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O poeta que enfiou a bolsa de valores dentro de uma epopeia
Morando em Nova York nos anos 1870, ele escreveu o pregão em verso e previu que só seria lido cinquenta anos depois.
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Nova York, 1877, o pregão vira verso
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Em 1877, uma gráfica de Nova York imprimiu um livro de poesia em português que quase ninguém naquela cidade tinha como ler. O autor era um maranhense que morava ali havia seis anos e passava os dias a poucos quarteirões do prédio onde o dinheiro dos Estados Unidos trocava de dono.
O livro se chamava O Guesa. Conta a viagem de um menino indígena tirado do altar antes do sacrifício, um errante que atravessa a América inteira fugindo dos sacerdotes que o querem de volta.
A certa altura o menino cruza o Caribe, desembarca em Nova York e entra na bolsa de valores. A epopeia, que até ali corria por cordilheiras e rios, para dentro de um pregão.
Na edição de Nova York, de 1877, a cena da bolsa ocupava 106 estrofes e ficava no Canto VIII. Sete anos depois, na edição de Londres, ela tinha crescido para 176 estrofes e virado o Canto X inteiro.
Nenhum crítico brasileiro da época soube o que fazer com o que estava ali. Verso picado, inglês encaixado no português, nomes de corretores e de escândalos financeiros entrando no meio de uma epopeia sobre um índio.
O poeta mediu o silêncio com uma frase que hoje é a mais citada dele. Contou que ouviu duas vezes que o Guesa Errante seria lido cinquenta anos depois, e entristeceu, decepção de quem escreve cinquenta anos antes.
A conta dele errou por pouco, e errou para menos. Ele se despediu em 1902, quase apagado em São Luís, cercado de galinhas e de um manuscrito que ninguém queria. O resgate levou mais de sessenta anos.
Veio em 1964, quando Augusto e Haroldo de Campos publicaram a ReVisão de Sousândrade, deram àquele trecho o nome de O Inferno de Wall Street e mostraram que a técnica de 1877 tinha chegado à poesia brasileira só na metade do século seguinte.
O que vem agora são três leituras deste poema. Primeiro a linha em prosa que abre a descida e resume a obra inteira em duas frases. Depois dois versos de exílio que funcionam numa cerimônia de casamento. E por fim a passagem que serve numa despedida.
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I O Poema do Dia
A rubrica que empurra o Guesa pro pregão
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O Canto X não abre por um verso. Abre por uma linha em prosa entre parênteses, escrita como rubrica de teatro, indicando quem entra em cena e por onde.
A rubrica faz o trabalho de um capítulo inteiro em duas frases, e é ela que transforma a bolsa de valores num lugar de descida, não num assunto. Quem lê recebe endereço, personagem e destino antes do primeiro verso.
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(O Guesa, tendo atravessado as Antilhas, crê-se livre dos Xeques e penetra em New-York-Stock-Exchange; a Voz, dos desertos:) Orfeu, Dante, Æneas, ao inferno Desceram; o Inca há de subir.
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Sousândrade, O Guesa, Canto X, o trecho batizado de O Inferno de Wall Street, edição de Londres, 1884.
Repare no que a rubrica coloca lado a lado. Antilhas e New-York-Stock-Exchange, xeques e corretores, um menino de mito andino e o pregão de uma bolsa que naquele momento vivia a crise de 1873.
O verbo crê-se avisa que o menino está enganado. Ele acha que escapou dos sacerdotes que o queriam no altar, e entra numa sala onde outra casta de homens também negocia vidas alheias.
A tríade seguinte é a maior aposta do poema. Orfeu, Dante e Eneias descem, cada um ao seu inferno, e a linha seguinte inverte o movimento: o Inca há de subir.
A inversão vale por uma tese. Toda a tradição europeia mandava o herói para baixo, e aqui o americano faz o caminho contrário, sobe, e a descida fica por conta de quem está no chão do pregão.
Depois desses três versos a forma se estilhaça. Entram gritos de leilão, siglas, marcas, um refrão em que o urso da bolsa vira o demônio do dinheiro, Mammumma, Mammumma, Mammão, e a página passa a parecer a transcrição de uma sala em pânico.
Na hora de ler
Leia a rubrica em voz de aviso, sem emoção nenhuma. É informação de cena, e enfeitá-la derruba o efeito de placa na porta.
Marque a vírgula depois de Æneas. As três referências são um bloco, e são elas que preparam a virada da linha seguinte.
Segure meio segundo antes de o Inca há de subir. É a frase que inverte séculos de tradição, e ela precisa de silêncio na frente.
Diga New-York-Stock-Exchange do jeito que a língua permitir. O choque entre o português da rubrica e o nome em inglês é do poeta, e alisar a pronúncia apaga o choque.
Diga a ficha antes de começar. Uma frase resolve: Sousândrade, poema O Guesa, o Canto X conhecido como O Inferno de Wall Street, de 1884.
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II Pra Ler no Altar
Dois versos que veem a ilha de longe
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Numa epopeia sobre fuga, exílio e bolsa de valores, existe um par de versos que descreve o instante em que alguém avista de novo o lugar que carregou na memória por mais de uma década.
A passagem serve numa cerimônia porque descreve exatamente o que duas pessoas fazem no altar: reconhecer de longe, e escolher chegar. O poema fala de ilhas, e a sala ouve a definição de reencontro.
Ela vem depois de páginas de mar aberto, o que dá ao momento um antes concreto em vez de elogio solto.
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Avista ao longe as amazôneas águas, Oiro agitado ao sol, e as verdes ilhas São as Antilhas os jardins dos mares, Onde houve berço a geração moderna!
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Sousândrade, O Guesa, versos do trecho americano, edição de Londres, 1884.
A imagem central é o ouro agitado ao sol. O mesmo metal que no Canto X aparece como febre de pregão volta aqui como cor de água de manhã, e a diferença entre as duas aparições é o que a leitura precisa entregar.
Jardim dos mares e berço numa frase só resolvem o brinde inteiro. Um casamento é a fundação de um lugar onde outra gente ainda vai nascer, e o verso diz a fundação sem prometer nada sobre o futuro.
A origem: conte que o poeta escreveu essas linhas fora do país, longe de casa havia anos. A informação transforma o verso num testemunho de quem sabe o preço da distância.
O corte: para cerimônia curta, use as duas primeiras linhas. São nove segundos, cabem antes de a noiva entrar e não pedem explicação nenhuma.
Na hora de ler
Comece devagar em avista ao longe. As três palavras montam a distância, e a sala precisa enxergar o horizonte antes de ver a ilha.
Não corra em oiro agitado ao sol. A forma oiro é a do poeta e soa antiga de propósito, então diga com naturalidade em vez de corrigir para ouro.
Suba um tom em jardins dos mares. É a imagem que a sala vai lembrar depois, e ela vem no meio, não no fim.
Termine em geração moderna com a voz caindo. Ponto final firme, sem alongar a última sílaba, que a exclamação já está escrita.
Diga quem assina e de quando é. Uma frase resolve: Sousândrade, poema O Guesa, na edição de Londres, de 1884.
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