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Poesia do Dia   Poesia do Dia
ED 016

O soneto que circulou de mão em mão antes de virar livro

Em 1595, um colecionador de Lisboa juntou cópias soltas que corriam à mão e mandou imprimir catorze linhas nunca publicadas.

Uma mesa de impressor em Lisboa no fim do século dezesseis, coberta de folhas manuscritas soltas à luz de vela.

Lisboa, 1595, as cópias avulsas viram livro

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Em 1595, um advogado de Lisboa chamado Fernão Rodrigues Lobo Soropita entregou a um impressor um maço de papéis avulsos. Eram cópias manuscritas, colhidas de cadernos particulares, de folhas soltas passadas de mão em mão e de gente que sabia os versos de cor.

O autor daqueles versos tinha partido quinze anos antes e nunca vira um livro só de poemas com o nome dele na capa. Em vida, publicara um poema épico e pouco mais. A lírica ficou espalhada, sem dono, circulando por quem gostava o bastante para copiar.

O volume saiu com o título Rimas. Foi a primeira vez que a poesia lírica de Luís de Camões apareceu reunida em papel impresso, montada por um colecionador que comparou versões, escolheu as que lhe pareciam boas e errou algumas escolhas pelo caminho.

A consequência é estranha e pouca gente repara nela. Vários dos sonetos mais conhecidos da língua portuguesa chegaram até hoje por transmissão manual, com variantes de palavra, cópias tortas e atribuições que os especialistas ainda discutem.

Sobreviveu o que dava para copiar. Um poema difícil de guardar na cabeça e trabalhoso de passar à pena tinha menos chance de atravessar quinze anos em cadernos particulares que um poema curto, simétrico e viciante de repetir.

Essa peneira explica uma qualidade que se sente ao ler Camões em voz alta. Os textos que chegaram inteiros são, em geral, os mais fáceis de dizer: frase curta, oposição clara, fecho que fecha de verdade.

Quem lê hoje herda o benefício sem saber. Ao pegar um soneto do século dezesseis para uma cerimônia, a pessoa está pegando um texto já testado por gerações de copistas que só copiavam o que valia o esforço da mão.

O que vem agora são três desses sobreviventes, todos do mesmo volume de 1595. Primeiro o soneto que define o amor sem usar uma única palavra doce, depois um poema de espera para o casamento, e por fim catorze linhas para uma despedida.

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I  O Poema do Dia

A definição feita só de contradições

Existe um soneto de catorze linhas que define o amor sem elogiar o amor uma única vez. Ele funciona por pares que se contrariam, e a contradição é a própria explicação.

O poema é o mais copiado da lírica portuguesa, e a estrutura ajuda: cada linha cabe num fôlego e a seguinte começa pela mesma palavra. A repetição do verbo no começo do verso, chamada anáfora, era técnica de memória antes de ser efeito de estilo.

O texto se chama Amor é fogo que arde sem se ver e está nas Rimas, o volume de 1595. Não existe manuscrito autógrafo: o que temos veio de cópias.

Amor é fogo que arde sem se ver;
é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desatina sem doer.
 
É um não querer mais que bem querer;
é solitário andar por entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é cuidar que se ganha em se perder.
 
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata lealdade.
 
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões, Amor é fogo que arde sem se ver, íntegra do soneto, no livro Rimas, Lisboa, 1595.

O soneto tem uma arquitetura simples de enxergar. As oito primeiras linhas empilham definições contraditórias, uma por verso, sem nenhuma conjunção que tente resolver o conflito.

As três seguintes apertam o parafuso. Preso por vontade, servir a quem venceu, ser leal a quem fere: o amor aparece como escolha voluntária de uma posição desconfortável.

As duas últimas linhas fazem outra coisa. Em vez de concluir, o poema pergunta, e a pergunta devolve o problema inteiro para quem ouve, sem oferecer conforto nenhum.

Na hora de ler

Trate cada verso como uma frase fechada. O ponto e vírgula no fim de quase todas as linhas é um convite a parar, e parar é o que faz o contraste ser ouvido.

Não acelere nas oito primeiras. A tentação é correr porque a estrutura se repete, e correr transforma a lista de contradições numa ladainha sem relevo.

Guarde a energia para a pergunta final. As duas últimas linhas mudam de gênero, saem da definição e entram na dúvida, e a voz precisa acompanhar essa virada.

Diga a ficha antes de começar. Uma frase resolve: Luís de Camões, soneto Amor é fogo que arde sem se ver, do livro Rimas, de 1595.

Se estiver lendo para alguém que não conhece o texto, repita a primeira linha no fim. A volta ao começo fecha o círculo que a pergunta deixou aberto.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Os catorze anos de espera de um pastor

A ocasião é o casamento de quem esperou muito tempo, namoro longo, noivado adiado, casal que já morava junto antes de marcar a data. O poema fala de espera sem transformar espera em queixa.

São catorze linhas sobre um homem que trabalha sete anos para casar, é enganado, e aceita trabalhar outros sete. O enredo vem do livro do Gênesis, e o soneto o resume sem citar uma linha de escritura.

O texto começa em Sete anos de pastor Jacob servia e também está nas Rimas de 1595. É um dos poucos sonetos da coleção com história completa, começo, revés e desfecho.

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.
 
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.
 
Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida,
 
começa de servir outros sete anos,
dizendo: Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.

Luís de Camões, Sete anos de pastor Jacob servia, íntegra do soneto, no livro Rimas, Lisboa, 1595.

O poema evita o erro mais comum das leituras de cerimônia. Ele não promete eternidade, promete trabalho, e trabalho é uma promessa que a sala consegue acreditar.

A frase que carrega tudo é a última. Para tão longo amor tão curta a vida inverte a reclamação esperada: o problema não é o tempo de espera, é o tempo de vida ser pouco para tanto amor.

A troca do nome: o soneto tem nomes bíblicos dentro do verso, então não dá para personalizar sem quebrar a métrica. Diga o nome do casal na apresentação, antes da primeira linha, e não toque no texto.

Na hora de ler

Conte a história em uma frase antes de ler. Quem não conhece o Gênesis se perde nos nomes, e o poema perde o revés se ninguém entende que Lia não era a noiva combinada.

Faça a pausa maior antes de começa de servir outros sete anos. É o ponto em que o poema decide, e a decisão precisa de silêncio antes.

Não declame a última linha. Ela já tem toda a carga na simetria das palavras, e voz alta demais transforma um fecho elegante em frase de novela.

Diga quem assina e de quando é. Uma frase resolve: Luís de Camões, soneto Sete anos de pastor Jacob servia, do livro Rimas, de 1595.

Ensaie a pronúncia de Labão e de Lia em voz alta. São as duas palavras em que o leitor tropeça, e tropeçar em nome próprio derruba o ritmo do quarteto inteiro.

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III  Pra Dizer Adeus

As catorze linhas para quem partiu cedo

A despedida mais difícil de ler em público é a de alguém que se foi jovem. Os textos de conforto costumam falar de vida cumprida, e vida cumprida é exatamente o que não houve.

Existe um soneto que resolve o problema por outro caminho. Ele não consola, não explica e não busca sentido: fala direto com quem partiu, em segunda pessoa, como quem continua uma conversa.

O poema começa em Alma minha gentil, que te partiste e foi escrito para uma perda precoce, tema que atravessa boa parte da lírica reunida em 1595. A tradição atribui o texto ao luto por uma mulher amada, sem que exista documento que confirme o nome.

Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.
 
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.
 
E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,
 
roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.

Luís de Camões, Alma minha gentil, que te partiste, íntegra do soneto, no livro Rimas, Lisboa, 1595.

Duas palavras travam quem lê pela primeira vez. Assento etéreo quer dizer o lugar no céu; cousa é a grafia antiga de coisa e se pronuncia como se escreve, sem correção.

A estrutura é de carta, não de discurso. O poema pede três coisas em sequência: repousa, não te esqueças, roga a Deus, e cada pedido cabe num bloco do soneto.

O trecho: para falar em voz alta, leia as catorze linhas inteiras, que levam pouco menos de um minuto. Para o cartão que acompanha as flores, use apenas as quatro primeiras.

A linha de apresentação: diga quem assina e de quando é. Uma frase resolve: Luís de Camões, soneto Alma minha gentil, do livro Rimas, de 1595.

A palavra que não se troca: gentil. No português do século dezesseis ela quer dizer nobre, bem-nascida de espírito, e trocar por delicada rebaixa o elogio a um adjetivo de aparência.

Um cuidado com a sala. O último terceto pede a Deus que leve quem ficou, e numa família enlutada essa frase pode soar pesada demais se ninguém a preparar.

Vale ler o soneto até a linha de perder-te quando o público for grande ou muito abalado. O corte deixa o poema no pedido de memória, que é o gesto mais fácil de acompanhar.

E vale lembrar de onde vem a força de um texto assim. Ele atravessou quinze anos sem imprensa porque alguém, num caderno particular, achou que aquelas catorze linhas mereciam a mão cansada de copiar.

“Que poema você copiaria à mão para não deixar sumir?”

 
 
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No soneto sobre o pastor Jacó, depois de descobrir que foi enganado e recebeu Lia em vez de Raquel, o que ele decide fazer?

ADesiste de vez do casamento
BComeça a servir outros sete anos
CDenuncia o pai de Raquel às autoridades
DCasa-se com Lia por conformismo

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