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Visões de Hoje, o livro de 1881 que pôs a máquina dentro do verso

Aos 21 anos, o recifense Martins Júnior quis trocar a lua do romantismo pela ciência e deu nome ao programa: poesia científica.

Jovem de colarinho alto lendo um livro diante de uma locomotiva no Recife de 1881.

Recife, 1881: o trem entra no poema

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Oh, bendito o que semeia livros à mão cheia e manda o povo pensar: Castro Alves publicou os versos em 1870, em Espumas Flutuantes, e no Recife da década seguinte eles valiam como senha de estudante que queria mudar o país pelo livro.

O Recife de 1880 tinha porto movimentado, engenhos de açúcar em volta e uma faculdade de Direito que formava juízes, deputados e poetas para o Império inteiro.

Nas salas da faculdade, os rapazes discutiam Charles Darwin, Auguste Comte e Herbert Spencer com o fervor que os avós guardavam para a missa de domingo.

O nome do movimento nasceu ali: Escola do Recife, o grupo reunido em torno do professor sergipano Tobias Barreto, que lia filosofia alemã e queria a ciência no centro de todo debate.

Para esses estudantes, a poesia romântica tinha envelhecido. Lua, saudade e donzela pálida pareciam assunto de outro século, embora o século ainda fosse o mesmo.

Fora da sala, o mundo trocava de motor. O trem de ferro ligava o Recife ao interior desde 1858, o telégrafo trazia notícia da Europa em poucas horas, e a luz a gás clareava as ruas do centro.

Um desses rapazes decidiu que o verso tinha de acompanhar a máquina. Se o físico explicava o raio e o biólogo explicava a espécie, o poeta devia cantar a explicação, nunca o mistério.

Ele tinha vinte e um anos quando pôs a ideia num livro fino, de título com cara de manchete de jornal. Os colegas leram como manifesto; os críticos da corte leram como provocação.

O livro durou mais como bandeira do que como leitura. Poucos sabem recitar um verso dele, e muitos repetem o nome que ele deu ao próprio projeto.

O autor, o livro e o programa abrem a leitura de hoje, na primeira faixa.

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I  O Poema do Dia

A ciência pede a palavra

José Isidoro Martins Júnior nasceu no Recife em 24 de novembro de 1860 e publicou Visões de Hoje em 1881, ainda aluno da Faculdade de Direito do Recife.

O livro abre a leitura porque tentou pôr no poema o que a ciência ensinava, e o verso de hoje mostra onde a tentativa deu fruto.

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Augusto dos Anjos, Psicologia de um Vencido, Eu, 1912.

Os versos não são de Martins Júnior. Visões de Hoje nunca ganhou reedição popular, e os poemas dele circulam hoje menos que o programa que defendiam; a casa prefere mostrar o programa cumprido por quem chegou depois a reproduzir um verso sem conferir a página impressa.

Epigênese (formação do embrião, órgão por órgão) e amoníaco (gás de cheiro forte, feito de nitrogênio e hidrogênio) vêm do laboratório. Rutilância quer dizer brilho intenso.

Augusto dos Anjos, paraibano formado na mesma faculdade do Recife em 1907, fez da química o vocabulário do sofrimento. O poeta se apresenta como produto de elementos químicos e, no último verso, ainda culpa os astros.

Era esse o sonho de 1881: palavra de cientista dentro do verso, com rima e métrica intactas. Martins Júnior chamou o projeto de poesia científica e passou os anos seguintes explicando o nome.

Em 1883, ele publicou o ensaio A Poesia Científica. A tese: cada época tem a poesia que lhe cabe, e a época dele era a da física, da biologia e da sociologia.

Positivismo (a filosofia de Auguste Comte que só aceitava como certo o que se pudesse observar e medir) era o chão do argumento. Se a religião e a metafísica tinham ficado para trás, o poeta devia trocar de musa.

Visões de Hoje fazia a troca em público. O título já anunciava o corte: nada de visões de ontem, nada de fantasma romântico, só o presente da fábrica, do trilho e do laboratório.

Os poemas falavam de trabalho, de progresso e do futuro que a ciência prometia, num tom próximo do discurso. A crítica da época notou o fervor e notou também o peso: o verso carregava mais tese do que música.

O grupo de Martins Júnior não estava sozinho. Sílvio Romero, sergipano como Tobias Barreto, publicara Cantos do Fim do Século em 1878 com a mesma ambição de pôr filosofia no poema.

A Escola do Recife durou como grupo de debate, sem virar estilo. Tobias Barreto partiu em 1889, e os alunos dele se espalharam pela política, pelo direito e pelo jornal.

Na hora de ler

Leia epigênese em quatro sílabas, sem pressa.

Deixe o zodíaco fechar a estrofe num tom mais baixo.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Fogo que arde sem se ver

Num casamento, a casa cede a página a Luís Vaz de Camões, o poeta que os românticos amavam e os científicos de 1881 queriam aposentar, e ao soneto Amor é fogo que arde sem se ver, das Rimas, de 1595.

O quarteto serve ao altar porque define o amor por contradições, e nenhuma delas cabe num laboratório.

Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

Luís Vaz de Camões, Amor é fogo que arde sem se ver, Rimas, 1595.

Quarteto é a estrofe de quatro versos que abre o soneto. Camões empilha quatro definições, e cada uma se desmente na própria linha: fogo que ninguém vê, ferida que ninguém sente.

O nome da figura é oxímoro (junção de duas ideias opostas na mesma expressão). Contentamento descontente é o exemplo que as escolas do Brasil usam há gerações para ensinar a palavra.

Desatina quer dizer enlouquece, faz perder o juízo. Dor que desatina sem doer é a aflição de quem ama e não sente dor física nenhuma.

Rimas saiu em Lisboa em 1595, quinze anos depois da partida do poeta, montado por editores que juntaram cópias manuscritas. Camões nunca viu o próprio livro de sonetos impresso.

Para Martins Júnior, Camões era passado glorioso e modelo encerrado. A poesia científica queria explicar o fogo; o soneto de 1595 se contenta em senti-lo arder.

O altar fica com Camões por um motivo prático. O amor de quem casa não espera a ciência terminar o trabalho, e os noivos não precisam de tese: precisam de quatro versos que digam o que eles já sabem.

Os quatro versos têm dez sílabas poéticas, o decassílabo que Camões consagrou em português. Cabem numa respiração calma e pedem só uma pausa curta no fim de cada linha.

Numa cerimônia, o soneto inteiro pode cansar. Os dois tercetos voltam à mesma ideia com outras palavras, e o primeiro quarteto já entrega o retrato completo.

• O tom: sereno, de quem descreve sem reclamar.

• O corte: só o primeiro quarteto, os quatro versos acima.

• O leitor: alguém da família que conheça os noivos desde cedo.

Na hora de ler

Pare depois de sem se ver.

Diga descontente com meio sorriso.

 

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III  Pra Dizer Adeus

Ao pé do leito derradeiro

Numa despedida, a casa dá a página a Joaquim Maria Machado de Assis e ao soneto A Carolina, escrito para a mulher, Carolina Augusta Xavier de Novais, que partiu em outubro de 1904, e publicado em 1906, no livro Relíquias de Casa Velha.

O soneto serve ao adeus porque promete voltar ao túmulo, e quem fica precisa dessa promessa.

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Machado de Assis, A Carolina, Relíquias de Casa Velha, 1906.

Leito derradeiro é a última cama, o túmulo. Machado tinha 65 anos e quase 35 de casamento quando ficou sozinho.

O soneto abre Relíquias de Casa Velha, o último livro que ele organizou. Machado partiu em setembro de 1908, quatro anos depois da mulher.

Nos tercetos, ele traz flores arrancadas da terra que viu os dois passarem unidos. O poema termina sem lamento, como uma visita marcada.

Para a cerimônia, a primeira estrofe basta. Quem lê não precisa interpretar nada: o pobre querida do terceiro verso faz o trabalho sozinho, e a voz baixa por conta própria.

O mesmo Machado publicou em 1879, na Revista Brasileira, o ensaio A Nova Geração, sobre os poetas jovens que queriam a ciência no verso. Leu com simpatia e com reserva: ideia nova, para ele, não dispensava o ofício de fazer verso.

Martins Júnior seguiu outro caminho depois de Visões de Hoje. Virou professor da própria Faculdade de Direito do Recife, escreveu sobre história do direito e entrou na campanha republicana.

Proclamada a República, chegou à Câmara como deputado por Pernambuco. Lançou ainda outro livro de versos, Estilhaços, de 1885, e foi aos poucos trocando o poema pelo tratado.

A poesia científica não fez escola com esse nome. O programa sobreviveu por outros caminhos, no vocabulário de Augusto dos Anjos e no gosto modernista pela máquina.

Martins Júnior partiu na capital federal em 22 de agosto de 1904, dois meses antes de Carolina. A obra dele está em domínio público no Brasil desde 1975.

Na hora de ler

Leia Querida sem pressa.

Pare antes de Trazer-te o coração.

“Que verso você guardaria para ler numa despedida?”

Ele tinha 43 anos.

 
 
Quiz da edição

Em que ano o recifense José Isidoro Martins Júnior publicou Visões de Hoje, o livro que batizou o programa poesia científica?

A1870
B1883
C1881
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