|
|
O verso que ele guardou vinte anos antes de publicar
Um estudante largou a Politécnica aos dezoito anos com tuberculose, e a frase de fuga que anotou virou o poema mais recitado do país.
|
Clavadel, 1913, o sanatório dos versos
|
| ▼ |
| |
|
Em 1904, um rapaz de dezoito anos abandonou o curso de arquitetura na Escola Politécnica de São Paulo. Não foi reprovação nem falta de dinheiro. Ele tinha começado a tossir de um jeito que não passava, e o médico mandou parar tudo no meio do ano letivo.
O nome da doença era tuberculose, e em 1904 tuberculose não tinha remédio. Havia repouso, ar de montanha, comida reforçada e paciência. O resto era esperar.
Manuel Bandeira contou depois que passou a viver na expectativa de morrer cedo, e que largou qualquer plano de carreira porque não fazia sentido montar um. A conta que ouviu não era de anos, era de meses.
Vieram então quinze anos de endereços escolhidos por altitude e clima seco. Recife, Rio, Teresópolis, Campanha em Minas Gerais, Uruguai. Em 1913 ele foi parar num sanatório em Clavadel, nos Alpes suíços, onde os doentes passavam o dia deitados em varandas viradas para a neve.
Foi lá que conheceu um francês de dezessete anos, também tuberculoso, chamado Eugène Grindel. O rapaz escrevia versos e mostrava para ele. Anos mais tarde o mundo passaria a chamar Grindel de Paul Éluard.
A guerra de 1914 esvaziou o sanatório e mandou Bandeira de volta ao Brasil sem tratamento nenhum concluído. Ele voltou para a casa do pai, continuou doente, continuou escrevendo, e não morreu.
Morreu em 1968, aos oitenta e dois anos, sessenta e quatro anos depois do prognóstico que o tirou da engenharia. No caminho publicou dez livros de poesia, traduziu teatro, deu aula de literatura no Colégio Pedro II e entrou para a Academia Brasileira de Letras.
O poema que virou o mais recitado dele nasceu justamente da falta de horizonte. É um plano de fuga escrito por alguém que não podia sair de casa, e a cidade para onde ele foge existiu de verdade, em cima de um mapa antigo.
A seguir vêm o nome estrangeiro que ele carregou por duas décadas, uma linha curta que resolve um brinde de casamento e o poema que ele deixou pronto para uma despedida sem choro.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I O Poema do Dia
O nome persa que virou plano de fuga
|
|
Ele tinha dezesseis anos e uma aula de história quando ouviu o nome pela primeira vez. O poema só ficou pronto duas décadas depois.
Pasárgada foi uma cidade de verdade, capital do império fundado por Ciro, o Grande, no século VI antes de Cristo, no que hoje é o Irã. Bandeira topou com o nome numa leitura de autor grego, ainda no colégio.
O que prendeu nele não foi a história, foi o som. Ele contou que o nome lhe soou como jardim de delícias, um lugar onde tudo era permitido.
Naquele momento apareceu a frase inteira, pronta, com a métrica já certa: vou-me embora pra Pasárgada. E ficou parada.
Nenhum poema veio atrás. A frase ficou guardada por cerca de vinte anos, enquanto ele adoecia, mudava de cidade e enterrava a mãe, o pai e a irmã.
O poema saiu de uma vez só, no Rio, num dia em que a frase voltou sozinha. Foi publicado em Libertinagem, o livro de 1930 que também traz Poética e Porquinho-da-índia.
|
Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura De tal modo inconsequente Que Joana a Louca de Espanha Rainha e falsa demente Vem a ser contraparente Da nora que nunca tive E como farei ginástica Andarei de bicicleta Montarei em burro brabo Subirei no pau de sebo Tomarei banhos de mar!
|
Manuel Bandeira, trechos de Vou-me embora pra Pasárgada, no livro Libertinagem, Rio de Janeiro, 1930.
Três coisas pedem tradução antes da leitura em voz alta. Pau de sebo é o poste engordurado das festas de interior, que a criançada sobe para pegar o prêmio no alto.
Burro brabo é o animal ainda não domado, montaria de quem tem saúde de sobra. Joana a Louca de Espanha foi rainha de Castela no século XVI, trancada quarenta e seis anos como louca por ordem da própria família.
O verso tem sete sílabas na maior parte do poema, a mesma medida da quadrinha popular e do repente. Quem lê alto sente a batida antes de entender o texto.
O contraste é a chave da leitura. Cada verbo está no futuro, e cada futuro é de coisa física que um doente de peito não podia fazer.
Em voz alta, esses três trechos levam cerca de cinquenta segundos. Não acelere no verso do pau de sebo, que é onde a lista ganha ar de criança fazendo pedido.
A linha de apresentação cabe numa frase: Manuel Bandeira, Vou-me embora pra Pasárgada, do livro Libertinagem, de 1930. Diga o nome, o livro e o ano, espere um segundo e comece.
|
|
|
|
|
II Pra Ler no Altar
Duas linhas que resolvem um brinde
|
|
O poema tem exatamente uma frase e nenhuma rima. Cabe num brinde de casamento, numa placa de aniversário de namoro e num cartão que acompanha flores.
|
A ocasião é a celebração de amor sem solenidade. Serve no casamento civil, no brinde do jantar, na renovação de votos e na festa de bodas em casa.
O poema se chama Madrigal tão engraçadinho e está no mesmo livro de 1930. Madrigal, na tradição renascentista, é o elogio amoroso curto e cantável, e o título já avisa que ele vai quebrar a forma por dentro.
|
Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha vida, inclusive o porquinho-da-índia que me deram quando eu tinha seis anos.
|
Manuel Bandeira, Madrigal tão engraçadinho, íntegra do poema, no livro Libertinagem, Rio de Janeiro, 1930.
O porquinho-da-índia não é piada solta. Bandeira tem outro poema no mesmo livro, chamado Porquinho-da-índia, sobre o bicho que ganhou na infância e que só queria ficar embaixo do fogão, indiferente ao dono.
Ou seja, o elogio compara a mulher amada ao primeiro amor não correspondido da vida dele. Quem conta a história antes de ler ganha a sala inteira em dez segundos.
A troca do nome: aqui o nome pode ser trocado pelo da noiva. O poema não tem métrica contada nem rima, então o nome novo entra sem estourar nada, ao contrário do que acontece em quadra medida.
Para uma cerimônia de tom mais alto existe outra saída do mesmo autor, no livro Belo Belo, de 1948.
|
Belo belo minha bela Tenho tudo quanto quero Tenho o fogo de constelações extintas há milênios E o risco brevíssimo, que foi? passou, de tantas estrelas cadentes
|
Manuel Bandeira, quatro versos de Belo Belo, no livro Belo Belo, Rio de Janeiro, 1948.
Na hora de ler
Diga antes de quem é e de quando é. Uma frase resolve: Manuel Bandeira, Madrigal tão engraçadinho, do livro Libertinagem, de 1930.
Pare antes de inclusive. A vírgula que abre a segunda linha é onde a piada mora, e quem corre por cima dela entrega um elogio comum.
Não explique a graça depois. O poema leva doze segundos e se explica sozinho na cara de quem ouviu.
Se for ler os dois, comece pelo Belo Belo e feche no madrigal. A ordem inversa deixa a sala rindo e depois obriga o riso a virar solenidade.
|
|
|