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O soneto das pombas saiu com prefácio de Machado
Em 1883, um juiz de vinte e quatro anos publicou Sinfonias com prefácio de Machado de Assis, e As Pombas virou leitura de formatura.
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Rio de Janeiro, 1883, as pombas em Sinfonias
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Sinfonias saiu no Rio de Janeiro em 1883 com uma página assinada antes do primeiro poema. Quem assinava era Machado de Assis.
O prefácio começa avisando o leitor do que ele não vai encontrar ali. Crítica severa não é ofício de prefácio, escreve Machado, e em vez de dizer logo o que pensa do poeta, ele copia um soneto inteiro do livro na própria página de abertura e deixa o leitor decidir sozinho.
O soneto copiado foi Mal Secreto. Depois Machado cita No Banho, Anoitecer, No Circo e a série de sonetos Perfis Românticos, avisa que não quer transcrever mais nada e encerra a apresentação.
O poema que o Brasil acabou decorando não aparece em nenhuma dessas listas.
Ele tem catorze linhas e se chama As Pombas. As oito primeiras contam a saída das pombas do pombal na madrugada e a volta delas ao fim da tarde, com o vento do norte batendo.
As seis últimas trocam de assunto e falam de sonho, não de pássaro. A virada acontece numa palavra só, logo na abertura do nono verso.
É essa palavra que decide onde o texto cabe numa festa e onde ele cabe numa despedida. Ler as catorze linhas de uma vez numa formatura alegre entrega pra sala um final que a noite não pediu.
O poema virou leitura de colação de grau, de missa de formatura e de despedida de turma justamente porque tem as duas metades dentro dele, e quem lê escolhe onde parar.
Quem assinou o livro tinha vinte e quatro anos, diploma de direito de 1882 e uma carreira de magistrado começando no interior fluminense, entre um processo e outro.
Machado fecha o prefácio com um pedido em vez de um elogio: deixa que estes venham a ti, anima-os, que eles trabalham para todos.
O que vem agora é quem assinou As Pombas, o desenho que o soneto tem por dentro e as catorze linhas completas, na grafia das edições modernas.
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I O Poema do Dia
Nasceu num navio, publicou aos vinte e quatro
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Um filho de desembargador nascido em cima da água, um diploma de direito de 1882 e catorze linhas que saíram num livro apresentado por Machado de Assis. Veja quem assinou As Pombas e o texto completo.
Raimundo da Mota de Azevedo Correia nasceu a bordo do navio São Luís, ancorado em águas maranhenses, em 13 de maio de 1859, filho do desembargador José da Mota de Azevedo Correia e de Maria Clara Vieira da Mota de Azevedo Correia.
Sobre ter nascido em cima da água, ele repetia uma frase de brincadeira a vida inteira: sou um homem sem pátria, nasci no Oceano.
Fez o secundário no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e em 1882 se formou pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo.
O primeiro livro é anterior ao diploma. Primeiros Sonhos saiu dos prelos de São Paulo em 1879, ainda na adolescência, com versos que o próprio Machado descreveria depois como marcados pelo cheiro romântico da decadência.
Sinfonias veio em 1883 e mudou o endereço do poeta. Com esse livro ele assume o parnasianismo e passa a formar, ao lado de Olavo Bilac e Alberto de Oliveira, a chamada tríade parnasiana.
A magistratura correu junto com a poesia. Foi juiz municipal e de órfãos e ausentes em Vassouras, no interior fluminense, depois juiz de direito em Minas Gerais, onde estreou a comarca de São Gonçalo do Sapucaí. Em 1897 fundou a cadeira 5 da Academia Brasileira de Letras.
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Aí está o poeta, com a sua sensibilidade, o seu verso natural e correntio, o seu amor à arte de dizer as cousas, fugindo à vulgaridade, sem cair na afetação.
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Machado de Assis, introdução a Sinfonias, 1883.
As Pombas é um soneto italiano: duas quadras e dois tercetos, catorze versos decassílabos, sem uma única palavra difícil.
A rima das quadras fecha em envelope, o primeiro verso com o quarto e o segundo com o terceiro. As duas quadras repetem os mesmos dois sons: despertada e madrugada, dezenas e apenas, nortada e revoada, serenas e penas.
Os tercetos mudam o desenho. Abotoam rima com voam, soltam rima com voltam, e pombais, no décimo primeiro verso, só encontra o par na última palavra do poema, mais.
O soneto inteiro gira num verbo. Voltar aparece três vezes: as pombas voltam no oitavo verso, voltam de novo no décimo terceiro, e a terceira aparição, a última do poema, vem negada.
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Vai-se a primeira pomba despertada... Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas De pombas vão-se dos pombais, apenas Raia sanguínea e fresca a madrugada... E à tarde, quando a rígida nortada Sopra, aos pombais de novo elas, serenas, Ruflando as asas, sacudindo as penas, Voltam todas em bando e em revoada... Também dos corações onde abotoam, Os sonhos, um por um, céleres voam, Como voam as pombas dos pombais; No azul da adolescência as asas soltam, Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam, E eles aos corações não voltam mais...
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Raimundo Correia, As Pombas, do livro Sinfonias, Rio de Janeiro, 1883, aqui na grafia das edições modernas.
Seis palavras pedem tradução na hora de ler. Raia vem de raiar, o dia que começa; nortada é o vento forte do norte; ruflar é bater as asas; revoada é o voo do bando junto; abotoar é brotar em botão; célere quer dizer rápido.
Em voz alta, as catorze linhas levam cerca de cinquenta segundos. O soneto tem sete reticências, e cada uma vale meio segundo de pausa.
A linha de apresentação cabe numa frase: Raimundo Correia, As Pombas, do livro Sinfonias, 1883. Diga o nome, o livro e o ano, espere um segundo e comece.
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II Pra Ler no Altar
As oito linhas que terminam na volta
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As duas primeiras quadras contam a saída e a volta das pombas, e nada mais. São oito linhas, quarenta segundos de leitura, e terminam com o bando inteiro chegando de novo ao pombal.
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A ocasião é a celebração de chegada: missa de formatura, colação de grau, bênção dos formandos, casamento na igreja, batizado, missa de bodas.
O texto não fala de diploma, de anel nem de noivos em nenhum verso, e é por não falar que ele serve. A cena é um pombal ao amanhecer, e a sala preenche o resto sozinha.
A primeira quadra é toda saída. Uma pomba desperta, depois outra, depois dezenas, e o verso conta a debandada em câmera lenta enquanto o dia ainda está raiando.
A segunda quadra é toda chegada. À tarde, com o vento norte batendo, as mesmas pombas voltam ruflando as asas, e a última linha fecha o movimento: Voltam todas em bando e em revoada.
Onde parar: no verso da revoada. É a última linha da segunda quadra e a única do soneto em que todo mundo volta pra casa.
O que vem depois muda o clima da sala. O nono verso troca as pombas por corações, e os cinco versos seguintes contam o que sai do peito de uma pessoa e não retorna. Numa formatura, é o oposto do que a noite pede.
Na hora de ler
Antes de começar, diga quem assina e de quando é. A sala escuta diferente quando sabe que o poema tem mais de cem anos e que ele saiu num livro apresentado por Machado de Assis.
Nortada é a única palavra que trava uma plateia moderna. Com público de criança ou de família grande, resolva em prosa antes de ler: vento forte do norte, o vento que sopra no fim da tarde.
Trocar palavra do original pra encaixar o nome da turma ou dos noivos quebra o decassílabo e entrega o truque. Leia as oito linhas como estão e faça a ponte na frase seguinte, em prosa.
Sem altar o corte funciona igual. Colação de grau em auditório, jantar de formatura, entrega de anéis: as oito linhas se sustentam em qualquer sala, porque a cena delas é de casa, não de igreja.
Se quiser um trecho ainda mais curto, leia só a segunda quadra. Ela começa em E à tarde e termina em revoada, e as quatro linhas contam a volta inteira sem precisar da saída.
As reticências mandam no andamento. São cinco nas oito linhas, duas só no segundo verso, e quem lê com pressa engole todas. Meio segundo em cada uma muda o ritmo da leitura inteira.
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