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O poeta que foi preso pelo que tinha escrito em verso
Em Lisboa, no ano de 1797, os versos que corriam de mão em mão levaram o autor para o Limoeiro e depois para um convento, com um dicionário de latim.
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Lisboa, 1797: o verso que virou processo
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Em Lisboa, no fim do século dezoito, um poema não precisava de editor para circular. Bastava alguém copiar a folha à mão, passar para o amigo, e o amigo copiar de novo. Uma sátira boa dava a volta na cidade em poucos dias, sem que ninguém soubesse dizer quem tinha feito a primeira cópia.
A cidade tinha uma polícia de leitura montada exatamente contra esse tipo de circulação. A Intendência Geral da Polícia lia o que corria por baixo dos balcões, a Real Mesa Censória decidia o que podia ser impresso, e o Santo Ofício ainda funcionava com cárcere próprio, tudo ao mesmo tempo e na mesma cidade pequena.
Em agosto de 1797, um poeta de trinta e um anos foi preso por causa do que tinha escrito. Não por dívida nem por briga de taberna. Foi preso porque uma folha de versos dele chegou à mesa errada, e nessa folha havia crítica a religião, a costumes e a gente com nome e cargo.
Ele passou pela cadeia do Limoeiro, o presídio da cidade, e de lá foi transferido para o cárcere da Inquisição, no Rossio. O processo durou meses, e o desfecho não foi soltura nem condenação pesada: foi um destino intermediário, quase burocrático, que hoje soa estranho.
Mandaram o poeta terminar a pena dentro de um convento, com trabalho definido. O trabalho era traduzir do latim. Um homem que tinha ido parar na prisão pela língua portuguesa passou a cumprir a pena vertendo língua alheia, sentado, com prazo, sob vigilância de religiosos que tinham o próprio nome a zelar.
Ele saiu no ano seguinte, e o efeito da temporada apareceu no que veio depois. A obra que ele produziu na última fase da vida é feita, em boa parte, de traduções: latim e francês, verso a verso, em metro certo. A oficina forçada virou ofício.
Interessa a quem lê poema hoje entender três coisas dessa história. Como um retrato escrito em quatro linhas basta para desenhar um homem inteiro, por que um convite a olhar a paisagem funciona melhor num casamento do que uma declaração de amor, e o que faz um único verso de despedida caber num cartão de flores sem soar pequeno.
Começa pelo retrato, que é o texto mais curioso do conjunto: ele mesmo se descreveu, de corpo e de defeito, sem poupar nenhum dos dois.
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I O Poema do Dia
O retrato que ele mesmo fez de si
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Existe um soneto em que o autor se descreve por fora antes de se descrever por dentro. O texto ficou conhecido como autorretrato e é a peça mais citada quando se quer mostrar que a poesia dele tinha humor, e não só desaforo.
O começo é um inventário físico. Magro, olhos azuis, rosto moreno, pé bem servido, altura média. Nada de elogio e nada de tragédia. É a descrição que alguém daria a um funcionário que precisa preencher uma ficha.
A escolha decisiva do soneto está na ordem: primeiro o corpo, depois o caráter, e o corpo entra sem nenhuma metáfora, o que faz o leitor confiar no que vem em seguida. Quem admite ser magro e triste de cara compra o direito de falar do próprio talento sem parecer vaidoso.
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Magro, de olhos azuis, carão moreno, Bem servido de pés, meão na altura, Triste de facha, o mesmo de figura, Nariz alto no meio, e não pequeno.
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Manuel Maria Barbosa du Bocage, primeira estrofe do soneto conhecido como autorretrato, das Rimas publicadas a partir de 1791.
Repare no vocabulário antigo, que hoje trava a leitura em dois pontos. Carão quer dizer cara grande, e triste de facha quer dizer de aparência sem graça, ainda com a grafia da época. Os dois termos valem uma explicação de meio segundo antes de ler em voz alta.
Repare também na ausência de verbo. A estrofe inteira não tem um único verbo conjugado, só adjetivos e medidas enfileirados, e essa falta é o que dá o ar de laudo, de descrição feita por terceiro.
O detalhe que fecha a estrofe é o nariz. Alto no meio, e não pequeno é a única linha em que ele se demora num traço só, e a demora entrega o incômodo com aquele traço, sem que ele precise dizer que se incomoda.
Vale saber a origem prática do texto. Sonetos de retrato eram esporte social na Lisboa de então, e quem tinha fama de improvisar em público, como ele tinha, respondia ao desafio na hora, de pé, sem rascunho, diante de gente que ia repetir a resposta pela cidade.
Na hora de ler
Leia sem ênfase, em tom de quem preenche formulário. O humor da estrofe nasce da secura, e qualquer entonação teatral estraga a piada antes que ela chegue.
Traduza os dois termos antigos antes, uma vez só. Carão é cara grande, triste de facha é de aparência sem graça, e a explicação depois da leitura chega tarde demais.
Diga a ficha em uma frase. Primeira estrofe do soneto do autorretrato, das Rimas do fim do século dezoito.
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II Pra Ler no Altar
O convite a olhar a mesma paisagem
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Num casamento, a leitura mais arriscada é a que promete sentimento eterno. Ela chega no ponto alto da cerimônia, disputa espaço com a voz de quem oficia e costuma sair maior que a cena, deixando os noivos parados esperando o texto terminar.
O verso que funciona no altar não declara amor: ele convida duas pessoas a olhar a mesma coisa ao mesmo tempo, que é a definição mais concreta de vida em comum que cabe em quatro linhas. A imagem faz o trabalho que o adjetivo não faz.
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Olha, Marília, as flautas dos pastores, Que bem que soam, como estão cadentes! Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes Os Zéfiros brincar por entre as flores?
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Manuel Maria Barbosa du Bocage, primeira estrofe do soneto Olha, Marília, as flautas dos pastores, das Rimas do fim do século dezoito.
O verbo que abre é o segredo da estrofe. Olha aparece três vezes em quatro versos, sempre no imperativo, e cada repetição empurra o ouvinte a virar a cabeça na direção que o poeta aponta, como quem puxa alguém pela manga.
O segundo verso cuida do ouvido. Que bem que soam, como estão cadentes fala das flautas, mas descreve o próprio soneto, que tem cadência de música pastoral e pede leitura em ritmo tranquilo.
O terceiro verso traz a única figura ousada do trecho. O Tejo a sorrir sozinho é um rio recebendo gesto humano, e a imagem funciona porque é rápida, cabe em quatro palavras e não volta depois.
A origem: conte que o poeta assinava versos pastorais com o nome de árcade Elmano Sadino, e que Marília é uma personagem da convenção da época, não uma pessoa real, o que libera o texto para qualquer casal.
O corte: com pouco tempo, leia os dois primeiros versos, que já entregam o convite. Com espaço, leia os quatro, porque a pergunta do fim transfere a fala para quem ouve.
A troca: se o nome próprio incomodar na cerimônia, troque Marília pelo nome de quem casa. A métrica aguenta nomes de três sílabas sem tropeçar, e o efeito melhora.
Um cuidado com a palavra do quarto verso. Zéfiros são os ventos suaves do oeste na tradição clássica, e uma frase curta antes da leitura resolve a dúvida da sala inteira.
Na hora de ler
Marque os três olha. Faça uma pausa mínima antes de cada um, porque a repetição é a estrutura do trecho e a pressa transforma a estrofe numa lista.
Termine com pergunta de verdade. O último verso pergunta, e a leitura precisa subir no fim, senão a estrofe morre num ponto final que o texto não tem.
Diga a ficha em uma frase. Primeira estrofe de um soneto pastoral do fim do século dezoito.
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