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O provérbio sem dono era um soneto

Vicente de Carvalho publicou Velho Tema em Poemas e Canções, em 1908, e o terceto sobre a felicidade acabou circulando como frase anônima.

Livro de poemas aberto sobre a cadeira de um escritório, luz de fim de tarde.

Santos, 1908: o soneto que perdeu o nome do autor

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Essa felicidade que supomos, árvore milagrosa que sonhamos toda arreada de dourados pomos, existe, sim: mas nós não a alcançamos. Vicente Augusto de Carvalho imprimiu os versos no livro Poemas e Canções, em 1908, e o que eles resolvem hoje é a hora de falar de expectativa diante de uma sala cheia sem cair no cartaz de autoajuda: o poema fecha dizendo que a felicidade fica sempre no ponto onde a colocamos, e nunca no ponto onde estamos.

O autor nasceu em Santos, no litoral paulista, em 28 de abril de 1866, e viveu de direito antes de viver de verso: foi promotor, juiz, deputado estadual, secretário da Agricultura de São Paulo e desembargador. Publicou Ardentias aos dezenove anos e Relicário aos vinte e dois, e depois passou duas décadas quase calado, até o livro que o tornou conhecido do país inteiro.

Poemas e Canções saiu em 1908 e vendeu edição atrás de edição num Brasil que comprava poucos livros de poesia. O volume trazia praia, maré, pescador, barco e céu de fim de tarde, o que colou no autor o apelido de poeta do mar. A peça mais famosa dele, porém, não fala de água nenhuma: fala de esperança adiada. Chama-se Velho Tema, reúne seis poemas, e o primeiro deles saiu do livro e entrou na conversa comum do país, em mural de escola, em quadro de escritório e em discurso de formatura, quase sempre sem nome de autor embaixo.

O autor faleceu em Santos em 22 de abril de 1924, seis dias antes de completar cinquenta e oito anos. Pela contagem da lei 9.610, que libera a obra setenta anos depois do primeiro dia do ano seguinte ao fim da vida do autor, o livro está em domínio público no Brasil desde 1995. Ler em voz alta, imprimir no programa da cerimônia, gravar em placa: nenhum desses usos pede autorização.

A edição de hoje põe três trechos do livro em situação de leitura em voz alta: o soneto da felicidade para uma homenagem, um terceto de conquista para um casamento e uma estrofe de três vozes para uma despedida.

A primeira parada é o soneto que a maioria das pessoas já leu sem saber de quem era.

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I  O Poema do Dia

Quatorze versos vestidos de provérbio

Quem procura frase sobre felicidade para abrir uma homenagem cai em citação de rede social, sem autor e sem ano, e a sala reconhece o formato antes do conteúdo. O aplauso sai por educação.

O soneto de Vicente de Carvalho resolve a abertura porque entrega o pensamento inteiro em quatorze versos com ficha completa, e a plateia que reconhece a frase solta ganha de brinde o nome, o livro e o ano que faltavam. O reconhecimento vira informação nova na hora.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

Vicente de Carvalho, tercetos finais do soneto Velho Tema I, no livro Poemas e Canções, 1908.

A palavra pomo significa fruto carnudo de árvore, a maçã e a pera do vocabulário antigo, e o plural dourados pomos desenha uma árvore carregada de frutas de ouro, imagem herdada do pomar das Hespérides da mitologia grega, o jardim guardado por um dragão que ninguém conseguia saquear. A árvore do poema tem a mesma condição: existe, está à vista e permanece fora do alcance.

Os dois quartetos anteriores constroem o argumento. O primeiro diz que só a leve esperança disfarça a pena de viver, e que a existência se resume a uma grande esperança malograda. O segundo define o sonho da alma desterrada como uma hora feliz sempre adiada, que não chega nunca. Os tercetos explicam o adiamento: quem imagina a felicidade sempre a instala num ponto adiante do ponto onde pisa. O poeta não moraliza, descreve a engrenagem e para.

O soneto foi escrito em decassílabos, versos de dez sílabas poéticas, o metro clássico da língua portuguesa desde Camões. A forma antiga carrega um pensamento que qualquer pessoa reconhece hoje, e a distância entre roupa velha e ideia corrente faz a peça funcionar diante de plateia moderna.

A leitura dos seis versos leva dezoito segundos, e o soneto inteiro leva quarenta. Serve para abrir homenagem de fim de ano, entrega de prêmio e formatura de turma pequena.

Na hora de ler

Diga o nome do autor antes dos versos. Boa parte da sala já ouviu a frase final atribuída a ninguém, e a origem muda a escuta.

Não acelere no quinto verso. A poesia acontece na repetição do verbo pôr, e quem corre transforma o achado numa frase comprida qualquer.

Dê a ficha em uma frase. Soneto brasileiro de 1908, de um juiz de Santos que escrevia poesia fora do expediente.

 
 

II  Pra Ler no Altar

A promessa que avança sem pedir

Numa cerimônia de casamento, quem lê escolhe texto de juramento solene, e a sala escuta trinta segundos de promessa sem imagem alguma. O convidado aplaude e não consegue repetir uma linha do que ouviu.

Um terceto de conquista entra melhor na cerimônia porque troca a promessa abstrata por um gesto que dá para ver: alguém que avança de cabeça erguida em direção a quem ama. A imagem sobra quando a emoção baixa.

Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;
E vou de olhos enxutos e alma leve
À galharda conquista do teu beijo.

Vicente de Carvalho, terceto final do soneto Velho Tema II, no livro Poemas e Canções, 1908.

O adjetivo galharda quer dizer garbosa, elegante e cheia de coragem, e nomeia a maneira como o poeta declara o próprio amor: sem súplica e sem drama. O soneto começa avisando que o autor vai cantar de amor com tal celeuma, quer dizer, com tal barulho e alarde, que os ouvidos da pessoa amada não terão saída além de escutar.

O quarteto seguinte recusa a pose do apaixonado sofredor. O amor se apresenta, diz o poeta, não andrajoso e mendigando agrados, andrajoso no sentido de vestido de trapos, mas risonho, muito de altivo e um tanto de insolente. O terceiro bloco fecha a lógica: o desejo apenas cobra um bem que se deve a quem ama.

Só então chegam os três versos finais, com quatro verbos em oposição, clamar contra gemer e avançar contra rastejar, que resumem o poema em uma respiração.

A leitura do terceto leva nove segundos, e o soneto completo leva trinta e cinco. Cabe na abertura da celebração, no voto de quem fala primeiro, no cartão preso ao buquê e na placa de aniversário de casamento.

A origem: diga que os versos são brasileiros, de 1908, escritos por um poeta do litoral de São Paulo que foi juiz e desembargador. Uma frase basta.

O corte: o terceto se sustenta sozinho. Se a cerimônia pedir mais texto, leia antes o primeiro quarteto, que anuncia o canto em voz alta e prepara a chegada dos verbos.

O cuidado: a palavra insolente aparece no meio do soneto e soa agressiva fora de contexto. Quem ler o poema inteiro faz bem em avisar, em meia frase, que o poeta brinca com a própria ousadia.

Na hora de ler

Marque o ponto e vírgula. Os dois primeiros pares de verbos pedem pausa curta no meio do verso, e a pausa faz a oposição aparecer para quem escuta.

Suba um pouco a voz na palavra galharda. Ela carrega o tom do poema todo, e dita em volume igual ao resto vira enfeite antigo.

 

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III  Pra Dizer Adeus

As três vozes numa sala de despedida

Numa despedida, quem fala procura texto sobre descanso eterno e entrega à família uma frase que serviria para qualquer pessoa. A sala escuta palavra bonita e sai sem imagem de quem foi homenageado ali.

Uma estrofe em que o passado toma a palavra funciona na despedida porque dá voz ao que a família está fazendo naquele instante, que é lembrar em conjunto. A lembrança deixa de ser dever e vira personagem do texto.

"Lembra!" diz-me o passado. "Eu sou a aurora
E a primavera, o olhar que se enamora
De quanto vê pelo caminho em flor;
Para o teu coração cansado e triste
É recordar-me o único bem que existe...
Eu sou a mocidade, eu sou o amor."

Vicente de Carvalho, primeira estrofe do poema Velho Tema VI, no livro Poemas e Canções, 1908.

O poema monta um tribunal de três testemunhas. O passado manda lembrar e se apresenta como aurora, primavera e mocidade. O presente manda viver e aconselha não pedir à árvore da vida mais que os frutos amargos que ela tem. O futuro manda sonhar e admite que só engana. Na última estrofe o poeta ouve os três, cala-se e recusa o que cada um oferece.

Para uma cerimônia de despedida, a estrofe de abertura basta sozinha. O desfecho do poema pertence ao terreno amoroso, com o autor concluindo que o único bem é o beijo de uma mulher que pertence a outro, e ler o conjunto inteiro numa sala de velório desloca o tom sem ganho nenhum.

A palavra aurora nomeia a primeira claridade do dia, antes do sol no horizonte, e dentro do poema retrata o tempo em que tudo ainda estava por acontecer. A família associa a imagem às fotografias antigas expostas na entrada da cerimônia.

A leitura da estrofe leva dezessete segundos. Serve para o momento da despedida, para o cartão das flores, para a placa de homenagem e para a missa de sétimo dia.

O trecho: leia as seis linhas e pare. O poema segue por mais três estrofes e muda de assunto, e o corte limpo preserva o sentido que a sala precisa ouvir.

A linha de apresentação: diga que os versos são de 1908 e que o poema dá voz ao passado, ao presente e ao futuro, cada um defendendo a própria causa. Duas frases resolvem.

Há um ponto desta obra que segue sem resposta, e vale dizer com todas as letras: não se sabe quando os poemas de Velho Tema foram escritos. O autor não datava os originais e guardou por duas décadas material que só apareceu reunido em 1908, de modo que a crítica trabalha com uma janela larga entre a década de 1880 e a véspera da impressão, sem fechar o ponto.

O percurso público do livro está documentado. Poemas e Canções saiu em 1908, ganhou terceira edição em 1917, levou o autor à Academia Brasileira de Letras e sustentou a fama de poeta do mar mesmo com os textos mais citados falando de esperança, de amor e de tempo.

“Qual verso você leria em voz alta para a sua própria família?”

O soneto tem quatorze versos.

 
 
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