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Os sonetos que saíram do convento
Sóror Violante do Céu escrevia no convento da Rosa, em Lisboa, e em 1646 viu as Rimas Várias impressas em Rouen, na França.
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Lisboa, século XVII: a cela vira livro
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Se apartada do corpo a doce vida, domina em seu lugar a dura morte. Sóror Violante do Céu publicou o verso em 1646, e ele resolve hoje o aperto de quem sente a ausência de alguém como falta de ar: a poeta chama a saudade de morte em vida.
Sóror é o título de irmã dado às freiras em Portugal. Violante nasceu em Lisboa, com o nome de Violante Montesino, no começo do século XVII, e cresceu numa cidade que então obedecia ao rei da Espanha.
Aos dezoito anos, ela já escrevia para o palco. A comédia Santa Engrácia, de autoria dela, foi representada em Lisboa em 1619, durante a visita do rei Filipe III da Espanha à cidade.
Em 1630, entrou no convento de Nossa Senhora da Rosa, casa das freiras dominicanas (a ordem religiosa fundada por São Domingos) em Lisboa. Trocou o sobrenome de família pelo nome religioso: do Céu.
A cela não calou a poeta. Violante escrevia sonetos (poemas de catorze versos, em duas estrofes de quatro e duas de três), romances e peças curtas, em português e em castelhano, a língua da Espanha. As cópias saíam do convento pelas mãos de visitas e parentes.
Em 1646, os poemas ganharam livro: Rimas Várias, impresso em Rouen, cidade do norte da França. Rouen tinha oficinas que imprimiam em português e em castelhano para a colônia de mercadores portugueses que vivia lá.
A folha de rosto trazia o nome de Sóror Violante do Céu por extenso, e o volume reunia sonetos, romances e poemas de ocasião.
A essa altura, o nome dela já corria. Poetas da corte portuguesa e escritores espanhóis a chamavam de Décima Musa, título que somava a freira às nove musas da mitologia grega.
O livro abre a porta para o poema que mais se repete dela: um soneto que usa só duas palavras para rimar, vida e morte, do primeiro ao último verso.
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I O Poema do Dia
Duas palavras para catorze versos
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Num sarau, soneto do século XVII costuma assustar a sala: todo mundo espera frase torta e palavra que ninguém usa. Violante chega com um poema de vocabulário simples e um jogo só.
O soneto serve para abrir uma leitura porque as rimas alternam vida e morte até o fim, e a sala acompanha o jogo sem precisar de dicionário.
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Se apartada do corpo a doce vida, Domina em seu lugar a dura morte, De que nasce tardar-me tanto a morte Se ausente da alma estou, que me dá vida?
Não quero sem Silvano já ter vida, Pois tudo sem Silvano é viva morte, Já que se foi Silvano, venha a morte, Perca-se por Silvano a minha vida.
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Sóror Violante do Céu, soneto das Rimas Várias, Rouen, 1646.
Apartada quer dizer separada. Na primeira estrofe, a poeta raciocina: se a morte é a alma sair do corpo, e ela está longe de quem é a alma dela, por que a morte demora a chegar?
Silvano é nome de pastor. Os poetas do tempo davam ao amado um nome da poesia pastoril (a que finge conversas de pastores no campo), e o leitor entendia que por trás dele havia gente de carne.
Quem foi o Silvano de Violante ninguém sabe. Os estudiosos discutem se era um amor anterior ao convento ou só uma figura de poesia, e nenhum documento responde.
Repare nas rimas. Os oito versos terminam em vida ou em morte, sempre as mesmas duas palavras, trocando de lugar. O recurso tem nome: rima de palavra repetida, jogo apreciado pelo barroco, o estilo do século XVII que gostava de ideia torcida e de contraste.
O nome Silvano volta quatro vezes na segunda estrofe, uma por verso. A insistência faz a leitura em voz alta: quem ouve sente a repetição antes de entender o argumento.
O soneto segue a forma que Petrarca, poeta italiano do século XIV, espalhou pela Europa: duas quadras (estrofes de quatro versos) armam o problema e dois tercetos o resolvem. Os tercetos deste ficam guardados para a despedida, na terceira faixa.
Quem ouve pela primeira vez costuma sorrir no terceiro verso, quando percebe que a rima voltou para morte. O sorriso ajuda: o poema foi feito para ser admirado pela esperteza, e a sala entra no espírito do barroco.
Na hora de ler
Conte em duas frases de onde vem o soneto: uma freira de Lisboa, um livro impresso na França em 1646.
Leia devagar cada vida e cada morte. A sala percebe o jogo lá pela quarta rima e passa a esperar a próxima.
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II Pra Ler no Altar
Uma vida que não acaba
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Num casamento, a leitura que mais pega é a que promete duração: o amor dito como algo que não chega ao fim. Violante escreveu um soneto que abre com essa ideia virada do avesso.
Vida que não acaba de acabar-se serve ao altar porque diz, em quatro versos, que um sentimento pode insistir além do que se espera dele. Cabe num cartão pequeno.
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Vida que não acaba de acabar-se, Chegando já de vós a despedir-se, Ou deixa por sentida de sentir-se, Ou pode de imortal acreditar-se.
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Sóror Violante do Céu, primeira estrofe de soneto das Rimas Várias, Rouen, 1646.
Em português de hoje: uma vida que nunca termina de terminar, mesmo quando já se despede de você, ou deixou de sentir de tanto que sentiu, ou pode se julgar imortal.
O verso joga com a mesma palavra em duas formas: acaba e acabar-se, sentida e sentir-se. O barroco chamava o recurso de conceito, uma ideia apertada numa frase curta que o ouvinte precisa desembrulhar.
O soneto não traz nome de destinatário. O vós pode ser um amado, uma amiga ou Deus, e a leitura no altar escolhe o primeiro sentido sem trair o texto.
No casamento civil, a estrofe funciona igual: nada nela depende da igreja, e o cartório também comporta um verso de quatro linhas.
No altar, o sentido muda de lado. A vida que não acaba de acabar vira o amor que resiste ao tempo, e quem lê pode dizer o vós olhando para quem escolheu.
A origem: diga que o verso foi escrito numa cela de convento em Lisboa e impresso na França em 1646. A plateia gosta de saber que o livro atravessou fronteira.
O corte: leia só a primeira estrofe. As seguintes descem para a queixa, e o tom de lamento não combina com a cerimônia.
A língua: vós era o tratamento de respeito, dirigido a uma pessoa só. No cartão, mantenha a palavra antiga; ela soa bem numa igreja.
O ritmo: os quatro versos terminam em se. Leia as terminações sem pressa, porque o encanto está no eco.
Na hora de ler
Faça pausa depois de acabar-se, no primeiro verso. A palavra precisa de um segundo para a sala entender o jogo.
Diga o último verso mais firme que os outros. Imortal é a palavra que fica na memória de quem ouviu.
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