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ED 035
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O satirista que a Academia levou dez anos para aceitar

Emílio de Menezes escreveu sonetos contra metade da Academia Brasileira de Letras e só ocupou a cadeira 20 em 1914.

Salão da Academia Brasileira de Letras com a poltrona da cadeira 20 vazia, Rio, 1914.

Rio, 1914: a posse na cadeira 20

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Comigo me desavim, sou posto em todo perigo; não posso viver comigo nem posso fugir de mim. Sá de Miranda fixou a quadra nas Poesias reunidas em Lisboa, 1595, e ela descreve com precisão a situação de quem transforma a língua afiada em ofício: a arma aponta para fora, e quem a segura continua dentro do alcance dela.

Emílio de Menezes nasceu em Curitiba em 1866 e viveu quase toda a vida adulta no Rio de Janeiro, entre redação de jornal, mesa de café e salão de conferência. Improvisava em voz alta, com plateia em volta, e o soneto saía pronto na mesma tarde em que o assunto aparecia. A cidade repetia a quadra dele antes de a página ser impressa.

O alvo preferido tinha endereço fixo. A Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897, reunia os nomes que ele mais gostava de pôr em verso, e a produção satírica dele atingiu boa parte da casa, incluindo gente que depois teria voto sobre o próprio nome dele numa eleição.

Ele se candidatou, foi recusado, candidatou-se de novo e foi recusado de novo, ao longo de mais de dez anos. Cada tentativa dependia do voto de colegas que já haviam sido personagens de uma quadra sua, e o cálculo era simples de fazer da poltrona: o eleitor lembrava do verso.

Em 1914 a conta finalmente fechou, e ele foi eleito para a cadeira 20. Tomou posse na casa que havia satirizado por duas décadas, ocupou a poltrona até 1918 e entrou para a lista oficial de uma instituição que ele mesmo tinha ajudado a tornar assunto de piada na cidade.

A edição de hoje trabalha com três textos brasileiros e portugueses em domínio público, cada um posto numa situação concreta de leitura em voz alta: uma quadra de sátira que serve para fala em roda de amigos, uma quarteto de soneto para cerimônia de casamento e uma estrofe de terra natal para despedida.

Começa pela mecânica da sátira, que é o instrumento mais mal usado da poesia falada em público.

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I  O Poema do Dia

A quadra que o alvo repete sozinho

Quem tenta fazer graça numa fala pública costuma escolher o caminho da ofensa direta: nomeia a pessoa, aponta o defeito, espera a risada. O que vem em seguida é constrangimento, porque a plateia percebe que a piada precisa de uma vítima presente para funcionar.

A sátira que atravessa séculos ataca uma posição, nunca um sujeito na sala, e por isso o próprio alvo consegue repeti-la sem sair machucado. O verso circula porque cabe na boca de todo mundo.

Que os brasileiros são bestas
e estão sempre a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.

Gregório de Matos, quadra dos versos satíricos aos principais da Bahia, século dezessete, recolhida na tradição manuscrita e publicada em edições brasileiras a partir do século dezenove.

Repare no sujeito coletivo. A quadra não escolhe um nome, escolhe uma classe inteira, e quem ouve não se sente pessoalmente acusado, mesmo estando incluído. O plural protege a piada e amplia o alcance dela ao mesmo tempo.

Repare na palavra magano. Ela é um termo de época para trapaceiro, malandro de posição alta, e a escolha faz metade do trabalho: uma palavra rara, sonora, dita com clareza, fixa a frase inteira na memória de quem ouviu uma vez só.

A quadra tem quatro versos curtos e cabe em oito segundos de fala. Ela serve numa roda de amigos que comenta política, numa aula sobre o período colonial e numa apresentação de trabalho que precisa quebrar o tom solene antes de entrar num assunto pesado.

Gregório de Matos passou a vida escrevendo esse tipo de verso e pagou o preço da circulação: acabou afastado da Bahia por ordem do governo colonial, mandado para Angola, e as quadras continuaram na boca do povo enquanto ele estava do outro lado do oceano. O texto sobrevive ao autor porque ninguém precisa saber o nome dele para repetir a rima.

O mesmo mecanismo explica por que Emílio de Menezes fez tanta fama e tanto inimigo. A parte que a cidade decorava era a que atacava cargo, vaidade e pose; a parte que fechava portas era a que trazia nome próprio dentro do verso.

Na hora de ler

Diga a quadra em ritmo de conversa, sem levantar a voz na palavra bestas. A entonação forte entrega a intenção antes do sentido e transforma a sátira em bate-boca.

Marque uma pausa curta antes do último verso. Maganos de Portugal é o alvo, e o silêncio de meio segundo antes dele faz o trabalho que o grito não faz.

Diga a ficha em uma frase. Quadra satírica brasileira do século dezessete sobre quem trabalha e quem colhe, feita por um poeta que foi mandado para longe por causa dos próprios versos.

 
 

II  Pra Ler no Altar

O quarteto que confessa em voz baixa

Numa cerimônia de casamento, a leitura mais comum tenta convencer a sala de que o sentimento é grande. O texto empilha superlativo, a plateia escuta com paciência, e ninguém sai com uma imagem na cabeça, porque afirmação de tamanho não constrói cena.

O trecho que funciona no altar é o que assume publicamente uma coisa levemente ridícula, porque a confissão sem defesa produz mais reconhecimento do que qualquer declaração solene. A vergonha admitida convence.

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto.

Olavo Bilac, primeiro quarteto do soneto treze da série Via Láctea, publicada em Poesias, Rio de Janeiro, 1888.

O verso começa pela voz do outro. O poeta abre citando a acusação que ele sabe que vai receber, com o parêntese e tudo, e só depois responde. Numa sala de casamento, o efeito é imediato: a plateia se reconhece na figura de quem acha exagero e é justamente ela que o texto interpela.

A resposta não argumenta. Ela descreve um gesto físico, alguém que levanta de madrugada e abre a janela, e é essa ação concreta que vence a discussão sem discutir. O casal recebe uma imagem para guardar, não uma tese sobre amor.

A palavra espanto fecha o quarteto na medida certa. Ela nomeia um estado sem explicar causa, e cada pessoa da sala preenche com a própria lembrança de ter ficado acordada por causa de alguém.

Os quatro versos levam cerca de quinze segundos, o que os torna leitura de abertura ou de fechamento, antes ou depois da fala pessoal de quem conduz a cerimônia.

A origem: diga que o soneto é brasileiro, de 1888, e que ele responde a quem chama o apaixonado de maluco. Uma frase basta, e ela prepara o parêntese do primeiro verso.

O corte: com pouco tempo, leia só os quatro versos do quarteto, que fecham sozinhos. Com espaço, siga até o segundo quarteto, onde a resposta se completa.

O cuidado: não leia o parêntese em tom de deboche. Ele é a fala de um interlocutor imaginário, e o exagero cômico ali quebra a virada que vem no verso seguinte.

Na hora de ler

Baixe o volume em ouvir estrelas, em vez de enfatizar. A frase é a acusação, e ela chega mais forte dita quase de lado.

Respire depois de no entanto. A vírgula ali é a dobradiça do quarteto, e a leitura corrida cola a acusação na resposta.

Diga a ficha em uma frase. Soneto brasileiro do século dezenove em que alguém admite, em público, que passa a noite acordado escutando o céu.

 

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III  Pra Dizer Adeus

A estrofe que pede o caminho de volta

Numa despedida, a fala costuma tentar resolver o sentimento de quem escuta. Quem lê promete reencontro, oferece consolo religioso ou explica que a vida continua, e a família recebe um discurso quando precisava de uma imagem.

A estrofe que sustenta uma despedida é a que fala de lugar, porque lugar é concreto, cabe na memória de todo mundo na sala e não exige que ninguém concorde com nenhuma doutrina. A geografia consola melhor que a explicação.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá.

Gonçalves Dias, última estrofe da Canção do Exílio, escrita em Coimbra em 1843 e publicada em Primeiros Cantos, Rio de Janeiro, 1846.

A estrofe é um pedido, não uma afirmação. O verbo permitir coloca quem fala em posição de quem depende de uma decisão que não é sua, e essa humildade combina com o estado de uma família reunida diante de uma partida.

O advérbio lá faz o trabalho de imagem. Ele não nomeia cidade, rua ou casa, e é justamente a falta de nome que permite a cada pessoa da sala colocar o próprio lugar dentro da palavra. Um endereço fecharia a estrofe para quem não o conhece.

A palavra primores merece atenção. Ela é antiga, quer dizer aquilo que há de melhor, e a estranheza sonora faz a sala prestar atenção no verso final em vez de deslizar por ele.

A estrofe cabe em doze segundos de fala e funciona bem para alguém que passou a vida longe da terra natal, para quem voltou no fim e para quem sempre falou em voltar sem conseguir marcar a data.

O trecho: para falar em voz alta, use os quatro versos. Para o cartão das flores, use os dois primeiros, que já contêm o pedido inteiro.

A linha de apresentação: diga que o poema é brasileiro, de 1843, e que foi escrito por um estudante longe de casa. A frase explica o exílio do título sem nota de rodapé.

A palavra que pede cuidado: cá, no último verso, soa arcaica na fala moderna e precisa ser dita com naturalidade, no mesmo tom da conversa, para não virar imitação de sotaque antigo.

Um cuidado na escolha. A estrofe fala de saudade de lugar, o que serve numa despedida de quem migrou, e desafina quando a pessoa passou a vida inteira na mesma cidade, porque a sala vai procurar um exílio que nunca existiu.

“Que quadra você repetiria mesmo sendo o alvo dela?”

Ele ocupou a cadeira por quatro anos.

 
 

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Depois de mais de dez anos de recusas, em que ano Emílio de Menezes finalmente foi eleito para a cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras?

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