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Vaso Grego, a taça que ainda fala
Alberto de Oliveira pôs uma voz dentro de uma taça em 1885, e os versos dele estão livres de direitos no Brasil desde 2008.
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Saquarema, 1885: a taça sobre o mármore
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Esta de áureos relevos, trabalhada de divas mãos, brilhante copa, um dia, já de aos deuses servir como cansada, vinda do Olimpo, a um novo deus servia. Antônio Mariano Alberto de Oliveira abriu assim o soneto Vaso Grego, impresso em 1885 no livro Sonetos e Poemas, e as quatro linhas resolvem hoje um problema prático de quem vai ler diante de gente sentada: a sala ganha um objeto para olhar antes de ganhar qualquer ideia.
Ele nasceu no Palmital de Saquarema, no estado do Rio de Janeiro, em 28 de abril de 1857. Começou o curso de medicina, largou no meio e formou-se em farmácia, profissão que exerceu pouco: o que sustentou a vida dele foram cargos de ensino e de administração pública no estado fluminense.
A estreia veio em 1878, com Canções Românticas, ainda em registro romântico. Meridionais, de 1884, saiu com uma introdução assinada por Machado de Assis e alinhou o poeta ao parnasianismo, a escola que pedia forma fixa, rima difícil e assunto tirado de objeto, escultura ou paisagem. Sonetos e Poemas veio no ano seguinte. Depois dele, Versos e Rimas, de 1895, e as quatro séries de Poesias, entre 1900 e 1928.
Em 1897 ele entrou como sócio fundador na Academia Brasileira de Letras. Em 1924, um concurso promovido pela revista Fon-Fon deu a ele o título de Príncipe dos Poetas Brasileiros, posto que pertencera a Olavo Bilac até 1918. Tinha 67 anos e ainda publicaria um livro.
Alberto de Oliveira parou em Niterói, em 19 de janeiro de 1937. Pela conta da lei 9.610, que solta a obra setenta anos depois do primeiro dia do ano seguinte, os versos dele estão em domínio público no Brasil desde 2008: dá para imprimir num programa de cerimônia, gravar numa placa e publicar sem pedir licença a herdeiro nenhum.
A edição de hoje põe três poemas dele em três situações de leitura falada: a taça grega para abrir um sarau, a alma dos vinte anos para um altar e a casa da Rua Abílio para uma despedida.
A primeira parada é a taça que passou do Olimpo para a mão de um poeta grego.
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I O Poema do Dia
A borda fina que canta
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Um sarau começa com a sala ainda conversando, e quem lê primeiro gasta metade do poema disputando a atenção de quem continua de papo aberto na mesa do fundo.
Vaso Grego resolve a abertura porque entrega um objeto na primeira linha, e objeto se olha antes de se entender. A sala enxerga uma taça de ouro lavrado descendo do Olimpo, e a imagem segura a escuta enquanto o sentido chega.
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Esta de áureos relevos, trabalhada De divas mãos, brilhante copa, um dia, Já de aos deuses servir como cansada, Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.
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Alberto de Oliveira, primeira quadra do soneto Vaso Grego, no livro Sonetos e Poemas, 1885.
Áureos relevos são as figuras salientes talhadas no ouro da parede da peça, e divas mãos, na segunda linha, quer dizer mãos de deusa, quem fabricou o objeto. O poeta gasta quatro versos só descrevendo a fabricação da taça, e essa demora é o que prende a sala.
O poeta de Teos, que aparece logo depois da quadra citada, é Anacreonte, o grego nascido na cidade jônica de Teos por volta de 570 antes de Cristo, conhecido pelos versos curtos sobre vinho, festa e desejo. Colmada, no oitavo verso, quer dizer cheia até a borda, e o poema enche a taça de pétalas roxas em vez de bebida.
Esvazada aparece sem o i porque a grafia de 1885 ainda registrava assim o particípio de esvaziar. Lavor, nos tercetos, é o trabalho de talha na superfície do metal, e ignota voz quer dizer voz desconhecida, de dono que ninguém identifica.
A medida é o decassílabo, quer dizer, verso de dez sílabas poéticas, contadas até a última tônica. Alberto de Oliveira escreveu quase todos os sonetos nessa medida, e ela dá ao poema um passo regular que ajuda quem lê sem ensaio.
Os seis versos finais mudam o modo do verbo e falam direto com quem ouve: toca a taça, encosta o ouvido na borda fina e escuta uma música que parece vir das cordas de uma lira antiga. O soneto termina dizendo que essa voz talvez seja a de Anacreonte, morto havia vinte e três séculos quando o livro saiu.
A leitura das catorze linhas leva quarenta segundos, e o poema serve a sarau de bar, abertura de clube de leitura e primeira rodada de microfone livre.
Na hora de ler
Anuncie o nome completo do poeta, a cidade e o ano antes do primeiro verso. Saquarema, 1885, um farmacêutico de 28 anos publicando sonetos sobre a Grécia: a ficha muda a escuta da sala inteira.
Segure o ritmo na primeira quadra, sem correr. Ela é uma descrição de objeto, e descrição lida com pressa vira lista de palavras bonitas.
Baixe o volume no último verso. O nome de Anacreonte é a última palavra do soneto, e ela funciona melhor sussurrada do que anunciada.
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II Pra Ler no Altar
Quando a alma antiga volta
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Num casamento, quem lê no altar costuma receber o papel na véspera e descobrir na hora que o texto fala de eternidade para duas pessoas que estão tremendo na frente de cem convidados.
A Alma dos Vinte Anos serve ao altar porque descreve um efeito que o casal reconhece na hora: a idade cai quando a outra pessoa chega perto. O poema trata de rejuvenescimento súbito, e rejuvenescimento é uma experiência que a sala toda já teve.
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A alma dos meus vinte anos noutro dia Senti volver-me ao peito, e pondo fora A outra, a enferma, que lá dentro mora, Ria em meus lábios, em meus olhos ria.
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Alberto de Oliveira, primeira quadra do soneto A Alma dos Vinte Anos, no livro Poesias, quarta série, 1928.
Volver quer dizer voltar, e o poeta usa o verbo antigo para marcar um movimento de retorno, não de chegada nova. A outra, a enferma, na terceira linha, é a alma de agora, a adoecida pelo tempo, que o poema empurra para fora do peito como quem tira um hóspede da sala.
Luzia é nomeada no quinto verso, e o soneto não explica quem ela é. A quarta série de Poesias saiu sem nota de dedicatória, e o poema entrega apenas a informação que interessa à cena: ela tem a idade que o poeta tinha quando a alma dos vinte anos era a dele.
O livro é de 1928, publicado quando o autor tinha 71 anos, e a data dá ao soneto uma segunda serventia: bodas de casal mais velho e renovação de votos, cerimônias em que a promessa não é começar, e sim reconhecer o que já dura.
A origem: diga que os versos são brasileiros, de um poeta de Saquarema, publicados em 1928. A palavra alma no primeiro verso faz muita gente supor texto religioso traduzido, e a frase de apresentação evita o engano.
O corte: pare na oitava linha. Os tercetos contam que a alma antiga foi embora junto com Luzia, e um casamento não precisa desse desfecho às onze da manhã.
O cuidado: leia o nome Luzia como nome próprio, com pausa curta antes. Dito depressa, ele soa como substantivo do verbo luzir e a sala perde a pessoa.
Na hora de ler
Comece devagar e acelere no quarto verso. A repetição do ria, duas vezes na mesma linha, é o ponto alto da quadra e funciona como riso de verdade quando ganha velocidade.
Olhe para o casal ao dizer a palavra peito. O gesto transfere o poema da biografia do autor para as duas pessoas que estão ali, e dispensa qualquer explicação sua depois.
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