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Numa despedida, quem fala busca verso sobre descanso e entrega à família uma frase genérica, aplicável a qualquer pessoa que já viveu. A sala escuta uma palavra bonita e sai sem nenhuma imagem daquela pessoa específica.
O poema que sustenta uma despedida nomeia um lugar concreto e um desejo de voltar para ele, porque a família enxerga de olhos fechados o quintal, a rua e a cidade que a pessoa chamava de casa. O lugar nomeado é o que sobra depois da cerimônia.
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Minha terra tem palmares Onde gorjeia o mar Os passarinhos daqui Não cantam como os de lá
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Oswald de Andrade, primeira estrofe do poema Canto de regresso à pátria, no livro Pau Brasil, 1925.
O texto conversa com a Canção do exílio, escrita por Antônio Gonçalves Dias em Coimbra, em julho de 1843, cuja abertura diz que minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá. Oswald embaralha os elementos de propósito: a palmeira vira palmar, o canto passa para o mar e o sabiá some do verso, e o leitor brasileiro sente o desencontro antes de identificar a causa.
A estrofe seguinte enumera rosas, amores, ouro e terra, e a última pede a Deus que o autor não parta sem retornar. O pedido tem lastro biográfico: o poeta escreveu o livro tendo atravessado o Atlântico e vivido temporadas em Paris, e mandou imprimir na França um livro que pede volta ao Brasil em quase todas as páginas.
A palavra palmar significa mata de palmeiras, e carrega no plural a memória de Palmares, o quilombo que resistiu por quase cem anos no sertão da Capitania de Pernambuco, na região da serra da Barriga. O poeta não explica a alusão e não precisa: o nome no plural já traz a história junto, e quem conhece o episódio escuta as duas camadas de uma vez.
A leitura leva onze segundos com a estrofe de abertura e vinte e cinco com o poema inteiro. Serve para o momento da despedida, para o cartão das flores, para a placa de uma homenagem e para a mensagem enviada aos parentes no dia seguinte.
O trecho: leia só a primeira estrofe quando a família for pequena e a cerimônia curta. Com mais espaço, leia as três, porque o pedido de volta só aparece na última e ele é o fecho emocional do texto.
A linha de apresentação: diga que os versos são de 1925 e que conversam com um poema de 1843 escrito por um brasileiro que estudava em Portugal, com saudade da terra. Duas frases resolvem, e a sala entende a brincadeira do primeiro verso.
Há uma parte da história do livro que não se esclareceu, e vale dizer com todas as letras. Não se conhece a data exata de composição de cada poema de Pau Brasil, porque o poeta não datava os originais e a maioria dos manuscritos se perdeu antes de qualquer levantamento organizado; a crítica trabalha com a janela entre o manifesto de março de 1924 e a impressão de 1925, sem fechar o ponto.
O que está documentado é a sequência pública. O manifesto saiu no Correio da Manhã em 1924, o livro foi impresso em Paris em 1925 com desenhos de Tarsila do Amaral, e a primeira edição brasileira só apareceu décadas depois, já com o autor reconhecido como nome central do modernismo.
“Qual verso você leria em voz alta para a sua própria família?”
O menino do poema se chamava Nonê.
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