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Sá de Miranda brigou consigo numa quinta do Minho

Doze versos de sete sílabas guardam a guerra de um homem com ele mesmo, escrita longe da corte, entre cartas rimadas ao rei.

Casa de pedra de uma quinta no Minho, com uma carta manuscrita em verso sobre a mesa.

Uma quinta do Minho e uma carta em verso

▼
 

“Não posso viver comigo / nem posso fugir de mim.” Sá de Miranda deixou os dois versos em manuscrito, e o livro que os imprimiu saiu em Lisboa em 1595, décadas depois do enterro do poeta. A dupla ainda descreve o que a psicologia chama de conflito interno: a pessoa briga com a própria cabeça e não encontra porta de saída.

O poeta passou as últimas décadas longe da corte. Por volta de 1530, trocou Lisboa por uma quinta no Minho, a Tapada, perto de Amares, a poucas léguas de Braga. Vivia da comenda das Duas Igrejas, uma renda da Ordem de Cristo concedida pelo rei.

Casou com Briolanja de Azevedo, teve filhos e organizou a vida em torno da casa, das terras e dos vizinhos fidalgos da região. A quinta tinha pomar, mata e um caminho de pedra até a igreja.

De lá, escrevia. Mandava cartas em verso ao rei D. João III, ao irmão Mem de Sá, que anos depois governaria o Brasil, e a António Pereira, senhor de Basto. Eram conversas longas e rimadas sobre o reino, a cobiça da corte e o jeito certo de viver.

Os amigos liam aquelas cartas como conselho de homem sensato. Hoje elas soam como diário de alguém que saiu da cidade e levou junto a companhia mais difícil: ele mesmo.

A quinta deu sossego ao corpo. A cabeça seguiu em briga, e a briga ficou guardada em doze versos de sete sílabas, a medida que o povo português cantava nas feiras muito antes dele.

Os críticos chamam essa medida de velha. O poeta usava a medida velha para as cartas, para as cantigas e para os desabafos, e nela soava como gente falando na varanda.

A primeira faixa abre esses doze versos: o mote de quatro linhas, a volta de oito e o inimigo que o poeta carregava para onde fosse.

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I  O Poema do Dia

O inimigo dentro de casa

A cantiga começa por um mote, quatro versos curtos que dão o tema, e segue numa volta de oito, que desenvolve o mote e retoma a rima dele no fim.

Sá de Miranda pôs a guerra inteira de um homem em doze linhas de sete sílabas.

Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Sá de Miranda, Comigo me desavim, Obras, 1595.

Em prosa: briguei comigo; estou exposto a todo perigo; não consigo conviver comigo nem consigo escapar de mim.

Desavir é romper a amizade, entrar em briga. Desavim é o passado do verbo: rompi, fiquei de mal. O poeta conjuga a briga na primeira pessoa e põe a si mesmo como o outro lado.

A medida velha

A redondilha maior tem sete sílabas contadas até a última tônica. Era o verso das cantigas de roda, dos romances cantados nas aldeias e dos cancioneiros da corte de D. Manuel.

Diga em voz alta: co, mi, go, me, de, sa, vim. Sete batidas, acento no fim. O ouvido português reconhece o passo sem precisar de escola.

As rimas se abraçam. Desavim rima com mim, nas pontas; perigo rima com comigo, no meio. A primeira e a última linha fecham o mesmo cerco, e o homem fica preso entre elas.

A volta

Com dor da gente fugia,
antes que esta assi crecesse:
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo,
tamanho imigo de mim?

Sá de Miranda, Comigo me desavim, Obras, 1595.

Em prosa: antes eu fugia das pessoas, para a dor não crescer; agora fugiria de mim, se pudesse. Que saída ou que fim espero desse esforço inútil, se carrego comigo um inimigo tão grande, eu mesmo?

Imigo é a forma antiga de inimigo. A palavra curta segura a conta das sete sílabas e deixa o último verso cair seco, com mim no lugar exato do primeiro.

O desengano

O tom tem nome na literatura portuguesa do século XVI: desengano, o momento em que a pessoa perde a ilusão e enxerga a própria condição sem enfeite.

O poeta tentou o remédio clássico, a fuga para longe da gente. O remédio falhou porque a doença viajava na mesma carruagem.

A palavra comigo aparece três vezes em doze versos, e mim aparece quatro. O poema inteiro gira em torno de dois pronomes da mesma pessoa, que não conseguem fazer as pazes.

O leitor do século XVI conhecia o mote como jogo de salão. Os poetas da corte trocavam motes e voltas por divertimento. Sá de Miranda pegou o jogo e pôs nele uma confissão.

Na hora de ler

Leia o mote devagar e a volta mais depressa, como quem perde a paciência. Pare só no ponto de interrogação, e deixe a pergunta sem resposta no ar.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Um só rosto e uma fé

Para um casamento, a página sai da cantiga e vai à carta em verso que Sá de Miranda mandou da quinta ao rei D. João III.

Os três versos servem ao altar porque descrevem alguém inteiro, de uma palavra só.

Homem de um só parecer,
de um só rosto e uma fé,
de antes quebrar que volver,

Sá de Miranda, Carta a El-Rei D. João III, Obras, 1595.

Em prosa: um homem de uma opinião só, de um rosto só e de uma fé só, que prefere quebrar a voltar atrás.

Volver aqui é virar, mudar de lado. Quebrar é a palavra do galho seco: parte, mas não dobra.

A carta do Minho

A carta tem dezenas de estrofes em redondilha. O poeta escreve ao rei com franqueza rara, fala da cobiça, das intrigas do paço e da vida simples no campo.

Os três versos citados descrevem o homem de quem a corte desconfia. Na carta, esse homem é o próprio autor, que escolheu o Minho e as cartas no lugar das antecâmaras de Lisboa.

Por que funciona no altar

No altar, os versos mudam de destinatário. Deixam de falar do cortesão e passam a falar de quem promete.

Um só rosto: a pessoa que o outro vê em casa é a mesma que sai para a rua. Uma fé: a palavra dada segue valendo depois da festa.

Os convidados ouvem a promessa por imagens simples, o rosto e o galho, e guardam os versos sem esforço. A redondilha cabe na memória como cantiga de infância.

• O corte: os três versos, sem o resto da estrofe.

• O tom: firme, de quem assina embaixo.

• O leitor: um padrinho de poucas palavras.

Briolanja

Sá de Miranda casou com Briolanja de Azevedo já homem feito. Os biógrafos antigos contam que ela não tinha fama de bonita e que o poeta a escolheu pelo juízo e pela bondade.

A quinta da Tapada foi a casa dos dois por mais de duas décadas. Nas cartas, o campo aparece como lugar de paz, e a paz tinha nome de mulher.

A carta ao rei termina em conselho, sem lisonja. O poeta pede ao monarca o mesmo que pede a si: um rosto só diante de todos, do pajem ao bispo.

Na hora de ler

Diga os três versos sem pressa, com a voz descendo em volver. A última palavra pede um pequeno silêncio antes do sim.

 

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III  Pra Dizer Adeus

A quinta da Tapada

Numa despedida, a página volta à quinta do Minho onde Sá de Miranda passou os últimos anos, e à primeira quadra da volta da cantiga.

Os versos servem ao adeus porque falam de quem quis fugir da dor e encontrou a dor viajando junto.

Com dor da gente fugia,
antes que esta assi crecesse:
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.

Sá de Miranda, Comigo me desavim, Obras, 1595.

Assi é assim, na grafia do século XVI. Crecesse é crescesse.

Em prosa: antes eu fugia das pessoas, com medo de a dor aumentar; agora fugiria de mim mesmo, se tivesse como.

Os anos na quinta

Na Tapada, o poeta plantava, recebia visitas e respondia cartas. Os vizinhos fidalgos o procuravam como conselheiro, e a casa juntava quem escrevia no Norte.

Escreveu éclogas (diálogos de pastores em verso), uma delas chamada Basto, sobre a vida no campo, e duas comédias em prosa, Os Estrangeiros e Os Vilhalpandos.

As perdas

Em 1553, o filho Gonçalo caiu em combate em Ceuta, no norte da África. Dois anos depois, Briolanja partiu também.

O poeta tinha passado dos setenta. Ficou na quinta, entre os livros e as cartas que já não escrevia com o mesmo fôlego.

Numa despedida, a quadra diz o que a família sente e não sabe dizer. A dor acompanha quem foge dela, e a casa vazia segue cheia da pessoa.

A cantiga serve também a quem sai. Quem lê em voz alta junto ao caixão entende o peso de fugir de mim: a dor ficou dentro de quem ama, e nenhuma estrada leva para longe dela.

Na hora de ler

Leia os dois primeiros versos olhando para o papel e os dois últimos olhando para quem ficou.

Faça a pausa depois de fugiria e diga o último verso inteiro, num fôlego só.

Sá de Miranda ficou na Tapada até 1558.

Não saiu mais.

 
 
Quiz da edição

Das pessoas a quem Sá de Miranda mandava cartas em verso da quinta do Minho, qual delas viria a governar o Brasil anos depois?

AD. João III, o rei de Portugal
BAntónio Pereira, senhor de Basto
CMem de Sá, irmão do poeta
DBriolanja de Azevedo, esposa do poeta

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