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O primeiro livro de poemas impresso em Angola, em 1849
José da Silva Maia Ferreira levou à prensa de Luanda versos dedicados às senhoras africanas, no molde que trouxe do Brasil.
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Luanda, 1849: os versos saem da prensa
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Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. Gonçalves Dias escreveu o verso em Coimbra, em 1843, e ele explica por que um rapaz de Luanda, seis anos depois, quis cantar a própria terra num livro impresso nela mesma.
O rapaz era José da Silva Maia Ferreira, nascido em Luanda em 1827. Passou parte da juventude no Rio de Janeiro, onde os românticos brasileiros estavam na boca dos estudantes, e foi lá que começou a escrever versos.
De volta a Angola, juntou os poemas num volume e deu a ele um título longo: Espontaneidades da Minha Alma. Logo abaixo, a dedicatória: às senhoras africanas.
O livro saiu em 1849 da Imprensa do Governo, em Luanda. A tipografia tinha chegado à colônia poucos anos antes, em 1845, para imprimir o Boletim Oficial, a folha de decretos, nomeações e avisos de chegada de navios.
Até ali, nenhum livro de poemas tinha saído de uma prensa angolana. Os historiadores da literatura de Angola contam Espontaneidades como o primeiro, e muitos o põem como o primeiro livro de poesia impresso em toda a África de língua portuguesa.
A dedicatória diz muito sobre a cidade. Em 1849, pouca gente lia em Luanda, e Maia Ferreira escreveu pensando nas mulheres dali, as filhas da terra, as leitoras que ele queria ter na sala.
Os poemas falam de amor, de saudade e de viagem por mar. Alguns se dirigem a moças pelo nome; outros lembram os anos passados do outro lado do Atlântico.
O tom é o do romantismo brasileiro, com a mesma métrica e as mesmas exclamações. Em pelo menos um poema, ele escreve à terra natal na música da Canção do Exílio: pega o molde de Gonçalves Dias e o enche com a paisagem de Angola.
Maia Ferreira não ficou na história por um verso famoso. Ficou porque foi o primeiro a imprimir os próprios versos na própria terra.
O molde que ele recebeu do Brasil vem logo abaixo, em quatro versos.
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I O Poema do Dia
A terra que tem mais
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Num sarau, José da Silva Maia Ferreira pede a estrofe que todo estudante de 1849 sabia de cor, a mesma que ele usou de molde para cantar Luanda.
A estrofe abre bem uma leitura porque mede a terra pelo que ela tem a mais, e cada ouvinte pensa na sua.
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Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores.
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Gonçalves Dias, Canção do Exílio, Primeiros Cantos, 1847, poema escrito em Coimbra em 1843.
O verso é a redondilha maior (verso de sete sílabas), a medida das quadras populares. Gonçalves Dias escolheu a música que o povo já cantava, e a canção entrou na escola sem pedir licença.
A estrofe se ergue por repetição. Os quatro versos começam por Nosso ou Nossa, e cada um acrescenta um mais. A voz sobe a cada linha sem precisar de adjetivo novo.
Várzeas são as terras baixas na beira dos rios, que alagam na cheia. A palavra pede meio segundo a mais na voz.
Gonçalves Dias escreveu longe de casa, estudante de direito em Portugal, com 19 anos. O poema compara o lugar onde ele estava com o lugar de onde veio, e o lugar de onde veio ganha em todos os versos.
Maia Ferreira fez a viagem ao contrário. Morou no Rio, voltou a Luanda e, no livro de 1849, escreveu à terra natal com a mesma música. O Brasil lhe deu o molde; Angola deu o mar, as palmeiras e as moças da cidade.
Os estudiosos da literatura angolana leem essa resposta como o primeiro gesto de um poeta da colônia a pôr a própria terra no centro do poema, com nome e paisagem.
Quem lê a Canção do Exílio só como patriotismo de escola perde a parte melhor. O rapaz mede o país pela vida e pelos amores, nunca pelas armas nem pelos reis.
A Canção do Exílio saiu em livro em 1847, nos Primeiros Cantos, impressos no Rio. Dois anos depois, o eco dela já atravessava o Atlântico e chegava a uma prensa de Luanda.
A prensa de Luanda era pequena e servia ao governo. Compor um livro inteiro de versos, letra por letra, nas horas em que ela não imprimia decretos, exigia paciência dos tipógrafos e insistência do autor.
Na hora de ler
Leia cada Nosso com o mesmo peso. A repetição faz o trabalho, a voz só acompanha.
Suba um pouco o tom no último verso. Amores é a palavra que a sala espera.
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II Pra Ler no Altar
Graças à minha estrela
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Num casamento, José da Silva Maia Ferreira cede a palavra a Tomás Antônio Gonzaga, o poeta nascido no Porto que viveu em Minas Gerais e terminou a vida em Moçambique, na outra costa da África.
O refrão serve ao altar porque é um obrigado curto, dito em voz alta, à sorte de ter encontrado a pessoa certa.
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Graças, Marília bela, Graças à minha estrela!
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Tomás Antônio Gonzaga, Marília de Dirceu, Lira I, 1792.
Lira, no livro de Gonzaga, é o nome de cada poema: uma peça em estrofes, feita para soar como canção. A primeira lira do livro termina cada estrofe com os dois versos acima.
Dirceu é o pastor que Gonzaga inventou para si mesmo. Marília é a moça que ele queria: Maria Doroteia Joaquina de Seixas, noiva real do poeta em Vila Rica, a atual Ouro Preto.
O casamento não aconteceu. Em 1789, Gonzaga foi preso na Inconfidência Mineira (a conspiração contra a Coroa portuguesa em Minas) e, depois de três anos de cadeia, condenado ao degredo (exílio forçado) em Moçambique.
Ele embarcou em 1792, o ano em que a primeira parte de Marília de Dirceu saiu impressa em Lisboa. Em Moçambique, casou com outra mulher, Juliana de Sousa Mascarenhas, e viveu na Ilha de Moçambique até 1810.
Maria Doroteia nunca se casou. Viveu em Minas até 1853, e a tradição de Ouro Preto conta que guardou as liras pelo resto da vida.
Maia Ferreira leu Gonzaga como todo rapaz letrado de língua portuguesa no século 19. Marília de Dirceu foi um dos livros de poesia mais reeditados da língua naquele século, em Lisboa e no Rio.
O refrão funciona no altar porque não promete nada. Só agradece. Quem já esperou por alguém ouve a palavra estrela como sorte, e a sala inteira concorda.
O refrão também cabe numa leitura a dois. Um dos noivos diz o primeiro verso, o outro responde com o segundo, e a sala ouve um diálogo de dez segundos.
• O nome: troque Marília pelo nome de quem se casa, se ele tiver três sílabas e a mesma batida.
• A origem: diga em uma frase quem foi Gonzaga e por que o casamento dele não aconteceu.
• O ritmo: os versos são curtos e pedem voz de brinde, firme e alegre.
Na hora de ler
Olhe para o casal quando disser estrela.
Repita o refrão duas vezes, a segunda mais baixa.
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