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Viola de Lereno, as modinhas do Rio que a corte de Lisboa cantou em 1798
Domingos Caldas Barbosa, padre carioca de viola no colo, levou o lundu e a gíria do Brasil aos salões da corte portuguesa.
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Lisboa, 1798: a viola de Lereno no salão
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Xarapim, eu bem estava alegre nesta aleluia. Domingos Caldas Barbosa imprimiu o verso em Lisboa, em 1798, e a primeira palavra mostra por que a corte portuguesa parava para ouvi-lo: xarapim era a gíria do Brasil para xará, quem tem nome igual ao seu, e nenhum poeta tinha cantado assim num salão lisboeta.
Caldas Barbosa nasceu no Rio de Janeiro por volta de 1740, filho de um comerciante português e de uma mulher angolana. Estudou com os jesuítas, serviu como soldado na Colônia do Sacramento, no extremo sul, e cruzou o Atlântico por volta de 1770.
Em Lisboa, ganhou a proteção dos irmãos Vasconcelos e Sousa, família de vice-rei e de conde, recebeu ordens menores na Igreja e começou a frequentar as casas nobres com uma viola de arame. A corte o chamava de padre Caldas.
O que ele cantava tinha dois nomes. A modinha era a canção lenta de amor, em português corrente. O lundu (dança e canto de origem africana, com requebro e umbigada) chegava com palavras da colônia: nhanhá, iaiá, cuia, xarapim.
As damas pediam bis. Os poetas da casa torciam o nariz. Bocage, o mais afiado deles, escreveu sátiras contra o mulato da viola, e a cor da pele de Caldas aparecia nos ataques com todas as letras.
Mesmo assim, quando a Nova Arcádia nasceu, em 1790, foi Caldas Barbosa quem a presidiu. A academia reunia os poetas às quartas-feiras, e cada árcade (poeta de academia que posava de pastor) assinava como um pastor inventado. O dele era Lereno Selinuntino.
Em 1798, ele juntou as cantigas num volume impresso em Lisboa: Viola de Lereno, coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos. O título já dizia tudo: era livro de cantar, feito para quem tinha ouvido as peças na sala.
A melodia não foi para o papel, só a letra. Quem comprava o livro já trazia a música na memória, aprendida na voz do autor.
Uma das quadras desse volume mede o amor pelo gosto, e é por ela que a leitura começa.
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I O Poema do Dia
Um amor mais doce
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Num sarau de quarta-feira, Domingos Caldas Barbosa afina a viola de arame e canta a quadra que a corte mais pedia, a que põe o amor da colônia na boca dos fidalgos.
A quadra abre bem uma leitura porque confessa uma preferência sem ofender ninguém na sala.
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Cuidei que o gosto de Amor Sempre o mesmo gosto fosse, Mas um Amor Brasileiro Eu não sei por que é mais doce.
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Domingos Caldas Barbosa, Doçura de amor, Viola de Lereno, 1798.
Cuidei quer dizer imaginei, achei. Quem canta acreditava que todo amor tinha um sabor só e descobre, no terceiro verso, que se enganou.
O verso é a redondilha maior (verso de sete sílabas), a medida das quadras de feira e de roda. Caldas Barbosa escrevia para a voz e para o dedilhado da viola, e a leitura silenciosa vinha só depois.
A graça mora no último verso. O cantor não explica a doçura: confessa que não sabe o motivo, e a dúvida vira elogio.
O verso final também carrega uma sílaba a mais na boca de quem canta. Eu não sei por que se arrasta, e a viola segura o acorde enquanto a voz chega ao doce, a palavra que a plateia já esperava.
Em Lisboa, Amor Brasileiro tinha rosto. Era o jeito das moças nascidas na colônia, o falar arrastado, o dengo, as palavras que as portuguesas não usavam.
A cantiga provocava de leve. Dizer na frente de fidalgos que o amor de lá era mais doce soava como gracejo, e Caldas ria junto com a plateia.
Os árcades mais severos viam ali falta de compostura. Para eles, poesia pedia ninfas, pastores e citação latina; a viola trazia quintal, rua e sotaque para dentro do salão.
Quase toda a música dessas cantigas se perdeu. Um caderno manuscrito de modinhas guardado na Biblioteca da Ajuda, em Lisboa, traz algumas melodias com letra dele, e por elas se sabe que o acompanhamento era simples, poucos acordes de viola.
O livro de 1798 juntou dezenas de peças assim, curtas, com refrão e rima fácil, e cada uma cabia inteira na memória de quem a ouvia uma única vez.
Viola de arame era o instrumento de dez cordas metálicas, em cinco pares, que os portugueses levaram para o Brasil e que lá virou viola caipira. Nas mãos de Caldas, voltava a Lisboa com outro sotaque.
Na hora de ler
Leia os três primeiros versos devagar, quase indiferente.
No quarto, solte o mais doce com um sorriso. A sala precisa ouvir a surpresa.
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II Pra Ler no Altar
O vaqueiro que não era
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Num casamento, Domingos Caldas Barbosa cede a viola a Tomás Antônio Gonzaga, o poeta de Vila Rica cujas liras saíram impressas em Lisboa em 1792, seis anos antes do livro de Lereno.
A estrofe serve ao altar porque é um noivo dizendo quem é e o que tem a oferecer, sem promessa vaga.
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Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, Que viva de guardar alheio gado; De tosco trato, de expressões grosseiro, Dos frios gelos e dos sóis queimado.
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Tomás Antônio Gonzaga, Marília de Dirceu, Lira I, 1792.
Lira era o nome que Gonzaga dava a cada poema do livro: uma peça em estrofes, feita para soar como canção. Esta é a primeira, a que apresenta o noivo.
Vaqueiro, aqui, é o pastor pobre que cuida do rebanho dos outros. O poeta avisa à amada que tem terra e modos: “Tenho próprio casal, e nele assisto”, diz o verso seguinte, ou seja, mora em chão seu.
A estrofe inteira é escrita em decassílabo (verso de dez sílabas), a medida nobre de Camões. Gonzaga escolheu o verso dos sonetos para falar de gado e de sol, e a mistura dá à fala do noivo um peso de juramento.
Marília era Maria Doroteia Joaquina de Seixas, moça de Vila Rica, a atual Ouro Preto. Gonzaga, juiz e poeta nascido no Porto em 1744, assinava como Dirceu, o pastor que inventou para si.
O casamento não aconteceu. Em 1789, Gonzaga foi preso na Inconfidência Mineira (a conspiração contra a Coroa em Minas) e mandado ao degredo (exílio forçado) em Moçambique, onde se casou com outra mulher.
Ele embarcou para a África em 1792, o mesmo ano em que a primeira parte de Marília de Dirceu saiu da prensa. Maria Doroteia nunca se casou e viveu em Minas até 1853.
Caldas Barbosa e Gonzaga tinham quase a mesma idade e um molde comum: os pastores inventados da Arcádia e os versos medidos para cantar. Os dois viveram no Brasil e foram lidos primeiro em Lisboa.
No altar, a estrofe funciona porque troca o elogio pela apresentação. O noivo diz quem é, de onde vem e o que tem; a noiva escolhe sabendo.
• O tom: leia como quem se apresenta à família, firme e sem pressa.
• O nome: troque Marília pelo nome da noiva, se ele tiver três sílabas e a mesma batida.
• O corte: pare no quarto verso, porque o resto da lira fala de rebanho e de leite e cansa a igreja.
Na hora de ler
Olhe para a noiva ao dizer Eu, Marília.
Diga o último verso mais baixo, como confissão.
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