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Poesia do Dia   Poesia do Dia
ED 023

O poeta que estreou com nome falso e levou cinco anos para se assumir

Em 1917 o primeiro livro saiu assinado por um nome inventado, e só em 1922 o nome verdadeiro chegou à capa.

Capa de livro antigo sobre mesa de madeira, com o nome do autor impresso em tipos de chumbo, luz baixa de escritório.

São Paulo, 1917, a capa e o pseudônimo

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Em 1917, um professor de piano de vinte e quatro anos pagou do próprio bolso a impressão de um livro de poemas em São Paulo e mandou imprimir na capa um nome que não existia em registro nenhum: Mário Sobral. O livro chamava-se Há uma Gota de Sangue em Cada Poema, e falava da guerra que naquele momento cobria a Europa de trincheiras.

O disfarce não era capricho de artista. A cidade tinha meia dúzia de salões, um conservatório e um punhado de jornais, e todo mundo que escrevia conhecia todo mundo que lia. Assinar em nome próprio um livro pacifista sobre uma guerra distante era expor o professor do conservatório à conversa de corredor antes de expor o poeta ao leitor.

Sobral, aliás, não era um nome sorteado ao acaso. Era um sobrenome da própria família, puxado de um ramo, o que faz do pseudônimo uma meia máscara: escondia o homem sem negar a linhagem. Quem sabia, sabia. Quem não sabia, comprava o livro de um estreante qualquer.

O livro vendeu quase nada e a crítica quase não olhou. Nos cinco anos seguintes ele deu aula, escreveu em jornal, viajou pelo interior atrás de música de viola e foi juntando um caderno de poemas curtos sobre a cidade onde morava, que crescia mais depressa do que qualquer um conseguia descrever.

Em 1922, na semana em que São Paulo transformou o Teatro Municipal em campo de batalha estética, saiu o volume que mudou a conta. Paulicéia Desvairada trazia poemas sobre bondes, chaminés, burgueses e garoa, e trazia na capa, pela primeira vez, o nome de batismo inteiro.

Cinco anos separam a máscara do rosto. E o que muda entre um livro e outro não é apenas a assinatura: muda o assunto, muda o ritmo do verso, muda até o volume da voz, que sai do lamento sobre uma guerra alheia e entra na gritaria de uma cidade própria.

O poema que abre esta edição nasceu desse segundo momento, quando o autor já não tinha nada a esconder e resolveu usar a página como quem usa um microfone numa praça.

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I  O Poema do Dia

O insulto que virou ritmo de comício

O poema mais falado de Paulicéia Desvairada chama-se Ode ao Burguês, e ele foi escrito para ser dito em voz alta contra alguém. Não é uma reflexão sobre a burguesia, é um xingamento organizado em versos, com pausa marcada e crescendo de volume.

A engrenagem está na repetição do verbo insultar logo na abertura, que estabelece o compasso e transforma a lista de ofensas numa marcha, do mesmo jeito que um refrão de comício transforma uma frase solta em palavra de ordem. Quem ouve pela primeira vez não guarda o argumento, guarda a batida.

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!

Mário de Andrade, poema Ode ao Burguês, do livro Paulicéia Desvairada, 1922.

Repare nos apostos com hífen. Burguês-níquel, homem-curva, homem-nádegas: cada um cola um substantivo comum a um corpo humano e produz uma figura ridícula em duas palavras, sem precisar de frase explicativa.

O terceiro verso é o mais cruel dos quatro justamente por não xingar ninguém. Chamar a cidade inteira de digestão bem-feita é dizer que ela come, processa e descarta, e a imagem faz o trabalho que dez linhas de crítica social fariam pior.

A partir daí o poema cresce. Entram o senhor de terno, a família de sobremesa, a moça que toca piano na sala, e o texto vai fechando o cerco sobre uma classe inteira descrita pelos seus móveis.

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!

Mário de Andrade, poema Ode ao Burguês, do livro Paulicéia Desvairada, 1922.

A comida volta como material de insulto, e a escolha não é aleatória. Gelatina e purê são pratos moles, sem osso, que não exigem mastigação, e o poeta usa a textura da mesa para descrever a espinha de quem senta nela.

O fecho do poema abandona a lista e vira ordem direta, o que na leitura em voz alta significa uma coisa só: o volume que você guardou até ali é gasto todo no último terço, sem economia.

Na hora de ler

Não corra nos pontos de exclamação. Eles são muitos, e cada um vale uma respiração inteira, não meia. Quem apressa perde o efeito de martelo.

Marque a pausa antes de cada hífen. Burguês, respira, níquel. É a pausa mínima que faz a piada aparecer para quem está ouvindo pela primeira vez.

Suba o corpo junto com a voz. O poema foi escrito para praça e para palco, e ler sentado, olhando para a folha, entrega metade do texto.

Diga a ficha antes de começar. Uma frase resolve: Ode ao Burguês, do livro Paulicéia Desvairada, publicado em 1922.

 
 

II  Pra Ler no Altar

A pergunta de rio que serve como voto

Numa cerimônia, a leitura mais escolhida costuma ser aquela que promete eternidade em linguagem de cartão. Existe um caminho melhor, que é escolher um texto que faça uma pergunta em vez de fazer uma promessa, porque a pergunta deixa o casal responder na frente de todo mundo.

O poema do rio abre exatamente assim, com quem fala perguntando à água para onde ela pretende levá-lo, e a cerimônia ganha um voto que admite não saber o destino e mesmo assim aceita a correnteza. É a diferença entre jurar o futuro e aceitar o percurso.

Água do meu Tietê,
Onde me queres levar?
Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar...

Mário de Andrade, poema Meditação sobre o Tietê, do livro Lira Paulistana, 1945.

Quatro versos, cerca de quinze segundos. É o tamanho exato de uma leitura de altar, curta o bastante para caber entre o anel e o beijo, longa o bastante para a sala respirar junto.

O detalhe geográfico faz um trabalho que ninguém percebe conscientemente. O Tietê corre para dentro do continente, ao contrário da maioria dos rios do litoral, e o poema transforma essa teimosia de mapa numa imagem de vida que escolhe o caminho difícil.

A origem: conte que o autor escreveu estes versos no fim da vida, sobre o rio da cidade onde nasceu, e que o poema inteiro é uma conversa com a água. A informação dá peso ao trecho sem transformar a leitura numa aula de geografia.

O corte: se houver pouco tempo, leia apenas os dois primeiros versos, que já contêm a pergunta. Se houver espaço, leia os quatro, e o terceiro verso ganha altura de resposta.

A virada: depois dos versos, uma frase de ligação basta. Algo como: é a isto que vocês estão dizendo sim, ao caminho, não ao mapa.

Uma advertência de honestidade, porque ela evita constrangimento. O poema completo é longo e sombrio, e convidado leitor pode conhecer o resto. Quem lê resolve a questão dizendo antes que vai usar apenas a abertura, que é a parte da pergunta.

Na hora de ler

Segure a pausa depois do nome do rio. É o instante em que a sala entende que alguém está falando com a água e não sobre ela.

Faça a pergunta como pergunta. O segundo verso precisa subir no fim, e não faz sentido dizê-lo com entonação de afirmação.

Olhe para os noivos na palavra levar. É onde a frase se fecha, e a leitura ganha destino quando quem lê aponta com os olhos.

Diga quem assina e de onde saiu. Uma frase resolve: Mário de Andrade, do poema Meditação sobre o Tietê.

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III  Pra Dizer Adeus

O mapa de bairros que serve de despedida

Numa despedida, o texto mais difícil é o que consegue nomear o fim sem apagar a pessoa. Poesia de consolo costuma escolher entre negar a perda ou afundar nela, e a família na sala precisa de uma terceira saída.

O poema Quando eu Morrer Quero Ficar oferece essa saída pelo caminho mais estranho possível: em vez de falar de céu, ele distribui um corpo pelos bairros de uma cidade, um pedaço em cada rua onde aquela vida aconteceu.

A força do trecho está em substituir o abstrato pelo endereço, porque família nenhuma se lembra de alma, mas todo mundo se lembra da esquina onde a pessoa comprava pão. A sala aceita o alívio porque o texto entrega lugares que ela pode visitar amanhã.

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Mário de Andrade, poema Quando eu Morrer Quero Ficar, do livro Lira Paulistana, 1945.

A palavra final carrega o trecho inteiro. Saudade aparece sozinha, ocupando um verso de quatro sílabas depois de três versos longos, e o silêncio que ela abre é o espaço onde a sala coloca o próprio nome do morto.

O segundo verso é a chave do tom. Ele faz uma piada seca no meio de um pedido solene, e é essa piada que impede o poema de virar sermão, o que na prática é o que permite ler o texto para uma família enlutada sem sufocá-la.

O trecho funciona melhor na voz de alguém próximo, um filho, uma irmã, quem conviveu com a rotina da pessoa. Dito por uma autoridade da cerimônia, o pedido perde o dono e vira frase geral.

O trecho: para falar em voz alta, use as quatro linhas inteiras, que levam cerca de doze segundos. Para o cartão das flores, use apenas o primeiro verso e a palavra final.

A linha de apresentação: diga quem assina, de qual livro saiu e de que ano é. Nada além disso, porque a história do autor é longa e roubaria a cena da pessoa que está sendo homenageada.

A palavra que não se troca: saudade. Lembrança não serve, falta não serve, porque a palavra sozinha na linha é o que dá à frase o tempo de reza que ela precisa ter.

E vale guardar o dado que costura as três leituras. O mesmo homem que precisou de um nome inventado para publicar o primeiro livro acabou deixando poemas que hoje se leem em praça, em casamento e em despedida, todos assinados com o nome que ele levou cinco anos para colocar na capa.

“Que nome você usaria se precisasse dizer em voz alta o que ainda não assina?”

 
 
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