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Ouvir estrelas começou como acusação
Em 1888, aos vinte e dois anos, Olavo Bilac abriu um soneto com a zombaria que ouvia dos outros e respondeu em catorze versos.
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Rio de Janeiro, 1888, a janela aberta na madrugada
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Existe uma frase que aparece em tatuagem, em nome de café, em legenda de foto de céu e em convite de casamento: ouvir estrelas. Ela circula como convite ao sonho, escrita em letra fina, quase sempre sem aspas e sem os parênteses que vieram com ela.
Os parênteses mudam tudo. No poema onde a frase nasceu, ela está entre parênteses porque não é o poeta quem fala. É a voz de quem debocha dele, reproduzida de propósito na primeira linha, pra que o resto do texto tenha com quem discutir.
A abertura completa não é um suspiro, é uma acusação com ponto de exclamação: Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso. Quem guarda só a metade lírica fica com o cartaz e joga fora a discussão inteira.
O poema também não tem título. Ele é o décimo terceiro de uma sequência numerada, e o nome pelo qual todo mundo o conhece foi emprestado da primeira linha. Na prática, o país batizou o soneto com a frase de quem zombava dele.
O que vem depois da acusação é uma resposta. Catorze versos, um soneto inteiro, construído como réplica: o acusado admite o hábito, descreve as noites acordado, deixa o acusador insistir e devolve a explicação na última linha.
A estrutura é rara. Boa parte da poesia amorosa se dirige à pessoa amada, e este texto se dirige a quem ri de quem ama. O interlocutor não é a estrela nem a mulher, é a plateia cética, tratada no plural, no tratamento de quem enfrenta uma sala inteira.
O texto saiu num livro de estreia, escrito por um rapaz de vinte e poucos anos numa cidade que ainda tinha bonde puxado a burro. O que vem agora é a cena daquele ano, o soneto completo na grafia das edições correntes, e as duas ocasiões em que essas catorze linhas servem na sua boca.
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I O Poema do Dia
Rio de Janeiro, 1888, escrito aos vinte e dois
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Um rapaz de vinte e dois anos, um livro de estreia em três partes e um soneto que entrou na série sem título nenhum. Veja como o texto foi montado, e o poema completo, na forma em que chegou ao papel.
Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac nasceu em 16 de dezembro de 1865, no Rio de Janeiro, filho de um médico do exército. Cresceu numa casa com livro à mão e entrou cedo demais em faculdade, aos quinze anos.
Matriculou-se em medicina no Rio, largou, foi tentar direito em São Paulo e largou de novo. O ofício que sobrou foi o de escrever em jornal, pago por linha e com hora de fechamento.
Em 1888 saiu o primeiro livro dele, chamado apenas Poesias. O volume vem dividido em três partes, e a do meio se chama Via Láctea: uma sequência de sonetos numerados, sem título individual, cada um identificado só pelo algarismo romano.
O décimo terceiro dessa série é o poema de hoje. Ele não se chama Ouvir Estrelas em lugar nenhum do livro. O nome popular veio da primeira linha, e a primeira linha, no texto, é fala de outra pessoa.
A montagem é de tribunal, com quatro turnos de palavra. O acusador abre e chama o poeta de louco. O poeta responde e conta o hábito. O acusador insiste e pergunta o que as estrelas dizem. A segunda resposta fecha o soneto.
Os parênteses do primeiro verso e as aspas dos tercetos marcam quem está com a palavra. Sem essa marcação o texto perde o pé: vira devaneio de quem olha o céu, quando na verdade é defesa de quem acabou de ser chamado de tresloucado.
Cada linha tem dez sílabas poéticas, medida de discurso. As rimas dos dois quartetos se cruzam com apenas dois sons, certo e desperto de um lado, espanto e enquanto do outro, e o ouvido reconhece o retorno antes da discussão.
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"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto A via láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas."
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Via Láctea XIII, de Olavo Bilac, no livro Poesias, publicado no Rio de Janeiro em 1888. O texto acima segue a grafia das edições correntes, com a pontuação e as quebras de linha do original.
Em voz alta e em ritmo de cerimônia, as catorze linhas levam pouco menos de um minuto, com uma pausa depois de espanto e um respiro antes do último verso. É o tamanho exato de uma leitura que ninguém precisa cortar.
A linha de apresentação cabe numa frase: Olavo Bilac, soneto treze da série Via Láctea, publicado no Rio de Janeiro em 1888. Diga o nome, a série e o ano, espere um segundo e comece a ler.
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II Pra Ler no Altar
De 1888 a 1913, o voto dos leitores
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Um soneto entra numa cerimônia quando a última linha entrega uma ordem que a sala inteira aceita ouvir. Este termina em amai para entendê-las, e é por causa dessa ordem que ele atravessou mais de um século em leitura de casamento.
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Poesias, de 1888, chegou como estreia de um autor jovem numa cidade que lia verso em jornal. O texto circulava em folhetim, em revista ilustrada e em álbum de sala, copiado à mão por quem não comprava livro.
Nos vinte e cinco anos seguintes o nome dele virou o mais conhecido do país. Ajudou a fundar a Academia Brasileira de Letras em 1897, na cadeira quinze, e em 1906 escreveu a letra do Hino à Bandeira.
Em 1913 uma revista ilustrada do Rio, a Fon-Fon, abriu um concurso pra eleger o príncipe dos poetas brasileiros. Quem votava era o leitor, por cupom recortado da própria revista, e o vencedor foi ele.
O título não veio de júri de academia nem de crítico com cátedra. Veio de contagem de voto de assinante, do mesmo público que decorou catorze linhas sobre um sujeito acusado de perder o senso.
A frase de abertura seguiu sozinha depois da eleição. Virou nome de livraria, de café e de coral, título de programa e legenda de foto de céu. Quase sempre chega sem os parênteses, e assim deixa de ser citação.
A perda tem endereço. Some o acusador, some a réplica e some a ordem final. Sobra a imagem de alguém conversando com o céu, que é exatamente o que o soneto está sendo acusado de ser na primeira linha.
No altar
Este soneto sobe ao altar inteiro, sem corte. Trata de um amor que precisa ser praticado pra ser compreendido, e termina numa ordem no plural, dirigida a quem está na sala, não só a quem está na frente.
A ocasião dele é a cerimônia de casamento, civil ou religiosa, a renovação de votos, a bodas e o brinde de jantar de família. Toda ocasião em que alguém precisa dizer por que aquele par se escolheu.
Comece em Ora, direis, ouvir estrelas e termine em capaz de ouvir e de entender estrelas. São as catorze linhas inteiras, pouco menos de um minuto, e a sala reconhece a abertura antes do fim do primeiro verso.
Antes de ler, avise a sala de uma coisa: a primeira frase não é do poeta, é de quem zombava dele. Sem o aviso, metade dos convidados ouve a abertura como declaração e perde a virada dos tercetos.
Um cuidado com o ritmo: não leia o primeiro verso em tom de encanto. Ele é uma provocação, e quem lê a provocação com voz de sonho apaga a diferença entre o acusador e a resposta que vem depois.
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