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O soneto que Machado escreveu para Carolina
Em outubro de 1904, depois de quase trinta e cinco anos de casamento, Machado escreveu catorze linhas hoje gravadas no túmulo dos dois.
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Rio de Janeiro, 1904, o soneto A Carolina
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Em 20 de outubro de 1904, numa casa da rua Cosme Velho, no Rio de Janeiro, terminou uma convivência de trinta e quatro anos, onze meses e oito dias.
O homem que ficou na casa tinha sessenta e cinco anos e era o escritor mais respeitado do país. Os dois haviam se casado em 12 de novembro de 1869, numa cerimônia que a família dela, em Portugal, recebeu de má vontade.
Nas semanas seguintes ele escreveu catorze linhas e não publicou nada de imediato.
O texto apareceu em 1906, na abertura de Relíquias de Casa Velha, antes do primeiro conto do volume. Acima do primeiro verso, duas palavras de dedicatória: A Carolina.
Depois o poema saiu da página e foi para a pedra. Ele está gravado no túmulo do casal, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, onde os dois estão enterrados lado a lado.
O soneto é italiano: duas quadras de quatro versos, dois tercetos de três, catorze decassílabos ao todo. As palavras são de conversa, e só seis pedem tradução hoje.
A escolha que muda tudo está na pessoa do verbo. O poema é dito na segunda pessoa, direto a ela: descansas, trago-te, trazer-te. Não é um texto sobre alguém, é um texto dito a alguém.
Daí vem a força dele em voz alta, e daí vem também a importância de escolher a estrofe certa.
As duas quadras não servem à mesma ocasião. A primeira é a chegada de quem ficou, com flores na mão, ao lado de quem partiu.
A segunda descreve o afeto que atravessou a vida inteira dos dois e cabe inteira numa festa de bodas, sem uma palavra de despedida.
Os tercetos vêm depois e fecham com a sintaxe mais torta do soneto, aquela que quem lê com pressa entrega errado.
O que vem agora é quem foi Carolina, o que ela fazia com os originais dele, o soneto inteiro na grafia das edições modernas e as seis palavras que pedem tradução antes de qualquer leitura.
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I O Poema do Dia
A portuguesa que lia os originais primeiro
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Uma mulher quatro anos mais velha, um casamento de quase trinta e cinco anos e catorze linhas escritas em 1904. Veja quem foi Carolina e o soneto inteiro.
Carolina Augusta Xavier de Novais nasceu no Porto, em Portugal, em 1835, quatro anos antes do homem com quem viveria mais da metade da vida.
Ela chegou ao Rio de Janeiro em 1868 para acompanhar o irmão, o poeta Faustino Xavier de Novais, que morava na cidade e estava doente.
Foi por Faustino que os dois se conheceram, na roda de escritores em volta do irmão dela.
Ele tinha trinta anos quando se casaram: mulato, filho de um pintor de paredes e de uma açoriana, epilético e gago. Ela era branca, portuguesa e de família com nome.
O casal não teve filhos e passou boa parte da vida na casa da rua Cosme Velho, no bairro das Laranjeiras.
Carolina foi a primeira leitora de tudo. Ela lia os originais antes de qualquer editor, copiava trecho, conferia o português e opinava sobre o que ficava e o que saía. Ele escrevia à mão, e ela conhecia a letra dele melhor que ninguém.
Ela partiu em 20 de outubro de 1904. Ele viveu menos de quatro anos depois dela e morreu em 29 de setembro de 1908, na mesma casa do Cosme Velho.
A Carolina é um soneto italiano: duas quadras, dois tercetos, catorze versos decassílabos.
As quadras rimam em envelope, o primeiro verso com o quarto e o segundo com o terceiro, e as duas usam os mesmos dois sons: derradeiro e companheiro, verdadeiro e inteiro, vida e querida, lida e apetecida.
Os tercetos mudam o desenho e alternam as rimas: arrancados, unidos, separados; malferidos, formulados, vividos.
Duas marcas do texto pedem atenção. A palavra querida aparece duas vezes na primeira quadra, na abertura do primeiro verso e no fim do terceiro.
E o terceiro verso tem dois tempos verbais colados: venho e virei. Presente e futuro na mesma linha, a promessa de voltar dita ao lado de quem já não volta.
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Querida, ao pé do leito derradeiro Em que descansas dessa longa vida, Aqui venho e virei, pobre querida, Trazer-te o coração de companheiro. Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro Que, a despeito de toda a humana lida, Fez a nossa existência apetecida E num recanto pôs um mundo inteiro. Trago-te flores, restos arrancados Da terra que nos viu passar unidos E ora mortos nos deixa e separados. Que eu, se tenho nos olhos malferidos Pensamentos de vida formulados, São pensamentos idos e vividos.
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Machado de Assis, A Carolina, poema de abertura de Relíquias de Casa Velha, Rio de Janeiro, 1906, aqui na grafia das edições modernas.
Seis palavras pedem tradução na hora de ler. Derradeiro é o último; lida é o trabalho de todo dia; apetecida quer dizer digna de ser desejada; ora, no décimo primeiro verso, significa agora; malferidos são olhos feridos com gravidade; idos são os que já passaram.
Em voz alta, as catorze linhas levam cerca de cinquenta e cinco segundos. O soneto não tem reticências, e a pausa mora nas vírgulas, que são muitas.
A linha de apresentação cabe numa frase: Machado de Assis, A Carolina, no livro Relíquias de Casa Velha, de 1906. Diga o nome, o livro e o ano, espere um segundo e comece.
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II Pra Ler no Altar
As quatro linhas que cabem nas bodas de ouro
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A segunda quadra fala do afeto que sobreviveu ao trabalho de todo dia, e ela cabe inteira numa festa de bodas. São quatro linhas, vinte segundos de leitura, e nenhuma delas fala de despedida.
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A ocasião é a celebração de tempo junto: bodas de prata, bodas de ouro, renovação de votos, casamento de gente que já criou filhos, homenagem a um casal na festa da família.
O texto não cita altar, aliança nem noivos, e é por não citar que ele serve em qualquer uma dessas salas.
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Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro Que, a despeito de toda a humana lida, Fez a nossa existência apetecida E num recanto pôs um mundo inteiro.
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Machado de Assis, segunda quadra de A Carolina, no livro Relíquias de Casa Velha, 1906.
Duas palavras carregam a quadra inteira. Lida é o trabalho de todo dia, a labuta, a conta, a doença, o cansaço. Apetecida quer dizer digna de ser desejada.
Juntas, elas dizem o que uma sala de bodas quer ouvir: o afeto não foi poupado da vida difícil, ele atravessou a vida difícil.
O último verso fecha a imagem. Recanto é um canto pequeno, uma casa, uma sala, e dentro dele coube um mundo inteiro.
Onde parar: em mundo inteiro. É a última linha da quadra, e o verso seguinte já muda de assunto, porque abre a estrofe das flores.
Na hora de ler
O pronome pede uma frase antes. O lhe do primeiro verso aponta para o coração que aparece na estrofe anterior, e sozinha a quadra fica com o pronome solto.
Resolva em prosa, antes de ler: nestes quatro versos, quem pulsa é o coração de companheiro que ele leva na mão.
Diga também quem assina e para quem o poema foi escrito. Um casal em bodas de ouro escuta diferente quando sabe que o texto nasceu de um casamento de quase trinta e cinco anos.
Não troque palavra do original para encaixar o nome dos homenageados. A troca quebra o decassílabo e entrega o truque na hora.
Quatro versos levam cerca de vinte segundos, e a pressa é o único erro possível aqui. Respire nas duas vírgulas do segundo verso e não corra para o terceiro.
E não leia a primeira quadra numa festa. Ela abre ao pé do leito derradeiro, e a sala inteira entende na segunda palavra que a cena é outra.
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