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António Rui de Noronha nasceu em Lourenço Marques em 28 de outubro de 1909 e publicou os sonetos no semanário O Brado Africano ao longo dos anos 1930, sem nunca reuni-los em livro.
O soneto abre a leitura porque pede a Moçambique que acorde, e faz o pedido na forma mais clássica da língua.
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Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério. Dormes! e o mundo rola, o mundo vai seguindo... O progresso caminha ao alto de um hemisfério E tu dormes no outro o sono teu infindo...
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Rui de Noronha, Surge et Ambula, Sonetos, 1946.
O título vem do latim e quer dizer levanta-te e anda, a ordem de Jesus ao paralítico nos Evangelhos. Noronha pega a frase da Bíblia e a dirige ao continente inteiro.
Hemisfério (cada metade do globo) separa no poema dois mundos: o de cima, onde o progresso caminha, e o de baixo, onde a pátria dorme. O poeta não culpa ninguém pelo sono; apenas o descreve e pede que acabe.
Os versos são alexandrinos (de doze sílabas poéticas, com pausa no meio), o metro preferido dos parnasianos (os poetas do fim do século XIX que cultuavam a forma perfeita).
A repetição de Dormes! no começo de dois versos tem nome técnico: anáfora (a mesma palavra abrindo linhas seguidas). Funciona como a mão que sacode o ombro de quem dorme.
O pai de Rui era de origem goesa, da Índia portuguesa; a mãe, africana. Na classificação colonial, o filho entrava como mestiço, e a cor pesava na carreira, no salário e na porta que se abria.
Ele estudou até o liceu, o curso secundário da colônia, e entrou cedo no serviço público. O emprego pagava as contas; o Brado Africano recebia os poemas, assinados com o nome inteiro.
Os críticos moçambicanos chamam Noronha de precursor: o primeiro a pôr a terra africana no centro do verso escrito em português, ainda preso à forma herdada.
Outro soneto dele, Quenguêlêquêze!, leva no título a palavra ronga do ritual em que a mãe mostra o recém-nascido à lua nova. É a festa do bebê apresentado ao céu, contada em catorze versos de molde europeu.
Nos dois poemas, a técnica vem de fora e o retrato vem de dentro. A rima obedece a Lisboa; a lua, o bebê e a pátria sonolenta pertencem ao sul de Moçambique, e nenhum poeta português da época escreveria aqueles quadros.
Na hora de ler
Diga cada Dormes! com força, quase como chamado.
Deixe as reticências do segundo verso respirarem antes de seguir.
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