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A cantiga começa por um mote, quatro versos curtos que dão o tema, e segue numa volta de oito, que desenvolve o mote e retoma a rima dele no fim.
Sá de Miranda pôs a guerra inteira de um homem em doze linhas de sete sílabas.
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Comigo me desavim, sou posto em todo perigo; não posso viver comigo nem posso fugir de mim.
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Sá de Miranda, Comigo me desavim, Obras, 1595.
Em prosa: briguei comigo; estou exposto a todo perigo; não consigo conviver comigo nem consigo escapar de mim.
Desavir é romper a amizade, entrar em briga. Desavim é o passado do verbo: rompi, fiquei de mal. O poeta conjuga a briga na primeira pessoa e põe a si mesmo como o outro lado.
A medida velha
A redondilha maior tem sete sílabas contadas até a última tônica. Era o verso das cantigas de roda, dos romances cantados nas aldeias e dos cancioneiros da corte de D. Manuel.
Diga em voz alta: co, mi, go, me, de, sa, vim. Sete batidas, acento no fim. O ouvido português reconhece o passo sem precisar de escola.
As rimas se abraçam. Desavim rima com mim, nas pontas; perigo rima com comigo, no meio. A primeira e a última linha fecham o mesmo cerco, e o homem fica preso entre elas.
A volta
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Com dor da gente fugia, antes que esta assi crecesse: agora já fugiria de mim, se de mim pudesse. Que meio espero ou que fim do vão trabalho que sigo, pois que trago a mim comigo, tamanho imigo de mim?
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Sá de Miranda, Comigo me desavim, Obras, 1595.
Em prosa: antes eu fugia das pessoas, para a dor não crescer; agora fugiria de mim, se pudesse. Que saída ou que fim espero desse esforço inútil, se carrego comigo um inimigo tão grande, eu mesmo?
Imigo é a forma antiga de inimigo. A palavra curta segura a conta das sete sílabas e deixa o último verso cair seco, com mim no lugar exato do primeiro.
O desengano
O tom tem nome na literatura portuguesa do século XVI: desengano, o momento em que a pessoa perde a ilusão e enxerga a própria condição sem enfeite.
O poeta tentou o remédio clássico, a fuga para longe da gente. O remédio falhou porque a doença viajava na mesma carruagem.
A palavra comigo aparece três vezes em doze versos, e mim aparece quatro. O poema inteiro gira em torno de dois pronomes da mesma pessoa, que não conseguem fazer as pazes.
O leitor do século XVI conhecia o mote como jogo de salão. Os poetas da corte trocavam motes e voltas por divertimento. Sá de Miranda pegou o jogo e pôs nele uma confissão.
Na hora de ler
Leia o mote devagar e a volta mais depressa, como quem perde a paciência. Pare só no ponto de interrogação, e deixe a pergunta sem resposta no ar.
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