|
|
O poema recitado vinte anos antes da Lei Áurea
Em 1868, um estudante de direito de vinte e um anos recitou O Navio Negreiro diante de uma plateia lotada em São Paulo.
|
São Paulo, 1868, a noite do poema no palco
|
| ▼ |
| |
|
Toda formatura de direito tem o mesmo instante. Alguém sobe ao microfone, respira e abre a fala com oito linhas sobre uma bandeira verde e amarela. A plateia reconhece o ritmo antes de reconhecer o autor, e quase ninguém sabe dizer de onde as linhas vieram.
A oitava começa em Auriverde pendão de minha terra e fecha um poema em seis partes, escrito em São Paulo em 1868 por um estudante de direito de vinte e um anos, recém-transferido do Recife.
O poema é O Navio Negreiro, tragédia no mar. Ele não saiu em livro enquanto o autor viveu. Circulou primeiro pela boca, em sessão de estudante, em sala de teatro e em reunião de sociedade abolicionista, com o próprio autor de pé diante da plateia.
São Paulo era então uma cidade de arcadas e repúblicas de estudante, com uma faculdade de direito no Largo São Francisco e uma casa de espetáculo de porte no centro. O público de uma noite dessas cabia num salão, e o salão inteiro saía repetindo o que tinha ouvido.
A Lei Áurea foi assinada em 13 de maio de 1888. Entre a noite em que aquele estudante recitou o poema em São Paulo e a data da assinatura existem vinte anos inteiros, e ele não alcançou nenhum dos dois: em 1871, aos vinte e quatro, já tinha saído de cena.
Quem usa a oitava hoje trata as oito linhas como abertura solene, em tom de hino cívico. O poema inteiro tem outro temperamento. As partes do meio descrevem o porão de um navio, e a oitava famosa é a conclusão de uma acusação, não um elogio à bandeira.
Há um detalhe que muda a leitura: o tráfico atlântico estava proibido no Brasil desde 1850. Quando o poema foi escrito, o navio da cena não cruzava mais o oceano havia dezoito anos, e o autor mirava o que tinha ficado em terra firme.
O que vem agora é a reconstrução daquela noite, a oitava completa na forma em que ela foi impressa, e as duas ocasiões em que essas linhas servem na sua boca.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I O Poema do Dia
São Paulo, 1868, escrito aos vinte e um
|
|
Um estudante de vinte e um anos, uma transferência de faculdade no meio do curso e um poema em seis partes que ninguém encomendou. Veja como a noite foi montada, e a oitava final completa, na forma em que chegou ao papel.
Antônio Frederico de Castro Alves nasceu em 14 de março de 1847, em Curralinho, no interior da Bahia, hoje cidade de Castro Alves. Era filho de médico, cresceu com livro dentro de casa e chegou a Salvador ainda menino.
Estudou no Ginásio Baiano, de Abílio César Borges, e escrevia verso antes dos quinze anos. Em 1864 entrou na Faculdade de Direito do Recife, onde a poesia de assunto público valia mais que a aula da manhã.
No Recife conheceu Eugênia Câmara, atriz portuguesa dos teatros da cidade, e passou a acompanhar companhia, ensaio e camarim de perto. A cena de palco entrou no ofício dele por convivência.
Em fevereiro de 1868 chegou ao Rio de Janeiro com uma carta de José de Alencar na mão. A carta o apresentou a Machado de Assis, que leu os originais e escreveu sobre ele na imprensa, com o nome inteiro e sem economia de elogio.
Ainda em 1868 desceu pra São Paulo e se matriculou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Nas mesmas arcadas passavam Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, os dois na casa dos vinte anos, os dois em cima do mesmo assunto.
Foi ali que o poema ficou pronto. São seis partes, e cada parte muda de metro: a primeira balança como mar aberto, a quarta encurta o verso e acelera a cena do porão, e a sexta desemboca em decassílabo de tribuna.
As oito linhas finais fecham a parte VI. Elas não descrevem o navio, elas se dirigem à bandeira do país, e é por causa desse endereço que a oitava sobrevive fora do poema.
|
Auriverde pendão de minha terra, Que a brisa do Brasil beija e balança, Estandarte que a luz do sol encerra, E as promessas divinas da esperança... Tu, que da liberdade após a guerra, Foste hasteado dos heróis na lança, Antes te houvessem roto na batalha, Que servires a um povo de mortalha!...
|
O Navio Negreiro, tragédia no mar, de Castro Alves, parte VI, escrito em São Paulo em 1868. O poema saiu em livro só em 1883, no volume Os Escravos, e o texto acima segue a grafia das edições modernas.
A oitava sozinha leva cerca de quarenta segundos em ritmo de cerimônia, com uma pausa depois de esperança e um respiro antes da última linha. O poema inteiro, das seis partes, passa dos dez minutos em voz alta.
A linha de apresentação cabe numa frase: Castro Alves, O Navio Negreiro, escrito em São Paulo em 1868, publicado no livro Os Escravos. Diga o nome, o título e o ano, espere um segundo e comece a ler.
|
|
|
|
|
II Pra Ler no Altar
A oitava que abre formatura até hoje
|
|
Uma estrofe vira abertura de cerimônia quando entrega, em oito linhas, a solenidade que o orador não consegue construir sozinho. A oitava de 1868 faz esse serviço há mais de um século, quase sempre sem o poema atrás dela.
|
Enquanto o autor viveu, saiu um livro só: Espumas Flutuantes, de 1870, que não traz O Navio Negreiro. O poema ficou guardado entre os textos de assunto público que ele reunia sob o título Os Escravos.
Os Escravos só foi impresso em 1883. Nos quinze anos entre a escrita e a impressão, o poema andou de cópia em cópia, em caderno de estudante e em manuscrito passado adiante, e principalmente de boca em boca.
O caminho explica a oitava. Um texto que circula pela voz perde o meio e guarda o fim, porque o fim é o que a plateia leva pra casa. A parte VI saiu na frente do poema pelo mesmo motivo que um refrão sai na frente da música.
Hoje as oito linhas abrem discurso de formatura, sessão solene de câmara e ato cívico de escola. Chegam sem título, sem ano e sem o nome do livro, apresentadas como patriotismo genérico.
A perda tem endereço. Some a parte IV, que desce ao porão do navio, e some a parte V, que interpela e pede que o mar apague a cena. Sem elas, a bandeira da oitava vira enfeite de abertura.
Quem lê as seis partes encontra outro texto. As duas últimas linhas não elogiam o pavilhão: preferem ver a bandeira rasgada em batalha a vê-la cobrindo o que o navio levava. A oitava é uma cobrança em forma de hino.
No altar
Esta oitava não sobe ao altar de casamento. Ela trata de bandeira, de país e de dívida coletiva, e uma sala em festa não tem onde encaixar uma cobrança dirigida a uma nação inteira.
A ocasião dela é a cerimônia cívica: formatura, posse, entrega de comenda, abertura de sessão solene, homenagem em treze de maio ou em vinte de novembro. Toda ocasião em que a sala espera um começo de peso.
Comece em Auriverde pendão de minha terra e termine em que servires a um povo de mortalha. São as oito linhas inteiras, cerca de quarenta segundos, e a sala reconhece o ritmo já no segundo verso.
Antes de ler, diga uma frase de contexto: o poema é de 1868 e a lei que ele cobrava chegou em 1888. A oitava muda de tamanho quando a plateia sabe que o autor escreveu com vinte anos de antecedência.
Um trecho fica de fora de qualquer palco de festa: os versos do porão, na parte IV. Eles descrevem a crueldade em detalhe, e uma plateia de formatura ouve a descrição, não o poema.
|
|
|