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O poeta de Sergipe que aprendeu alemão sozinho
Tobias Barreto estudou alemão com dicionário na vila de Escada e reuniu em Dias e Noites, de 1881, os versos escritos longe do Recife.
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Escada, Pernambuco: alemão à luz de vela
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Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. Gonçalves Dias escreveu os versos em Coimbra, em 1843, e a saudade deles explica o livro que o sergipano Tobias Barreto montou longe do Recife: Dias e Noites, de 1881.
Tobias Barreto de Meneses nasceu em 7 de junho de 1839 na Vila de Campos do Rio Real, no interior de Sergipe. Filho de um escrivão sem posses, estudou latim com um padre da região e já ensinava a língua antes dos vinte anos.
Em 1864 entrou na Faculdade de Direito do Recife. Ali ganhou fama de orador e de poeta de versos inflamados, recitados em teatro cheio, numa disputa aberta com o baiano Castro Alves pelo aplauso dos estudantes.
Formado, casou com a filha de um senhor de engenho e foi viver em Escada, vila da zona canavieira de Pernambuco, a poucas horas de trem da capital. Advogou e entrou na política local.
Na vila, sem professor e sem escola, aprendeu alemão sozinho. Encomendava gramáticas, dicionários e livros que chegavam pelo porto do Recife e subiam de trem até o engenho. Lia filósofos e poetas alemães no original.
Chegou a imprimir em Escada um jornal escrito inteiro em alemão, o Deutscher Kämpfer (o lutador alemão). Quase ninguém na vila entendia uma linha. Ele escrevia mesmo assim, para treinar a língua e para mostrar ao Recife que tinha aprendido.
Na mesma época, guardava os poemas. Os versos da juventude no Recife e os que escreveu nas noites da vila foram reunidos em 1881 num volume só. O título dividia a vida em duas metades: Dias e Noites.
No ano seguinte, Tobias voltou ao Recife aprovado em concurso para professor da Faculdade de Direito. O poema que abre esta leitura é do autor que ele mais leu em alemão nas noites de Escada, e é o mesmo que Gonçalves Dias pôs na porta da Canção do Exílio.
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I O Poema do Dia
O país dos limões
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Num sarau, a canção de Mignon, escrita por Johann Wolfgang von Goethe, é a melhor porta para apresentar Tobias Barreto: o poeta alemão que o sergipano mais leu, sozinho, sem nunca ter ouvido a língua na boca de um nativo.
A canção serve para abrir uma leitura porque pergunta ao ouvinte por um lugar que ele deseja e não vê, a mesma saudade que atravessa o livro de 1881.
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Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn, Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn, Ein sanfter Wind vom blauen Himmel weht, Die Myrte still und hoch der Lorbeer steht?
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Johann Wolfgang von Goethe, canção de Mignon, em Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, 1795.
Em prosa: conheces o país onde florescem os limões, onde as laranjas de ouro brilham na folhagem escura, onde um vento manso sopra do céu azul, e a murta fica quieta e o loureiro, alto?
Mignon é uma menina italiana levada para a Alemanha por artistas de estrada. Canta a terra perdida sem dizer o nome dela. O leitor descobre que é a Itália pelos limões, pela murta e pelo loureiro.
Gonçalves Dias pôs o primeiro verso dessa canção como epígrafe (a citação que abre um poema) da Canção do Exílio. A saudade brasileira mais famosa nasceu apoiada numa saudade alemã.
Tobias leu a mesma estrofe sem tradutor. Para chegar ao original, montou o próprio curso: gramática, dicionário e horas de leitura depois do expediente de advogado, à luz de lamparina.
O alemão dele foi língua de papel. Aprendido pelos olhos, com pouca chance de ouvir alguém falar, servia para ler Goethe e escrever artigos, e quase nunca para conversar.
Os colegas do Recife desconfiavam. Um bacharel de vila do interior dizendo ler Kant no original parecia exagero, e Tobias respondeu publicando artigos com citações em alemão, traduzidas por ele mesmo no pé da página.
Em Escada, a pergunta de Mignon virava ao avesso. Tobias morava entre canaviais e desejava um país de pinheiros e universidades que conhecia só pelos livros. Nunca atravessou o oceano para vê-lo.
Na hora de ler
Conte antes quem canta: uma menina estrangeira que já não lembra o caminho de casa.
Leia o alemão devagar e em seguida a versão em prosa. A sala ouve os limões antes de entender a frase.
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II Pra Ler no Altar
Tu és como uma flor
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Num casamento, poucos poemas curtos têm a delicadeza da canção de Heinrich Heine para a moça comparada a uma flor. Heine estava entre os poetas alemães que Tobias Barreto lia no original, na mesma mesa onde preparava o jornal da vila.
A estrofe serve ao altar porque olha para a pessoa amada e admite o medo de perdê-la, em quatro versos que cabem num cartão.
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Du bist wie eine Blume, So hold und schön und rein; Ich schau dich an, und Wehmut Schleicht mir ins Herz hinein.
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Heinrich Heine, O Livro das Canções, 1827.
Em prosa: tu és como uma flor, tão doce, bela e pura; eu te olho, e uma melancolia mansa me entra devagar no coração.
Wehmut (melancolia terna, tristeza misturada com carinho) é a palavra que segura a estrofe. Quem ama olha o rosto da outra pessoa e sente, junto com o amor, que o tempo passa por ela também.
Na segunda estrofe, o poeta põe as mãos sobre a cabeça da amada e pede a Deus que a conserve assim: pura, bela e doce. O pedido completa a melancolia do primeiro quarteto.
Tobias viveu a vida de casado em Escada por mais de dez anos. O casamento com a filha do senhor de engenho foi o motivo da mudança para a vila e o que o prendeu lá até o concurso de 1882.
Dias e Noites guarda poemas de amor desse período, escritos no intervalo entre o fórum da vila e os livros alemães. Os dias eram do trabalho; as noites, da leitura e do verso.
Muitos daqueles poemas tinham corrido antes em folhas avulsas e jornais de estudantes, recitados em festa e esquecidos no dia seguinte. O livro de 1881 juntou num volume o que andava espalhado, e salvou dos papéis soltos a parte que o autor quis guardar.
A origem: diga que o poema é de um alemão de 1827 e que um sergipano o leu no original, numa vila de canavial.
O corte: leia só a primeira estrofe. A segunda fala em rezar, e nem toda cerimônia quer oração dentro do poema.
A língua: se ninguém na sala fala alemão, leia primeiro a versão em prosa e depois o original, como assinatura.
O ritmo: os versos são curtos e rimam em cruz. Pede voz baixa, sem pressa, quase de conversa.
Na hora de ler
Faça pausa depois de rein. A segunda metade da estrofe muda o tom, da flor para o coração.
Olhe para os noivos no último verso. A melancolia fica mais leve quando dita para alguém presente.
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