitava como certo o que se pudesse observar e medir) era o chão do argumento. Se a religião e a metafísica tinham ficado para trás, o poeta devia trocar de musa.
Visões de Hoje fazia a troca em público. O título já anunciava o corte: nada de visões de ontem, nada de fantasma romântico, só o presente da fábrica, do trilho e do laboratório.
Os poemas falavam de trabalho, de progresso e do futuro que a ciência prometia, num tom próximo do discurso. A crítica da época notou o fervor e notou também o peso: o verso carregava mais tese do que música.
O grupo de Martins Júnior não estava sozinho. Sílvio Romero, sergipano como Tobias Barreto, publicara Cantos do Fim do Século em 1878 com a mesma ambição de pôr filosofia no poema.
A Escola do Recife durou como grupo de debate, sem virar estilo. Tobias Barreto partiu em 1889, e os alunos dele se espalharam pela política, pelo direito e pelo jornal.
Na hora de ler
Leia epigênese em quatro sílabas, sem pressa.
Deixe o zodíaco fechar a estrofe num tom mais baixo.
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