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Rui de Noronha, o soneto clássico com assunto de Moçambique

Em Lourenço Marques, nos anos 1930, ele pôs a forma de Camões a serviço da própria terra, nas páginas do semanário O Brado Africano.

Jovem mestiço escrevendo um soneto à luz de lampião, com a baía de Lourenço Marques ao fundo.

Lourenço Marques, anos 1930: soneto na prensa

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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades: Camões deixou o verso nas Rimas, impressas em Lisboa em 1595, e três séculos depois ele explicava bem o caso de um rapaz de Moçambique, porque a forma do poeta português continuava igual e a vontade de quem a usava tinha mudado de terra.

Lourenço Marques, a cidade hoje chamada Maputo, era nos anos 1930 a capital da colônia portuguesa de Moçambique. Tinha porto, estrada de ferro para Joanesburgo e uma elite branca que lia os jornais de Lisboa.

Tinha também um semanário diferente. O Brado Africano, fundado em 1918 pelos irmãos João e José Albasini, saía com páginas em português e em ronga, a língua banta falada no sul de Moçambique.

O jornal era a voz do Grémio Africano, associação de mestiços e negros letrados da cidade. Reclamava da lei colonial, do trabalho forçado e da escola fechada aos filhos da terra.

Nas mesmas páginas, entre a notícia do porto e o protesto contra o imposto, aparecia poesia. E quase sempre em soneto (o poema de catorze versos, dois de quatro e dois de três), a forma mais europeia que um poeta podia escolher.

Um dos que mandavam versos ao Brado era funcionário dos Caminhos de Ferro, filho de pai indiano e mãe africana, nascido na própria Lourenço Marques. Escrevia à noite, depois do expediente.

Ele não publicou livro em vida. Os poemas ficaram espalhados pelas edições do semanário e por cadernos guardados em casa, e só viraram volume depois do enterro, montados por amigos.

O soneto dele seguia as regras de Lisboa: rima nos lugares certos, verso medido, chave de ouro no último verso. O assunto, porém, vinha do quintal: a mãe, a lua sobre a baía, o ritual ronga do recém-nascido, a terra adormecida debaixo do domínio colonial.

O poeta, o jornal e o soneto mais lembrado dele abrem a leitura de hoje, na primeira faixa.

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I  O Poema do Dia

Levanta-te e anda

António Rui de Noronha nasceu em Lourenço Marques em 28 de outubro de 1909 e publicou os sonetos no semanário O Brado Africano ao longo dos anos 1930, sem nunca reuni-los em livro.

O soneto abre a leitura porque pede a Moçambique que acorde, e faz o pedido na forma mais clássica da língua.

Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério.
Dormes! e o mundo rola, o mundo vai seguindo...
O progresso caminha ao alto de um hemisfério
E tu dormes no outro o sono teu infindo...

Rui de Noronha, Surge et Ambula, Sonetos, 1946.

O título vem do latim e quer dizer levanta-te e anda, a ordem de Jesus ao paralítico nos Evangelhos. Noronha pega a frase da Bíblia e a dirige ao continente inteiro.

Hemisfério (cada metade do globo) separa no poema dois mundos: o de cima, onde o progresso caminha, e o de baixo, onde a pátria dorme. O poeta não culpa ninguém pelo sono; apenas o descreve e pede que acabe.

Os versos são alexandrinos (de doze sílabas poéticas, com pausa no meio), o metro preferido dos parnasianos (os poetas do fim do século XIX que cultuavam a forma perfeita).

A repetição de Dormes! no começo de dois versos tem nome técnico: anáfora (a mesma palavra abrindo linhas seguidas). Funciona como a mão que sacode o ombro de quem dorme.

O pai de Rui era de origem goesa, da Índia portuguesa; a mãe, africana. Na classificação colonial, o filho entrava como mestiço, e a cor pesava na carreira, no salário e na porta que se abria.

Ele estudou até o liceu, o curso secundário da colônia, e entrou cedo no serviço público. O emprego pagava as contas; o Brado Africano recebia os poemas, assinados com o nome inteiro.

Os críticos moçambicanos chamam Noronha de precursor: o primeiro a pôr a terra africana no centro do verso escrito em português, ainda preso à forma herdada.

Outro soneto dele, Quenguêlêquêze!, leva no título a palavra ronga do ritual em que a mãe mostra o recém-nascido à lua nova. É a festa do bebê apresentado ao céu, contada em catorze versos de molde europeu.

Nos dois poemas, a técnica vem de fora e o retrato vem de dentro. A rima obedece a Lisboa; a lua, o bebê e a pátria sonolenta pertencem ao sul de Moçambique, e nenhum poeta português da época escreveria aqueles quadros.

Na hora de ler

Diga cada Dormes! com força, quase como chamado.

Deixe as reticências do segundo verso respirarem antes de seguir.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Ouvir e entender estrelas

Num casamento, a casa cede a página a Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac e ao soneto XIII da série Via Láctea, publicado no livro Poesias, de 1888, o parnasiano brasileiro que os sonetistas de Lourenço Marques liam e imitavam.

O terceto serve ao altar porque entrega ao amor o poder de entender o que ninguém mais entende.

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Olavo Bilac, Via Láctea, soneto XIII, Poesias, 1888.

Terceto é a estrofe de três versos que encerra o soneto. Este é o último, a chave de ouro (o verso final que resolve o poema inteiro) mais citada da poesia brasileira.

O soneto começa com uma zombaria. Alguém diz ao poeta que ele perdeu o senso, porque ninguém ouve estrelas. Ele responde que acorda de madrugada e conversa com elas.

O terceto final dá a explicação. Ouvir estrelas não depende de ouvido bom, nem de telescópio: depende de amar. Quem ama ganha um sentido que os outros não têm.

Bilac nasceu na capital do Império em 1865 e partiu em 1918. A obra está em domínio público no Brasil há décadas, e o poema circula em convite, em cartão e em discurso de padrinho.

Noronha escreveu na mesma escola. O soneto parnasiano chegava a Moçambique pelos livros de Lisboa e do Brasil, e Bilac era um dos nomes que os jovens de Lourenço Marques sabiam de cor.

Os três versos são decassílabos (de dez sílabas poéticas). Cabem numa respiração tranquila, e o tom de conselho pede voz firme, sem solenidade demais.

Na cerimônia, o terceto basta. Os quartetos de abertura preparam a cena da janela aberta à noite, bonita na página e longa para o altar.

Há ainda a vantagem do vocabulário. Nenhuma palavra do terceto exige explicação para os convidados, e a frase entre aspas soa como fala de gente, quase uma conversa entre o poeta e quem duvidava dele.

• O tom: confiante, de quem já sabe a resposta.

• O corte: só o último terceto, os três versos acima.

• O leitor: um padrinho ou madrinha que conheça bem o casal.

Na hora de ler

Faça uma pausa curta depois de Amai para entendê-las.

Diga estrelas no fim com a voz mais baixa.

 

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III  Pra Dizer Adeus

Na mão de Deus

Numa despedida, a casa dá a página a Antero Tarquínio de Quental e ao soneto Na Mão de Deus, que fecha os Sonetos Completos publicados em 1886, o português que ensinou a geração de Noronha a pôr pensamento grave dentro do soneto.

O soneto serve ao adeus porque descreve o descanso depois de uma vida de inquietação, e quem fica precisa ouvir a palavra descanso.

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Antero de Quental, Na Mão de Deus, Sonetos Completos, 1886.

Antero escreveu o poema como ponto final de uma obra cheia de dúvida. A ilusão é o palácio que ele abandona degrau por degrau, sem pressa e sem revolta.

A passo e passo quer dizer devagar, um degrau de cada vez. O verso imita o ritmo da descida e obriga quem lê a diminuir o passo.

Antero partiu em Ponta Delgada, nos Açores, em 1891. A obra dele chegou às livrarias de Lourenço Marques e virou modelo para os sonetistas da colônia.

Noronha viveu pouco mais que a década do Brado. Adoeceu ainda moço e partiu em Lourenço Marques no Natal de 1943, aos trinta e quatro anos.

Os amigos juntaram os poemas e publicaram o volume Sonetos em 1946, na mesma cidade. A seleção cortou e alterou versos, e pesquisadores moçambicanos discutem até hoje quanto do texto impresso é fiel aos originais.

Os originais completos não chegaram aos arquivos públicos. O que se lê é o livro de 1946 e as páginas do Brado que sobreviveram nas coleções, e por esse motivo nenhuma edição atual garante a versão definitiva de cada soneto.

Por esse motivo a casa cita Surge et Ambula pela edição de 1946, a única em livro, sem prometer a forma exata que o poema tinha quando saiu no jornal. O sentido do pedido, porém, chega intacto: a terra deve acordar e andar.

A obra de Rui de Noronha está em domínio público no Brasil desde 2014. A poesia moçambicana posterior, de José Craveirinha e Noémia de Sousa, abandonou a rima; Noronha ficou como o primeiro a mudar o assunto.

Na hora de ler

Leia Descansou afinal sem pressa.

Desça o tom no último verso, como quem chega ao fim da escada.

“Que verso você guardaria para ler numa despedida?”

Rui de Noronha não viu o livro.

★ RARO

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