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O promotor barrado que fundou o simbolismo
Cruz e Sousa foi impedido de assumir a promotoria de Laguna por ser negro, e dez anos depois abriu Broquéis com as 44 linhas de Antífona.
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Rio de Janeiro, 1893, Broquéis na Livraria Moderna
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Em 1893 chegou às livrarias do Rio de Janeiro um volume pequeno, saído da Livraria Moderna, no número 23 da Rua da Assembleia, com o selo de Magalhães & Cia. Na capa, o nome do autor vinha grafado com z: Cruz e Souza.
O título era Broquéis. Broquel é o escudo pequeno e redondo que se prende ao braço, arma de quem já está no alcance do outro, e não de quem se protege de longe.
A primeira página não traz prefácio, dedicatória nem explicação. Traz um poema de quarenta e quatro linhas com o título Antífona, e o poema não conta história nenhuma. Ele chama.
A abertura é um vocativo triplo, três palavras de brancura numa linha só: Ó Formas alvas, brancas, Formas claras. Nas quatro primeiras estrofes não existe um verbo de ação, só o chamado.
Antífona, na liturgia, é o verso que dois coros cantam antes e depois do salmo, um respondendo ao outro. O poeta pôs a palavra na porta do livro e deixou os outros poemas responderem.
Os manuais de literatura brasileira abrem o simbolismo em 1893, e abrem por causa de dois livros do mesmo homem no mesmo ano: Missal, em prosa poética, e Broquéis, em verso.
Dez anos antes, o mesmo nome tinha aparecido num ato oficial de outro tipo. Era uma nomeação para promotoria pública, assinada pelo presidente da província de Santa Catarina, e o cargo nunca chegou a ser ocupado.
Os chefes políticos da cidade não aceitaram o nomeado, filho de escravizados alforriados. Ele voltou para o jornal, tocou a campanha abolicionista, mudou para o Rio de Janeiro e se empregou como arquivista de uma ferrovia.
Foi nesse emprego que saíram os dois livros de 1893.
O que vem agora é quem assinou Antífona, o desenho que o poema tem por dentro e as quarenta e quatro linhas completas, na grafia das edições modernas.
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I O Poema do Dia
Laguna, 1883, e a estreia dez anos depois
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Um filho de alforriados, uma nomeação que a cidade recusou e quarenta e quatro linhas que abrem um livro sem contar história nenhuma. Veja quem assinou Antífona e o texto completo.
João da Cruz e Sousa nasceu em Desterro, hoje Florianópolis, em 24 de novembro de 1861, filho de Guilherme da Cruz e de Carolina Eva da Conceição, os dois escravizados e alforriados.
O sobrenome veio do marechal Guilherme Xavier de Sousa, que criou o menino em casa e pagou os estudos.
No Ateneu Provincial Catarinense estudou francês, latim, grego e ciências naturais, e teve aula com o naturalista alemão Fritz Müller.
Em 1881 dirigia o Tribuna Popular, jornal de Desterro que batia no escravismo. Em 1885 publicou o primeiro livro, Tropos e Fantasias, escrito com Virgílio Várzea.
Em 1883 o presidente da província de Santa Catarina, Luís da Gama Rosa, assinou a nomeação dele para a promotoria pública de Laguna. Os chefes políticos da cidade não aceitaram um promotor negro, e a posse não aconteceu.
Em 1890 foi para o Rio de Janeiro e virou arquivista da Estrada de Ferro Central do Brasil. Três anos depois saíram Missal e Broquéis.
Antífona tem onze estrofes de quatro versos, todos decassílabos. As quatro primeiras são puro chamado: substantivo, adjetivo e reticência, sem um único verbo de ação.
O primeiro imperativo chega só na quinta estrofe, em Fecundai. Da sexta em diante o poema pede, e na última ele resolve tudo num verbo só.
A primeira estrofe e a última fecham a rima em envelope, o primeiro verso com o quarto. As nove do meio alternam. O poema abre e fecha pelo mesmo desenho.
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Ó Formas alvas, brancas, Formas claras De luares, de neves, de neblinas!... Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas... Incensos dos turíbulos das aras... Formas do Amor, constelarmente puras, De Virgens e de Santas vaporosas... Brilhos errantes, mádidas frescuras E dolências de lírios e de rosas... Indefiníveis músicas supremas, Harmonias da Cor e do Perfume... Horas do Ocaso, trêmulas, extremas, Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume... Visões, salmos e cânticos serenos, Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes... Dormências de volúpicos venenos Sutis e suaves, mórbidos, radiantes... Infinitos espíritos dispersos, Inefáveis, edênicos, aéreos, Fecundai o Mistério destes versos Com a chama ideal de todos os mistérios. Do Sonho as mais azuis diafaneidades Que fuljam, que na Estrofe se levantem E as emoções, todas as castidades Da alma do Verso, pelos versos cantem. Que o pólen de ouro dos mais finos astros Fecunde e inflame a rima clara e ardente... Que brilhe a correção dos alabastros Sonoramente, luminosamente. Forças originais, essência, graça De carnes de mulher, delicadezas... Todo esse eflúvio que por ondas passa Do Éter nas róseas e áureas correntezas... Cristais diluídos de clarões alacres, Desejos, vibrações, ânsias, alentos, Fulvas vitórias, triunfamentos acres, Os mais estranhos estremecimentos... Flores negras do tédio e flores vagas De amores vãos, tantálicos, doentios... Fundas vermelhidões de velhas chagas Em sangue, abertas, escorrendo em rios... Tudo! vivo e nervoso e quente e forte, Nos turbilhões quiméricos do Sonho, Passe, cantando, ante o perfil medonho E o tropel cabalístico da Morte...
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Cruz e Sousa, Antífona, poema de abertura de Broquéis, Magalhães & Cia, Livraria Moderna, Rio de Janeiro, 1893, aqui na grafia das edições modernas.
Quatro palavras pedem tradução na hora de ler. Turíbulo é o incensário preso a correntes; ara é a pedra do altar; mádido quer dizer úmido; alacre é o brilho alegre.
Em voz alta, as quarenta e quatro linhas levam cerca de dois minutos e meio. O poema tem dezesseis reticências, e cada uma vale meio segundo de pausa.
A linha de apresentação cabe numa frase: Cruz e Sousa, Antífona, abertura de Broquéis, Rio de Janeiro, 1893. Diga o nome, o livro e o ano, espere um segundo e comece.
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II Pra Ler no Altar
As oito linhas brancas pra ler na igreja
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As duas primeiras quadras de Antífona descrevem a própria sala da cerimônia: incenso, altar, brancura, lírios e rosas. São oito linhas, meio minuto de leitura, e param antes de o poema virar outra coisa.
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O texto não fala de casamento em nenhum verso, e é por não falar que ele serve. A primeira linha nomeia a brancura três vezes, alvas, brancas, claras, e metade da sala já está vestida de uma delas.
O quarto verso é Incensos dos turíbulos das aras. Turíbulo é o incensário preso a correntes; ara é a pedra do altar. Numa igreja com incenso aceso, o verso descreve um objeto que está a três metros de quem escuta.
A segunda quadra entrega o resto: Formas do Amor, constelarmente puras, De Virgens e de Santas vaporosas, e fecha em dolências de lírios e de rosas, as duas flores que já estão no arranjo.
Onde parar: no verso das rosas. A terceira estrofe muda o assunto para Horas do Ocaso e Réquiem do Sol, e a quarta chega em volúpicos venenos. Nenhuma das duas cabe numa cerimônia de festa.
Antes de ler, diga quem assina e de quando é. A sala ouve diferente quando sabe que o poema tem mais de cem anos e que ele abre um livro inteiro.
Trocar palavra do original para encaixar o nome dos noivos quebra o decassílabo e entrega o truque. Leia as oito linhas como estão e faça a ponte na frase seguinte, em prosa.
A ocasião é a celebração com altar montado: casamento em igreja, bênção matrimonial, batizado, primeira comunhão, missa de bodas de prata ou de ouro.
No altar
O trecho serve na entrada da noiva ou na abertura da celebração, nunca na troca de votos. Ele descreve o cenário, e voto pede endereço, não cenário.
Se a cerimônia for civil, sem incenso e sem altar de pedra, comece na segunda quadra, em Formas do Amor. As quatro linhas se sustentam sozinhas e ninguém sente o corte.
Se o celebrante pedir um trecho mais longo, a quinta estrofe é a única outra que serve. Ela é um pedido, começa em Infinitos espíritos dispersos e termina em mistérios, palavra que uma igreja recebe bem.
Um risco de leitura mora nas reticências. São dezesseis no poema, e quem lê com pressa engole todas. Meio segundo em cada uma muda o andamento da sala inteira.
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