In partnership with

Poesia do Dia  Poesia do Dia ED 001

O verso entre aspas do Hino Nacional

Em julho de 1843, um estudante de dezenove anos escreveu em Coimbra os quatro versos que o Brasil decorou antes de saber de quem eram.

Uma palmeira alta ao amanhecer, com um sabiá pousado no topo e a névoa baixa sobre o campo.

O sabiá no alto da palmeira, ao amanhecer

▼
 

Em outubro de 2002, um decreto federal declarou o sabiá-laranjeira ave símbolo do Brasil. O pássaro não venceu por raridade, por tamanho nem por canto medido em laboratório. Venceu porque aparece no segundo verso de um poema de 1843, e porque o país inteiro decorou o verso antes de aprender de quem ele era.

A palmeira do primeiro verso teve destino parecido. Virou o retrato oficial da terra natal em livro escolar, em discurso de formatura, em placa de bar de estrada e em quadro de repartição pública. Duas imagens, um pássaro e uma árvore, passaram a valer como resumo do país inteiro.

O poema tem título, tem autor e tem data, e as três informações raramente aparecem juntas quando o verso é citado. Chama-se Canção do Exílio. É de Antônio Gonçalves Dias, e abre Primeiros Cantos, o livro que ele publicou em 1846, no Rio de Janeiro.

Ele escreveu o texto do outro lado do Atlântico, em Coimbra, onde cursava Direito com dinheiro contado. Tinha dezenove anos e algumas semanas pela frente até completar vinte. Faltavam ainda dois anos pra ele pisar de novo no Maranhão.

O assunto não explica a permanência do texto. Saudade da terra é o tema mais comum da poesia de língua portuguesa, e a estante está cheia de poema de saudade que ninguém repete. O que ficou desses vinte e quatro versos foi a forma: sete sílabas por linha, palavra de uso diário, nenhuma imagem que precise de nota de rodapé.

A mesma forma faz o poema servir na mão de quem precisa falar em público. O texto inteiro cabe em pouco mais de um minuto de leitura, dispensa explicação prévia e funciona tanto numa festa de chegada quanto numa despedida de aeroporto.

O que vem agora é o poema completo, sem corte, com a história de quem o escreveu e as duas ocasiões em que ele serve na sua boca.

Continue lendo!

 
 

I  O Poema do Dia

Julho de 1843, escrito em Coimbra

Um estudante longe de casa, uma universidade portuguesa e um manuscrito com data. Veja o que saiu dali, e o poema completo, nas cinco estrofes em que ele foi escrito.

Antônio Gonçalves Dias nasceu em Caxias, no Maranhão, em agosto de 1823. Filho de um comerciante português com uma mulher mestiça, cresceu dentro de casa de comércio e atravessou o Atlântico aos quinze anos, mandado pra Portugal pra continuar os estudos.

Matriculou-se em Direito na Universidade de Coimbra em 1840. A mesada da família falhava com frequência, e ele atravessou boa parte do curso amparado por colegas de turma que dividiam moradia e livro.

Foi ali que ele leu os românticos portugueses e conviveu com um punhado de estudantes brasileiros ocupados com a mesma pergunta: como seria a poesia de um país que tinha se tornado independente havia menos de vinte anos.

A resposta dele começa antes do primeiro verso. O poema abre com uma epígrafe alemã, tirada da canção de Mignon, de Goethe: "Kennst du das Land, wo die Citronen blühn", conheces a terra onde florescem os limoeiros.

O empréstimo declarava o programa da casa. Falar da própria terra usando a fôrma que a Europa tinha acabado de afinar para o assunto, e trocar o limoeiro do original pela árvore que ele via da janela da infância.

O manuscrito traz a data escrita à mão: Coimbra, julho de 1843. São vinte e quatro versos em redondilha maior, sete sílabas por linha, a mesma medida da cantiga popular portuguesa e do repente nordestino.

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Canção do Exílio, de Antônio Gonçalves Dias, poema de abertura de Primeiros Cantos, Rio de Janeiro, 1846. O texto acima segue a grafia da edição de referência, com a elisão do último verso preservada.

A leitura inteira leva perto de um minuto e vinte em ritmo de cerimônia, com uma pausa no fim de cada estrofe e dois tempos de silêncio na última linha.

A linha de apresentação cabe numa frase: Gonçalves Dias, Canção do Exílio, escrita em 1843, do outro lado do oceano. Diga o nome, o título e o ano, espere um segundo e comece a ler.

 
 

II  Pra Ler no Altar

O verso que o Brasil inteiro reescreveu

Um poema entra de vez na língua quando a forma dele fica simples o bastante pra qualquer pessoa copiar. A Canção do Exílio ficou porque virou molde: quem discorda dela reescreve o texto em vez de esquecer.

Em 1909, Joaquim Osório Duque-Estrada escreveu a letra que o Hino Nacional canta até hoje, sobre a música que Francisco Manuel da Silva tinha composto em 1831. A letra virou oficial por lei em janeiro de 1922, às vésperas do centenário da Independência.

Perto do fim da primeira parte, o texto do Hino faz uma coisa rara em documento oficial: abre aspas. "Nossos bosques têm mais vida", "Nossa vida" no teu seio "mais amores".

As aspas estão na letra oficial, não são invenção de professor. Elas apontam para a segunda estrofe do poema de 1843, e são a razão pela qual milhões de pessoas cantam Gonçalves Dias de pé, em estádio e em pátio de escola, sem saber que estão citando.

Duque-Estrada não disfarçava empréstimo, ele citava. O verso já era patrimônio comum quando a letra foi escrita, e o Hino apenas reconheceu por escrito o que o país repetia de cor havia mais de meio século.

A outra prova da força do molde está na fila de poetas que reescreveram o texto de propósito. Oswald de Andrade abriu o Canto de regresso à pátria, em Pau Brasil (1925), com "Minha terra tem palmares, onde gorjeia o mar". Murilo Mendes trocou a paisagem por macieiras da Califórnia na Canção do Exílio dos Poemas (1930).

Carlos Drummond de Andrade escreveu a Nova Canção do Exílio em A Rosa do Povo (1945), e começa justamente desfazendo o cenário: um sabiá na palmeira, longe. José Paulo Paes reduziu o poema inteiro a interjeições na Canção do Exílio Facilitada, de Meia Palavra (1973).

Em 1968, Chico Buarque e Tom Jobim levaram o mesmo pássaro pro palco com a canção Sabiá, vencedora do Festival Internacional da Canção daquele ano. Nenhum desses textos existiria sem o de 1843, e todos contam com o leitor reconhecendo a matriz na primeira linha.

No altar

Numa cerimônia, o poema funciona quando alguém atravessou distância pra estar ali: o casal que mora fora, a família que veio de outro estado, o convidado que pegou dois aviões pra chegar.

Leia a segunda estrofe sozinha, quatro versos, cerca de quinze segundos. Ela elogia o lugar onde as pessoas estão sem mencionar saudade nenhuma, e é exatamente o trecho que o Hino guardou entre aspas.

Se o casal veio de longe e vai voltar pra longe depois da festa, leia a primeira estrofe junto. Duas estrofes, oito versos, meio minuto de leitura, e a sala inteira reconhece as palavras antes do fim.

A estrofe final fica de fora do altar. Ela pede outro tipo de ocasião e outro tipo de silêncio.

 
 

III  Pra Dizer Adeus

O trecho pra mandar pra quem está longe

A última estrofe é a única em que o poeta pede alguma coisa. Nas quatro anteriores ele compara céu, várzea e bosque; na quinta, ele faz um pedido direto de volta pra terra, com a palmeira e o sabiá aparecendo pela quarta vez.

O pedido foi atendido. Gonçalves Dias se formou em Coimbra e desembarcou no Maranhão em 1845, dois anos depois de escrever o poema. Viveu ainda no Rio de Janeiro, viajou pela Europa a trabalho e a tratamento de saúde, e escreveu boa parte da obra longe da terra do primeiro verso.

Em novembro de 1864, o navio francês que o trazia de volta encalhou nos baixios do litoral maranhense, a poucas horas do porto. Ele foi o único a bordo que não desceu. O poeta que pedira pra rever as palmeiras naufragou dentro do estado onde elas estavam.

A biografia explica por que a estrofe final pesa mais do que as outras quatro. Ela serve na despedida de quem está indo embora e na lembrança de quem já foi, e é o trecho que mais chega em mensagem de celular.

O trecho: para quem acabou de mudar de cidade ou de país, mande a primeira estrofe, quatro versos. Para quem está longe há anos e fala em voltar, mande a última, seis versos. Nunca corte um verso no meio pra caber na tela, porque o corte destrói a medida de sete sílabas que segura o texto de pé.

A linha de apresentação: escreva antes do poema quem escreveu, quando e onde. Uma frase basta: "Gonçalves Dias escreveu em 1843, estudando em Portugal, com saudade do Maranhão." Sem a linha, o verso chega parecendo mensagem pronta de aplicativo.

O envio: mande o texto sozinho, sem comentário depois. A pessoa do outro lado precisa de silêncio pra ler, e qualquer frase sua embaixo do poema entra na frente do que ele diz.

Um detalhe muda a recepção: mande em texto, nunca em imagem. Quem recebe o poema escrito pode copiar, guardar e reenviar. Quem recebe um card com o verso desenhado por cima de uma foto recebe peça de rede social, que ninguém guarda e que quase sempre chega sem o nome do autor.

Vinte e quatro versos escritos por um rapaz de dezenove anos numa cidade estrangeira atravessaram dois séculos, entraram no Hino do país e continuam disponíveis, sem autorização e sem custo, pra qualquer pessoa que precise dizer que está longe de casa.

O poema serve na mão de quem tem alguém pra mandar.

"Quem, na minha lista, está longe de casa hoje?"

 
 

Quiz da edição

Quantos anos Gonçalves Dias tinha quando escreveu a Canção do Exílio em Coimbra, em julho de 1843?

A17 anos
B23 anos
C19 anos
D21 anos
Veja o ranking de quem mais acerta →
 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🪶🪶🪶🪶🪶  ótima 🪶🪶🪶🪶  boa 🪶🪶🪶  ok 🪶🪶  ruim 🪶  péssima
 

Quem banca a edição de hoje

Smart starts here.

You don't have to read everything — just the right thing. 1440's daily newsletter distills the day's biggest stories from 100+ sources into one quick, 5-minute read. It's the fastest way to stay sharp, sound informed, and actually understand what's happening in the world. Join 4.5 million readers who start their day the smart way.

O clique de apoio mantém a edição gratuita

Recomendação de Newsletter
Biografia do Dia

🖋️ Biografia do Dia

A vida de um nome que ficou na história, em três minutos por dia. No seu email todo dia às 06:06.

Quero receber →

 
Sua jornada
Nível {{nivel | 0}} · {{rank_nome | Visitante}} {{xp | 0}} XP
 

Faltam {{xp_falta | 5}} XP pro Nível {{nivel_prox | 1}}

Responda o quiz de hoje: +3 XP →

{{edicoes_lidas | 1}}
edições lidas
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações

Top {{top_pct | 100}}%: posição {{pos_mes | 0}} na comunidade Poesia do Dia nesse mês

Quero subir meu nível →

 
 
 

Leve o texto na mão.

Poesia do Dia

POESIA DO DIA

Dois minutos de arte, todo dia

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Crie sua Newsletter