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O soneto que o Brasil só ouviu em 1972
Gregório de Matos escreveu Triste Bahia numa colônia onde a prensa era proibida, e os versos atravessaram três séculos copiados à mão.
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Salvador, século 17, o soneto copiado à mão
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Em janeiro de 1972 chegou às lojas brasileiras um disco gravado em Londres. O lado A fecha numa faixa de nove minutos e trinta e dois segundos, a mais longa do álbum, e ela não abre com voz nem com violão: abre com berimbau.
Quando a voz entra, o que ela canta não é letra de canção. É um soneto: Triste Bahia, ó quão dessemelhante estás e estou do nosso antigo estado.
A assinatura da faixa traz dois nomes, Caetano Veloso e Gregório de Matos. O segundo tinha saído de cena em 1696, duzentos e setenta e seis anos antes daquele lançamento.
O disco é Transa, gravado durante o exílio em Londres e lançado pela Philips no mesmo mês em que o cantor pisou de volta no Brasil, depois de quase dois anos e meio fora.
Ele tinha saído do país em 1969, depois de dois meses preso e de um período de prisão domiciliar em Salvador. Gravou em Londres com músicos brasileiros e escolheu um poeta do século 17 pra fechar o lado A.
Gregório de Matos nunca viu um verso seu impresso, e não foi por falta de leitor. Na colônia, montar uma prensa era caso de apreensão.
A proibição tem documento e data. Em 1706 uma carta régia mandou recolher os tipos de uma oficina montada no Recife. Em 1747 outra ordem fechou a tipografia de Antônio Isidoro da Fonseca, no Rio de Janeiro, e devolveu as prensas pra Portugal.
Sem prensa, a poesia dele andou de caderno em caderno. Copistas do século 17 e do século 18 passaram os poemas à mão em códices, e é de cópia de cópia que vem tudo o que hoje se lê com o nome dele. Não se conhece um autógrafo sequer.
Nessa travessia toda o soneto chegou inteiro, com as catorze linhas. O que a maior parte do país conhece, porém, são as oito primeiras, as únicas que entraram no disco.
O que vem agora é quem assinou o poema, o que ele estava olhando quando escreveu, e as catorze linhas completas, na grafia das edições modernas.
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I O Poema do Dia
Salvador, século 17, um poema sem tipografia
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Um bacharel formado em Coimbra, dois cargos de igreja perdidos por recusa de batina e catorze linhas dirigidas a uma cidade inteira. Veja quem assinou o soneto, o que ele via pela janela, e o poema completo.
Gregório de Matos Guerra nasceu em Salvador em 1636, filho de português com terra na Bahia, e estudou no colégio dos jesuítas da cidade.
Em 1652 embarcou pra Lisboa. Formou-se em Cânones pela Universidade de Coimbra em 1661, casou, virou juiz em Alcácer do Sal e passou quase toda a vida adulta em Portugal.
Em 1682 voltou pra Bahia com dois cargos na mão, vigário-geral e tesoureiro-mor do arcebispado recém-criado, entregues pelo primeiro arcebispo, dom Gaspar Barata.
Perdeu os dois. Recusou completar as ordens maiores, recusou vestir a batina e foi deposto. Dali em diante o ofício dele foi escrever verso sobre a cidade e sobre quem mandava nela.
O apelido que pegou foi Boca do Inferno. A obra atribuída a ele mistura sátira, lírica amorosa, poema sacro e obscenidade, e boa parte tem endereço certo: gente viva, com nome e sobrenome, na Salvador do século 17.
O soneto de hoje aparece nas edições com o título À cidade da Bahia e é conhecido pela primeira linha. Ele não persegue uma pessoa: mira uma praça de comércio inteira.
A cena é a Baía de Todos os Santos. Pela barra larga entram os navios de fora, sai açúcar bom e entra mercadoria cara. O poeta se põe no mesmo nível da cidade, empenhado como ela, e faz o balanço dos dois de uma vez.
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Triste Bahia! Ó quão dessemelhante Estás e estou do nosso antigo estado! Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado, Rica te vi eu já, tu a mi abundante. A ti trocou-te a máquina mercante, Que em tua larga barra tem entrado, A mim foi-me trocando, e tem trocado, Tanto negócio e tanto negociante. Deste em dar tanto açúcar excelente Pelas drogas inúteis, que abelhuda Simples aceitas do sagaz Brichote. Oh se quisera Deus que de repente Um dia amanheceras tão sisuda Que fora de algodão o teu capote!
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Gregório de Matos, À cidade da Bahia, século 17, na grafia das edições modernas. Nenhuma linha dele foi impressa enquanto viveu, e o texto chegou até aqui por cópias manuscritas.
Duas palavras pedem tradução na hora de ler. Máquina mercante é a frota de comércio que entra pela barra. Brichote é o estrangeiro que faz a troca, em geral o inglês.
O fecho é um desejo, não uma acusação: que a cidade acordasse sensata a ponto de vestir capote de algodão, ou seja, de vestir o que ela mesma produz em vez do que compra de fora.
Em voz alta, as catorze linhas levam cerca de cinquenta segundos. Pause depois de tanto negociante, respire antes de Oh se quisera Deus e leve o terceto final mais devagar que o resto.
A linha de apresentação cabe numa frase: Gregório de Matos, À cidade da Bahia, Salvador, século 17. Diga o nome, o título e o século, espere um segundo e comece a ler.
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II Pra Ler no Altar
A estrofe pra quem homenageia uma cidade
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Um poema dirigido a uma cidade funciona em cerimônia porque fala com o lugar, e não sobre o lugar. As oito primeiras linhas de Triste Bahia fazem esse serviço em trinta e cinco segundos, e foram exatamente as oito que entraram no disco de 1972.
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Na faixa gravada em Londres, as duas quadras entram inteiras e os dois tercetos ficam de fora. A escolha é de palco: a quadra chama a cidade pelo nome, o terceto é comentário de comércio e pede nota de rodapé.
Quem vai ler numa cerimônia pode repetir a decisão. Comece em Triste Bahia e pare em tanto negociante. São oito linhas, cerca de trinta e cinco segundos, e a sala entende o endereço já na primeira palavra.
Trocar Bahia pelo nome da sua cidade quebra o verso e entrega o truque. Leia o original inteiro e faça a ponte na frase seguinte, em prosa, dizendo de que lugar você está falando.
A ocasião é a cerimônia de cidade: aniversário de município, posse de prefeito ou de vereador, entrega de título de cidadão, inauguração de obra pública, sessão solene de câmara, encerramento de gestão.
O poema encaixa nas duas pontas do sentimento. Ele diz que o lugar mudou e que quem fala mudou junto, e é a reciprocidade, não a queixa, que faz a plateia se reconhecer.
Existe um risco de leitura. Quem ouve só a primeira linha entende lamento de saudosista; quem ouve as oito entende balanço de contas, com porto, mercadoria e data no meio.
No altar
Casamento não é lugar pra este soneto. O texto é balanço de perda, e mesa de festa não tem onde encaixar uma conta de trezentos anos.
Há uma exceção estreita: casamento de quem voltou pra cidade natal pra casar. Nesse caso a leitura entra no discurso do anfitrião, nunca na troca de votos, e para na oitava linha.
Antes de ler, diga uma frase de contexto: o poema é do século 17 e ficou mais de cem anos sem sair impresso, porque na colônia a prensa era proibida. A sala ouve diferente quando sabe a idade do papel.
Um trecho fica fora de qualquer palco de festa: o terceto do Brichote. Sem explicação a palavra trava a leitura, e com explicação a cerimônia vira aula.
Se a cerimônia tiver som, o berimbau da gravação de 1972 resolve a abertura. Deixe a introdução tocar, corte quando a voz entrar e leia você as oito linhas.
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