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Os 6 versos do senador Otaviano

Francisco Otaviano assinou pelo Brasil a Tríplice Aliança em 1865 e deixou os próprios versos correrem soltos, sem nunca juntá-los num livro.

Parede caiada de uma sala do século 19 com quatro versos escritos a lápis perto de uma janela, e um álbum de capa de couro aberto sobre a mesa.

Versos escritos a lápis na parede de uma sala antiga

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Em carta de 16 de agosto de 1888 ao conselheiro Rodrigo Augusto da Silva, Francisco Otaviano de Almeida Rosa fez numa linha o balanço da própria carreira: “em 63 anos de existência trabalhosa não soube ganhar o pão senão o pão cotidiano de uma família modesta e despretensiosa”. A frase ainda serve a quem chega aos sessenta respeitado por todos, de conta zerada, e precisa explicar aos filhos para onde foi o esforço.

Quem assinava a carta era senador do Império desde 1867, advogado, jornalista do Correio Mercantil e conselheiro por decreto de Pedro II. Em 1º de maio de 1865, em Buenos Aires, ele firmou pelo Brasil o Tratado da Tríplice Aliança, o acordo que uniu Brasil, Argentina e Uruguai contra Francisco Solano López, o presidente do Paraguai, na guerra começada meses antes.

Otaviano tinha ido ao Rio da Prata como ministro plenipotenciário (enviado com poder de assinar tratados em nome do governo), no posto antes ocupado por José Maria da Silva Paranhos, o futuro visconde do Rio Branco. Voltou de lá mais pobre. Um perfil dele impresso em 1871 na série Typos Políticos conta que os salários da missão ficaram nos hospitais de Corrientes, cidade argentina próxima da frente de combate, e em esmolas.

A política, que ele chamava de “Messalina impura” (Messalina foi a mulher do imperador romano Cláudio, lembrada pelos escândalos), comeu o tempo do verso. Otaviano escrevia poemas desde menino e traduziu Horácio, Catulo, Byron, Shakespeare, Shelley, Victor Hugo e Goethe, mas nunca sentou para juntar os próprios versos num livro.

O volume Traduções e Poesias de F. Otaviano saiu no Rio em 1881 pelas mãos do doutor Amorim Carvalho. Os outros poemas ficaram espalhados em jornais, álbuns e cópias feitas à mão por quem gostava deles.

O poema de hoje tem seis versos, e a ficha de Otaviano na Academia Brasileira de Letras, onde ele é patrono da cadeira 13, não registra data nem jornal da primeira impressão. Quando ele morreu, em 1889, um amigo famoso usou esses versos para defini-lo e não precisou citar o título.

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I  O Poema do Dia

O espectro de homem

Ilusões da Vida, de Francisco Otaviano, é uma frase só em seis versos decassílabos (de dez sílabas poéticas): três orações (trechos com verbo próprio) abertas por “Quem” e a sentença dita nos dois últimos versos.

O poema mede o homem pela dor atravessada: quem não sofreu só passou pela vida.

Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça;
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.

Francisco Otaviano de Almeida Rosa, Ilusões da Vida, poema avulso em versos decassílabos, século 19, sem data de primeira impressão registrada.

Em prosa: quem atravessou a vida numa nuvem branca e adormeceu num repouso calmo, quem não sentiu o frio da desgraça, quem passou pela vida sem sofrer, foi sombra de homem, não foi homem; só passou pela vida, não viveu.

Plácido quer dizer sereno, sem agitação. Espectro é fantasma, figura com forma de gente e sem corpo, e a branca nuvem é a vida sem um dia escuro.

Três vezes pela vida

A expressão “passou pela vida” aparece três vezes, no primeiro verso, no quarto e no sexto. Nas duas primeiras ela descreve; na terceira ganha o “Só” na frente e vira condenação.

A repetição de “Quem” na abertura de três versos se chama anáfora (a mesma palavra abrindo versos seguidos), e ela empilha o retrato antes de dar nome ao retratado: espectro.

A rima de três verbos

Os versos ímpares são brancos (sem rima). Os pares fecham no mesmo som, adormeceu, sofreu e viveu, três verbos no passado que contam sozinhos a vida do homem do poema: dormiu, não sofreu, não viveu.

O amigo do dia seguinte

Machado de Assis abriu assim, na Gazeta de Notícias de 29 de maio de 1889, o texto escrito um dia depois da morte de Otaviano: “Morreu um homem. Homem pelo que sofreu; ele mesmo o definiu, em belos versos, quando disse que passar pela vida sem padecer, era ser apenas um espectro de homem, não era ser homem.”

Machado não deu o título nem copiou os versos. A paráfrase supõe um leitor capaz de completar o poema de memória.

Na frase seguinte, o cronista mede a dor do amigo: “Raros terão padecido mais; nenhum com resignação maior.”

O que ele padeceu

Os registros da família dão a medida. Em 1874, o casal perdeu a filha Violeta, aos dezessete anos; em 1880, o filho Benjamim, aos quatro.

O registro de óbito de Otaviano aponta uremia (acúmulo no sangue do que o rim deixou de filtrar) e cistite crônica (inflamação da bexiga que não cede). Ele fez duas viagens à Europa atrás de tratamento, e nenhuma resolveu.

Na hora de ler

Leia os quatro primeiros versos num fôlego só, como a frase que eles formam, e pare depois de “não sofreu”. Diga “Foi espectro de homem” mais devagar e deixe “não viveu” cair sem subir o tom.

 
 

II  Pra Ler no Altar

O nome nas estrelas

Para um casamento, a página traz uma quadra (estrofe de quatro versos) de Francisco Otaviano que, segundo um estudante de direito, ainda estava escrita numa parede em 1858.

Os versos servem ao altar porque contam a espera: a manhã inteira da vida gasta em sonhar com uma pessoa.

Oh! Se te amei! Toda a manhã da vida
Gastei em sonhos, que de ti falavam;
Nas estrelas do céu lia o teu nome,
Ouvia-te nas brisas que passavam.

Francisco Otaviano de Almeida Rosa, abertura de poema citada por Couto de Magalhães na Revista Acadêmica, 1859.

Em prosa: ah, se eu te amei! Gastei a manhã inteira da vida em sonhos que falavam de ti; lia o teu nome nas estrelas do céu e te ouvia nas brisas que passavam.

A manhã da vida é a mocidade. O “Oh!” do começo é suspiro, e o “Se te amei!” vale por “quanto te amei”.

A parede da Rua do Ouvidor

Couto de Magalhães, formado em direito em São Paulo em 1859, deixou o testemunho na Revista Acadêmica daquele ano: “Numa casa da rua do Ouvidor, desta cidade, existia, ainda o ano passado, escrita na parede, uma bela poesia deste escritor, que começa assim”.

Ainda o ano passado quer dizer 1858. O relato não conta quem copiou os versos na parede, nem se a quadra resistiu à pintura seguinte da casa.

A rima de quatro versos

A quadra repete o desenho de Ilusões da Vida: o primeiro e o terceiro versos ficam sem rima, e o segundo rima com o quarto, falavam e passavam. Os dois verbos estão no pretérito imperfeito, o tempo do hábito, do que se repetia todo dia.

A noiva do Correio Mercantil

A quadra não diz a quem fala, e o relato de 1859 também não. Em novembro de 1854, Otaviano casou com Eponina Alves Branco Muniz Barreto, de dezessete anos, filha de Joaquim Francisco Alves Branco Muniz Barreto, dono do Correio Mercantil, jornal onde o noivo já trabalhava.

Ela ficou conhecida como Eponina Otaviano, e o casal teve seis filhos: Jarbas, Alice, Eduardo, Violeta, Álvaro e Benjamim.

Anos depois, Machado de Assis lembrou numa crônica as noites na casa do Cosme Velho, passadas entre os livros, e a dona da casa na mesma sala, “ainda elegante, a despeito dos anos”.

Por que funciona no altar

No altar, a quadra conta a espera que vem antes do sim.

• O corte: os quatro versos inteiros, sem tirar nenhum.

• O tom: de confissão, com o “Oh!” dito baixo.

• O leitor: um dos noivos, nos votos ou no brinde da festa.

Na hora de ler

Faça uma pausa depois de “Oh! Se te amei!” e só então siga para “Toda a manhã da vida”. No terceiro verso, olhe para quem casa com você ao dizer “o teu nome”.

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Nota do editor

Essa edição é gratuita, mas requer horas de pesquisa, escrita, design, revisão, agendamento e publicação. Cada apoio seu é um gesto simples para continuarmos esse projeto 100% gratuito.

 
 

III  Pra Dizer Adeus

A página do álbum

Numa despedida, a página vai a um poema que Francisco Otaviano escreveu de improviso no álbum de uma moça, o caderno onde as visitas deixavam versos e dedicatórias. O título é francês, C'est fini! (Acabou!).

Os versos servem ao adeus porque quem fica pede pouco: que a própria página seja raspada.

Sem fé, sem amor, sem glória
Que direito posso ter
Para meu nome inscrever
Em tão formoso sacrário?
Raspai, senhora, depressa
Esta página perdida:
A história de minha vida
Não profane um santuário.

Francisco Otaviano de Almeida Rosa, C'est fini!, últimos oito versos do poema escrito num álbum, sem data registrada.

Em prosa: sem fé, sem amor e sem glória, que direito tenho de escrever meu nome num lugar tão bonito e sagrado? Raspe depressa, senhora, esta página perdida, para a história da minha vida não profanar um santuário.

Sacrário é o lugar onde se guarda o que é sagrado; no poema, o próprio álbum. Raspar era o jeito de tirar a tinta do papel com lâmina, e profanar é sujar o que é sagrado.

A moça do inglês rico

A dona do álbum era filha de um médico famoso da Corte e estava contratada para casar com um inglês muito rico. Otaviano foi se despedir dela. Convidado a deixar uma lembrança no álbum, escreveu ali mesmo.

O relato que sobreviveu guarda a profissão do pai e a nacionalidade do noivo. O nome dela não aparece nele, e a data do encontro também não.

A rima de sete sílabas

Os versos têm sete sílabas, a redondilha maior (o metro das quadrinhas populares). As rimas costuram as duas metades: ter com inscrever, perdida com vida e, de ponta a ponta, sacrário com santuário, que prende a pergunta do quarto verso ao pedido do oitavo.

Glória e depressa ficam sem par nestes oito versos.

Na hora de ler

Use os quatro últimos versos quando alguém parte para vida nova longe, num casamento ou numa mudança, e você quer desejar sorte sem pedir lugar na bagagem. Diga “Raspai, senhora, depressa” com meio sorriso: o pedido é exagero de quem quer continuar lembrado.

Quando Otaviano morreu, a casa devia 6 contos de réis. Hélio Lobo registrou em 1929 que a família pagou os credores com vinte e cinco dias do subsídio de senador e com o dinheiro de um leilão da mobília.

Os livros foram junto.

 
 
 

Quiz da edição

No texto, em que data e cidade Francisco Otaviano assinou pelo Brasil o Tratado da Tríplice Aliança?

A1º de maio de 1864, em Montevidéu
B1º de maio de 1868, em Assunção
C1º de maio de 1865, em Buenos Aires
D1º de maio de 1870, no Rio de Janeiro

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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