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O poeta que estreou com nome falso e levou cinco anos para se assumir
Em 1917 o primeiro livro saiu assinado por um nome inventado, e só em 1922 o nome verdadeiro chegou à capa.
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São Paulo, 1917, a capa e o pseudônimo
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Em 1917, um professor de piano de vinte e quatro anos pagou do próprio bolso a impressão de um livro de poemas em São Paulo e mandou imprimir na capa um nome que não existia em registro nenhum: Mário Sobral. O livro chamava-se Há uma Gota de Sangue em Cada Poema, e falava da guerra que naquele momento cobria a Europa de trincheiras.
O disfarce não era capricho de artista. A cidade tinha meia dúzia de salões, um conservatório e um punhado de jornais, e todo mundo que escrevia conhecia todo mundo que lia. Assinar em nome próprio um livro pacifista sobre uma guerra distante era expor o professor do conservatório à conversa de corredor antes de expor o poeta ao leitor.
Sobral, aliás, não era um nome sorteado ao acaso. Era um sobrenome da própria família, puxado de um ramo, o que faz do pseudônimo uma meia máscara: escondia o homem sem negar a linhagem. Quem sabia, sabia. Quem não sabia, comprava o livro de um estreante qualquer.
O livro vendeu quase nada e a crítica quase não olhou. Nos cinco anos seguintes ele deu aula, escreveu em jornal, viajou pelo interior atrás de música de viola e foi juntando um caderno de poemas curtos sobre a cidade onde morava, que crescia mais depressa do que qualquer um conseguia descrever.
Em 1922, na semana em que São Paulo transformou o Teatro Municipal em campo de batalha estética, saiu o volume que mudou a conta. Paulicéia Desvairada trazia poemas sobre bondes, chaminés, burgueses e garoa, e trazia na capa, pela primeira vez, o nome de batismo inteiro.
Cinco anos separam a máscara do rosto. E o que muda entre um livro e outro não é apenas a assinatura: muda o assunto, muda o ritmo do verso, muda até o volume da voz, que sai do lamento sobre uma guerra alheia e entra na gritaria de uma cidade própria.
O poema que abre esta edição nasceu desse segundo momento, quando o autor já não tinha nada a esconder e resolveu usar a página como quem usa um microfone numa praça.
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I O Poema do Dia
O insulto que virou ritmo de comício
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O poema mais falado de Paulicéia Desvairada chama-se Ode ao Burguês, e ele foi escrito para ser dito em voz alta contra alguém. Não é uma reflexão sobre a burguesia, é um xingamento organizado em versos, com pausa marcada e crescendo de volume.
A engrenagem está na repetição do verbo insultar logo na abertura, que estabelece o compasso e transforma a lista de ofensas numa marcha, do mesmo jeito que um refrão de comício transforma uma frase solta em palavra de ordem. Quem ouve pela primeira vez não guarda o argumento, guarda a batida.
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Eu insulto o burguês! O burguês-níquel, o burguês-burguês! A digestão bem-feita de São Paulo! O homem-curva! o homem-nádegas!
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Mário de Andrade, poema Ode ao Burguês, do livro Paulicéia Desvairada, 1922.
Repare nos apostos com hífen. Burguês-níquel, homem-curva, homem-nádegas: cada um cola um substantivo comum a um corpo humano e produz uma figura ridícula em duas palavras, sem precisar de frase explicativa.
O terceiro verso é o mais cruel dos quatro justamente por não xingar ninguém. Chamar a cidade inteira de digestão bem-feita é dizer que ela come, processa e descarta, e a imagem faz o trabalho que dez linhas de crítica social fariam pior.
A partir daí o poema cresce. Entram o senhor de terno, a família de sobremesa, a moça que toca piano na sala, e o texto vai fechando o cerco sobre uma classe inteira descrita pelos seus móveis.
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Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma! Oh! purée de batatas morais! Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
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Mário de Andrade, poema Ode ao Burguês, do livro Paulicéia Desvairada, 1922.
A comida volta como material de insulto, e a escolha não é aleatória. Gelatina e purê são pratos moles, sem osso, que não exigem mastigação, e o poeta usa a textura da mesa para descrever a espinha de quem senta nela.
O fecho do poema abandona a lista e vira ordem direta, o que na leitura em voz alta significa uma coisa só: o volume que você guardou até ali é gasto todo no último terço, sem economia.
Na hora de ler
Não corra nos pontos de exclamação. Eles são muitos, e cada um vale uma respiração inteira, não meia. Quem apressa perde o efeito de martelo.
Marque a pausa antes de cada hífen. Burguês, respira, níquel. É a pausa mínima que faz a piada aparecer para quem está ouvindo pela primeira vez.
Suba o corpo junto com a voz. O poema foi escrito para praça e para palco, e ler sentado, olhando para a folha, entrega metade do texto.
Diga a ficha antes de começar. Uma frase resolve: Ode ao Burguês, do livro Paulicéia Desvairada, publicado em 1922.
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II Pra Ler no Altar
A pergunta de rio que serve como voto
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Numa cerimônia, a leitura mais escolhida costuma ser aquela que promete eternidade em linguagem de cartão. Existe um caminho melhor, que é escolher um texto que faça uma pergunta em vez de fazer uma promessa, porque a pergunta deixa o casal responder na frente de todo mundo.
O poema do rio abre exatamente assim, com quem fala perguntando à água para onde ela pretende levá-lo, e a cerimônia ganha um voto que admite não saber o destino e mesmo assim aceita a correnteza. É a diferença entre jurar o futuro e aceitar o percurso.
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Água do meu Tietê, Onde me queres levar? Rio que entras pela terra E que me afastas do mar...
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Mário de Andrade, poema Meditação sobre o Tietê, do livro Lira Paulistana, 1945.
Quatro versos, cerca de quinze segundos. É o tamanho exato de uma leitura de altar, curta o bastante para caber entre o anel e o beijo, longa o bastante para a sala respirar junto.
O detalhe geográfico faz um trabalho que ninguém percebe conscientemente. O Tietê corre para dentro do continente, ao contrário da maioria dos rios do litoral, e o poema transforma essa teimosia de mapa numa imagem de vida que escolhe o caminho difícil.
A origem: conte que o autor escreveu estes versos no fim da vida, sobre o rio da cidade onde nasceu, e que o poema inteiro é uma conversa com a água. A informação dá peso ao trecho sem transformar a leitura numa aula de geografia.
O corte: se houver pouco tempo, leia apenas os dois primeiros versos, que já contêm a pergunta. Se houver espaço, leia os quatro, e o terceiro verso ganha altura de resposta.
A virada: depois dos versos, uma frase de ligação basta. Algo como: é a isto que vocês estão dizendo sim, ao caminho, não ao mapa.
Uma advertência de honestidade, porque ela evita constrangimento. O poema completo é longo e sombrio, e convidado leitor pode conhecer o resto. Quem lê resolve a questão dizendo antes que vai usar apenas a abertura, que é a parte da pergunta.
Na hora de ler
Segure a pausa depois do nome do rio. É o instante em que a sala entende que alguém está falando com a água e não sobre ela.
Faça a pergunta como pergunta. O segundo verso precisa subir no fim, e não faz sentido dizê-lo com entonação de afirmação.
Olhe para os noivos na palavra levar. É onde a frase se fecha, e a leitura ganha destino quando quem lê aponta com os olhos.
Diga quem assina e de onde saiu. Uma frase resolve: Mário de Andrade, do poema Meditação sobre o Tietê.
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