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ED 026

O poema que ele escreveu na areia e levou de cor

Refém dos tamoios em Iperoig, no ano de 1563, ele compôs quase seis mil versos latinos sem ter à mão um pedaço de papel.

Praia de Iperoig ao amanhecer, versos traçados com um graveto na faixa de areia molhada.

Iperoig, o verso escrito na areia molhada

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Em 1563, a costa entre São Vicente e a baía da Guanabara vivia em guerra aberta. As aldeias tamoias, aliadas dos franceses instalados no Rio, apertavam o cerco sobre os povoados portugueses do planalto, e a vila de Piratininga esperava o ataque que resolveria a disputa de uma vez.

A saída que os jesuítas propuseram não tinha nada de militar. Dois padres desceram a serra e entraram na aldeia de Iperoig, no litoral do que hoje é Ubatuba, para tratar a paz com os chefes tamoios em pessoa, no meio da gente que planejava o ataque.

O acordo pedia uma garantia, e a garantia era um corpo. Manuel da Nóbrega voltou a São Vicente para costurar o lado português do trato, e o companheiro mais novo ficou na aldeia, sozinho, como refém, à disposição de quem decidisse desfazer a negociação numa tarde de conversa. Ele tinha vinte e nove anos e ficou ali cerca de cinco meses.

Um refém tem tempo de sobra e não tem material nenhum. Não havia papel na aldeia, não havia tinta, não havia mesa, e o único ofício que aquele homem levava consigo, além de rezar e de conversar, era escrever. Ele havia feito uma promessa à Virgem e pretendia cumprir a promessa em verso latino, na medida mais difícil da escola em que se formou.

O que saiu dali é um poema de quase seis mil versos, composto inteiro sem uma folha por perto e passado ao papel meses depois, longe da praia, quando já estava a salvo. A pergunta que interessa a quem escreve é bem prática: como um texto desse tamanho fica de pé dentro de uma cabeça, sem nenhum rascunho para conferir de manhã?

A resposta está na rotina que ele repetiu todo dia na beira d'água, e a rotina tem partes que qualquer pessoa consegue usar hoje.

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I  O Poema do Dia

A maré apagava o verso todo fim de tarde

A aldeia ficava colada na água, e a praia era a única superfície plana e limpa ao alcance da mão. De manhã, com um graveto, ele traçava os versos do dia na faixa de areia molhada que a maré tinha acabado de alisar para ele, larga como uma mesa de trabalho.

Escrito o trecho, começava a segunda parte do serviço. Ele andava de um lado para o outro repetindo os versos em voz alta, corrigindo o que emperrava, até a sequência entrar inteira na memória. No fim da tarde a água subia, passava por cima da linha de escrita e devolvia a página em branco para o dia seguinte.

A medida do verso não era enfeite de colégio: o hexâmetro tem um número fixo de tempos, e verso trocado sai do compasso, de modo que a cabeça percebe o erro antes mesmo de lembrar a palavra certa. A métrica funcionava como trava de conferência num lugar onde não havia nada para reler.

O total chegou a quase seis mil versos em latim, todos dedicados à mãe de Cristo. Só meses depois, de volta ao convívio dos seus, ele passou a obra inteira para a tinta, recitando de memória o que a maré havia levado embora todo dia.

Uma observação de honestidade antes do verso. O poema latino só circula em português por traduções feitas no século vinte, e quem traduz é dono do próprio trabalho, então aqui entra a fonte latina que a promessa dele responde, com a paráfrase em prosa ao lado.

Ave, maris stella,
Dei Mater alma,
atque semper Virgo,
felix caeli porta.

Hino Ave maris stella, autor anônimo, século IX, primeira estrofe.

Em prosa direta: salve, estrela do mar; mãe que alimenta a Deus; e sempre virgem; porta feliz do céu. Quatro chamados curtos, um atrás do outro, sem verbo de ligação e sem explicação nenhuma no meio.

Repare na imagem que abre o hino. Estrela do mar é instrumento de navegação antes de ser elogio, o ponto fixo que o piloto procura quando a costa some, e um homem preso à beira d'água tinha motivo de sobra para se apoiar na figura.

Repare também no tamanho das linhas. São quatro frases nominais que cabem num fôlego cada, e a brevidade é justamente o que permite decorar a estrofe na primeira leitura em voz alta, sem esforço de estudo.

Na hora de ler

Leia o latim devagar, sílaba por sílaba. Ninguém precisa entender a língua para ouvir a batida, e a batida é metade do que o texto entrega.

Diga a paráfrase em prosa logo depois, uma vez só. A tradução linha a linha rouba o tempo da sala e não acrescenta nada ao que a imagem já disse.

Diga a ficha em uma frase. Primeira estrofe do hino Ave maris stella, anônimo, século IX.

 
 

II  Pra Ler no Altar

O soneto que faz o amante virar o amado

Numa cerimônia de casamento, o texto lido em voz alta tem uma função estranha. Ele precisa dizer, em poucos segundos, o que duas pessoas estão prometendo, sem descrever o casal e sem contar a história do namoro para uma sala que já conhece a história.

O soneto que Camões abre com a transformação do amante resolve a tarefa porque descreve o mecanismo do afeto, e não o casal: quem ama passa a carregar dentro de si a pessoa amada, e a distância entre os dois deixa de existir. A frase serve para qualquer par de pessoas na frente do altar.

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Luís de Camões, primeira estrofe do soneto Transforma-se o amador na cousa amada, publicado nas Rimas de 1595.

O primeiro verso entrega a tese sem rodeio. O amador vira a cousa amada, com a grafia antiga que o poeta usava, e o verbo transformar aparece logo na abertura, no lugar de maior peso da estrofe.

O segundo verso explica o método e é a parte que costuma passar despercebida. Por virtude do muito imaginar quer dizer que a transformação vem da repetição, do pensar sem parar na mesma pessoa, um trabalho de memória parecido com o do padre que repetia versos na praia até fixá-los.

Os dois últimos versos fecham a conta. Não tenho logo mais que desejar, pois em mim tenho a parte desejada é a definição mais econômica de companhia que a língua portuguesa produziu: a falta acaba porque o outro já mora dentro.

A origem: conte que o soneto saiu nas Rimas de 1595, volume publicado quinze anos depois da partida do autor, na mesma década em que um jesuíta guardava seis mil versos de cor do outro lado do Atlântico.

O corte: com pouco tempo, leia apenas os dois primeiros versos, que já contêm a tese inteira. Com espaço, leia a estrofe completa, e a leitura ganha a virada dos dois últimos versos, que transformam a teoria em alívio.

A virada: depois dos versos, uma frase de ligação resolve a passagem. Algo como: é a promessa que estamos ouvindo aqui, duas pessoas dizendo que já carregam uma à outra por dentro.

Um cuidado com o vocabulário antigo. Cousa é a grafia do século dezesseis, e amador ali quer dizer aquele que ama, sem nenhuma relação com o sentido esportivo de hoje.

Na hora de ler

Não corra no primeiro verso. Ele é o que a sala vai levar para casa, e a pressa transforma a tese num anúncio.

Baixe o volume nos dois últimos versos. A conclusão é íntima, quase murmurada, e o tom de proclamação estraga a intimidade que o texto pede.

Diga a ficha em uma frase. Primeira estrofe de um soneto de Luís de Camões, das Rimas de 1595.

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III  Pra Dizer Adeus

A escada estreita que se desce a passo e passo

Numa despedida, o texto mais difícil de acertar é o que tenta consolar. A família na sala já sabe o tamanho da perda, e a leitura que promete alívio rápido soa como pressa de quem quer encerrar o assunto antes da hora.

Os quatro primeiros versos do soneto de Antero de Quental funcionam porque descrevem uma descida lenta, e não uma consolação: alguém desce uma escada estreita, degrau por degrau, e só no fim encontra onde descansar. O movimento é o que a sala reconhece.

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Antero de Quental, primeira estrofe do soneto Na mão de Deus, dos Sonetos Completos de 1886.

O primeiro verso repete a mão de propósito. A repetição imita o gesto de quem confere duas vezes onde está pousando o peso, e a segunda menção acrescenta o lado direito, que na tradição bíblica marca o lugar de honra.

O verbo do segundo verso é o achado do trecho. Descansou afinal traz o alívio de quem carregou algo por tempo demais, e o advérbio afinal carrega sozinho a duração inteira do cansaço, sem precisar nomear nenhuma doença nem nenhum episódio.

Os dois últimos versos dão o movimento que a leitura precisa. Descer a passo e passo uma escada estreita é a imagem de uma saída lenta e sem espetáculo, e o palácio encantado da Ilusão fica para trás sem que o poeta gaste uma linha lamentando a perda dele.

O trecho: para falar em voz alta, use os quatro versos inteiros, que levam cerca de quinze segundos. Para o cartão das flores, use apenas os dois primeiros, que sustentam a frase sozinhos.

A linha de apresentação: diga o nome do autor e o ano do livro, nada além. O soneto é conhecido, e a explicação longa antes da leitura tira da família o primeiro contato com os versos.

A palavra que não se troca: estreita. Larga não serve, longa não serve, porque a estreiteza é o que impede a passagem de duas pessoas ao mesmo tempo e diz, sem dizer, que o caminho final se faz sozinho.

Um cuidado antes de escolher o trecho. A estrofe fala em Deus com todas as letras, e vale confirmar com a família se a menção cabe na cerimônia. Quando não couber, a imagem da escada sobrevive numa apresentação em prosa, dita com as suas palavras.

E vale guardar o que costura as três leituras de hoje. O homem que ficou cinco meses de refém em Iperoig não tinha papel, não tinha certeza de voltar e mesmo assim compôs quase seis mil versos na areia, confiando a obra inteira ao único lugar que a maré não alcança.

“Que texto você seria capaz de carregar inteiro na cabeça, se a maré apagasse a página todo fim de tarde?”

 
 
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