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O poeta fingidor tinha mais duas estrofes
Fernando Pessoa datou a Autopsicografia de abril de 1931, e a quadra que todos citam é só a primeira de três.
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Lisboa, abril de 1931: o poeta que finge
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O poeta é um fingidor; finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Fernando Pessoa escreveu essas quatro linhas em Lisboa, com data de 1º de abril de 1931, e elas resolvem hoje a dúvida de quem sobe para ler um poema triste sem estar triste: a voz não precisa sentir na hora, precisa dar forma ao que já foi sentido.
Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa em 13 de junho de 1888. Perdeu o pai aos cinco anos e passou a infância e a adolescência em Durban, na África do Sul, onde a mãe se casou de novo com o cônsul português. Estudou em escola inglesa e escreveu os primeiros versos em inglês.
Voltou sozinho a Lisboa em 1905 e nunca mais saiu de Portugal. Ganhou a vida como correspondente comercial, redigindo cartas em inglês e francês para firmas de importação da Baixa lisboeta, e morou em quartos alugados e na casa de parentes.
Em vida, publicou em português um só livro de poemas, Mensagem, de 1934. O resto saiu espalhado em revistas, e uma parte enorme ficou numa arca de madeira com milhares de papéis, encontrada depois da morte dele e ainda hoje em estudo na Biblioteca Nacional de Portugal.
A Autopsicografia saiu na revista Presença, número 36, em novembro de 1932. A Presença era feita em Coimbra por um grupo de jovens escritores, entre eles José Régio e João Gaspar Simões, e foi a primeira publicação a tratar Pessoa como mestre.
Pessoa morreu em Lisboa em 30 de novembro de 1935. Pela lei 9.610, a obra dele está em domínio público no Brasil desde 1º de janeiro de 2006, e os doze versos cabem num programa de cerimônia sem licença de herdeiro.
Três textos dele, três leituras faladas: a quadra do fingidor para um sarau, a terceira estrofe do mesmo poema para um altar e a última linha de outro poema para uma despedida.
A primeira parada é a quadra que circula sozinha, arrancada das outras duas.
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I O Poema do Dia
A quadra que viajou sem o resto
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Num sarau, quem abre com um poema famoso ganha a sala no primeiro verso e perde no segundo, porque a plateia já sabe a continuação e desliga.
A Autopsicografia funciona na abertura porque a plateia conhece a primeira estrofe e quase nunca ouviu a segunda. A surpresa mora no verso que vem depois do conhecido.
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O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.
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Fernando Pessoa, primeira estrofe de Autopsicografia, revista Presença, 1932.
Deveras quer dizer de verdade, realmente. O verso diz que o poeta sente uma dor real e, ao escrever, finge essa mesma dor, dando a ela uma forma que já não é a dor crua.
O título junta três pedaços gregos: auto (de si mesmo), psique (alma) e grafia (escrita). Autopsicografia é a escrita da própria alma, e o poema cumpre a promessa descrevendo como o próprio autor trabalha.
A medida é a redondilha maior, verso de sete sílabas poéticas contadas até a última tônica, com rima cruzada: a primeira linha rima com a terceira, a segunda com a quarta. Fingidor e dor fecham o par mais citado da língua.
Aos olhos de hoje, a quadra soa como confissão de mentira. Ela descreve um método: Pessoa assinou poemas com dezenas de heterônimos (autores inventados, cada um com biografia, estilo e visão de mundo próprios), entre eles Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Fingir outro poeta era o ofício dele.
A segunda estrofe muda o foco para quem lê:
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E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.
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A conta é esta: o poeta teve duas dores, a sentida e a escrita. O leitor não recebe nenhuma das duas. Sente uma terceira, a que o texto provoca nele, uma dor que ele não tem por conta própria.
Na hora de ler
Leia a primeira estrofe depressa, quase em tom de citação, e faça uma pausa longa antes da segunda. A sala reconhece o começo e se ajeita para ouvir o que não conhece.
Na linha das duas dores, mostre dois dedos. O gesto ajuda a plateia a acompanhar a conta sem perder a rima.
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II Pra Ler no Altar
O comboio que se chama coração
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Num casamento, quem lê no altar teme o poema que promete amor eterno em palavras grandes e deixa os noivos sem jeito diante dos convidados.
A terceira estrofe da Autopsicografia serve ao altar porque chama o coração de brinquedo de corda, pequeno e movido por dentro. Ela diz amor sem dizer a palavra.
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E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração.
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Fernando Pessoa, terceira estrofe de Autopsicografia, revista Presença, 1932.
Comboio é o nome português para trem. Calhas de roda são os trilhos em círculo por onde corre o trem de brinquedo, e comboio de corda é o trenzinho que anda enquanto a mola, enrolada por uma chave, se desenrola.
A imagem vem da infância de qualquer criança do começo do século 20: o brinquedo de lata que dá voltas no chão da sala. Pessoa põe o coração nesse trilho, girando e distraindo a razão, a parte da cabeça que calcula.
Entreter tem dois sentidos na estrofe. Quer dizer divertir e quer dizer manter ocupado. O coração distrai a razão enquanto corre, e a razão, entretida, deixa o trem seguir.
Pessoa viveu um namoro só documentado, com Ophélia Queiroz, datilógrafa de uma das firmas onde ele trabalhava. Os dois trocaram cartas em 1920 e de novo em 1929, e nunca se casaram. Ophélia guardou as cartas dele por décadas, e elas saíram em livro em Lisboa em 1978, com o consentimento dela. O casal que lê esta estrofe no altar chega aonde os dois não chegaram.
A origem: diga que o poema é português, de 1932, e que comboio é trem. Sem a tradução, parte da sala perde a imagem no último verso.
O corte: leia só esta estrofe. Lida sozinha, ela fala de amor; lida com as duas primeiras, fala de literatura.
O cuidado: não sorria em comboio de corda. A imagem já tem graça, e o sorriso de quem lê tira dela a ternura.
Na hora de ler
Faça uma pausa curta depois de razão, onde a vírgula pede. O último verso precisa chegar sozinho, com coração como a palavra final da leitura.
Olhe para os noivos ao dizer se chama. O verbo transforma a imagem num batismo, e o casal entende que o brinquedo é deles.
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