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O poeta que assinava o nome dentro do próprio verso
Em Recife ele imprimia e vendia os folhetos sozinho, e em 1921 a viúva vendeu o espólio por 600 mil réis a quem trocou a capa.
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Recife, folheto amarrado no barbante da feira
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Em Recife, nas duas primeiras décadas do século vinte, um homem fazia sozinho o trabalho que hoje ocupa uma editora inteira. Escrevia o folheto, levava o original para a tipografia, acompanhava a impressão, dobrava as folhas, amarrava o maço e ia vender na feira, no preço de quem compra pão.
O nome dele era Leandro Gomes de Barros, nascido em Pombal, na Paraíba, em 1865, e ele começou a publicar por volta de 1889. Deixou cerca de duzentos e quarenta títulos, quase todos na mesma medida: a sextilha, seis versos de sete sílabas, feitos para serem lidos em voz alta na banca antes de o comprador tirar o dinheiro do bolso.
Vender o próprio verso ensinou a ele uma preocupação que raro poeta da época tinha. Em 1910, ao fim de um dos folhetos mais vendidos, ele mandou imprimir um aviso seco, com cara de intimação: o autor procederá judicialmente contra quem reproduzir o presente folheto. Era um poeta popular defendendo direito autoral numa feira do Nordeste, uma década antes de qualquer discussão do tema no país.
O aviso não bastou. Ele partiu em Recife, em quatro de março de 1918, aos cinquenta e dois anos, e o que sobrou de valor no espólio eram os folhetos. Em treze de abril de 1921 a viúva, Venustiniana Aleixo de Barros, vendeu o acervo inteiro a João Martins de Athayde por seiscentos mil réis, com o contrato registrado em cartório três dias depois.
Athayde reeditou tudo. E fez mais do que reeditar: tirou o nome do autor das capas, pôs o próprio, e mexeu nas marcas que o poeta havia deixado dentro dos versos justamente para não ser apagado. Numa geração, uma parte grande do repertório popular brasileiro passou a circular com a assinatura errada na frente.
A defesa que Leandro montou não estava na capa nem no contrato. Estava na última estrofe dos folhetos, escondida na primeira letra de cada verso, e vale desmontar linha por linha.
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I O Poema do Dia
Sete versos que escondem a assinatura do autor
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O folheto O Cachorro dos Mortos conta um crime na Bahia e um cão que não abandona o dono. A história ocupa dezenas de sextilhas, e o que interessa hoje é a estrofe final, aquela que fecha a narrativa e devolve a palavra a quem escreveu.
A estrofe faz duas tarefas ao mesmo tempo: encerra a história e carimba o autor, porque a primeira letra de cada verso, lida de cima para baixo, soletra o nome Leandro. A assinatura ficou dentro do poema, e não na capa, que era a parte fácil de trocar.
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Leitor não levantei falso Escrevi o que se deu, Aquelle grande sucesso Na Bahia aconteceu, Da forma que o velho cão, Rolou morto sobre o chão Onde o seu senhor morreu.
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Leandro Gomes de Barros, estrofe final do folheto O Cachorro dos Mortos.
Repare no primeiro verso. Ele começa por leitor, no vocativo, porque o poeta está diante de gente de carne e osso na feira e precisa dizer que não inventou nada. Não levantei falso é linguagem de tribunal, não de literatura.
O segundo verso continua na mesma defesa. Escrevi o que se deu põe o autor na posição de quem registra, não de quem imagina, e é a promessa que sustenta o folheto inteiro diante de quem pagou por ele.
O terceiro e o quarto versos dão endereço ao caso. Aquelle grande sucesso na Bahia aconteceu, com a grafia da época, marca lugar e fama, dois pontos que o comprador podia conferir com outro comprador na feira do lado.
Os três últimos versos entregam a cena que ficou. O velho cão rolou morto sobre o chão onde o senhor morreu, e a repetição dos verbos de queda amarra bicho e dono no mesmo lugar do terreiro, sem nenhuma palavra de consolo pelo meio.
E há a engrenagem escondida. L de leitor, E de escrevi, A de aquelle, N de na Bahia, D de da forma, R de rolou, O de onde. Sete versos, sete letras, o nome inteiro do autor montado com as iniciais.
Foi essa engrenagem que Athayde atacou depois de 1921. Em pelo menos um folheto reeditado, o acróstico que dizia Leandro apareceu adulterado, com letras trocadas, virando uma sequência sem sentido que ninguém reconheceria como assinatura de ninguém.
Na hora de ler
Diga leitor olhando para quem ouve. O vocativo é o gesto de abertura da estrofe, e quem lê para o papel perde a única palavra do trecho endereçada à sala.
Marque a sextilha com sete sílabas por verso. A batida é a mesma da cantiga de roda, e ela sustenta a leitura sem precisar de nenhuma solenidade adicional.
Guarde o acróstico para o fim. Leia os sete versos inteiros primeiro, depois volte e diga as sete letras iniciais em voz alta, e a sala descobre a assinatura junto.
Diga a ficha em uma frase. Estrofe final do folheto O Cachorro dos Mortos, de Leandro Gomes de Barros.
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II Pra Ler no Altar
A estrofe que põe o amor como razão de viver
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Numa cerimônia, o texto tem um problema de tamanho. Quem lê precisa de algo curto, que caiba entre o anel e o beijo, e que ao mesmo tempo diga uma frase grande o bastante para justificar a reunião de todo mundo naquela sala.
A sextilha de abertura do folheto da lagartixa resolve o tamanho porque não fala do casal em particular, fala de todo mundo que está vivo: velho, criança, qualquer um, todos atrás da mesma coisa. A frase é ampla e cabe em doze segundos.
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Não há quem viva no mundo Que não deseje gozar, Desde o velho à criancinha Quer a vida desfrutar, E tudo aspira o amor Pois quer viver de amar.
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Leandro Gomes de Barros, abertura de O Casamento e Divórcio da Lagartixa, 1908.
O primeiro par de versos abre pela negativa e fecha o cerco. Não há quem viva no mundo que não deseje gozar não deixa exceção de pé, e a sala inteira entra na frase sem precisar de convite nominal.
O terceiro e o quarto versos dão a escala. Desde o velho à criancinha atravessa a vida inteira em uma linha, e num casamento a frase encosta de uma vez nos avós sentados na frente e nas crianças correndo no fundo.
O quinto e o sexto versos entregam a tese. Tudo aspira o amor, pois quer viver de amar, com a inversão que a língua do folheto usa, coloca o afeto como motivo da vida e não como enfeite dela.
A origem: conte que os versos abrem um folheto satírico de 1908, escrito e vendido pelo próprio autor nas feiras de Recife. A informação diverte e dá lastro, porque a sala percebe que a frase veio da rua, não de um manual de cerimônia.
O corte: com pouco tempo, leia apenas os dois últimos versos, que já contêm a tese inteira. Com espaço, comece no primeiro verso, e a estrofe ganha a subida de quem prepara antes de afirmar.
A virada: depois dos versos, uma frase de ligação resolve. Algo como: é a isso que estamos assistindo aqui, duas pessoas que decidiram viver de amar.
Um cuidado com o vocabulário. O verbo gozar aparece no sentido antigo de aproveitar, e há convidado que ouve a palavra pelo sentido de hoje. Quem lê evita o susto avisando antes que o folheto é de 1908 e que gozar ali quer dizer desfrutar.
Na hora de ler
Não corra na abertura. A negativa dupla do primeiro par precisa de um instante para virar afirmação na cabeça de quem ouve.
Segure a vírgula depois de criancinha. É ali que a estrofe muda de escala e passa do geral para a vida de cada um na sala.
Diga o último verso mais devagar. Viver de amar é a tese, e a leitura toda existe para chegar nessas quatro palavras.
Diga a ficha em uma frase. Abertura de O Casamento e Divórcio da Lagartixa, folheto de 1908.
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