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O poema que Álvares de Azevedo deixou aos vinte anos
Em abril de 1852, aos vinte anos, ele deixou doze estrofes de despedida, e o livro que as guardava só saiu no ano seguinte, montado por um amigo.
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Rio de Janeiro, 1852, a Lira dos Vinte Anos
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Às cinco da tarde de 25 de abril de 1852, numa casa do Rio de Janeiro, um estudante de direito de vinte anos parou de respirar. Ele faria vinte e um em setembro.
Quarenta dias antes, no caminho entre Visconde e Porto das Caixas, perto de Itaboraí, ele tinha caído do cavalo. A queda virou um tumor na fossa ilíaca, a tentativa de retirar o tumor virou infecção, e a febre não cedeu mais.
O enterro foi no dia seguinte, num cemitério da Praia Vermelha, na zona sul do Rio. O mar acabou levando aquele cemitério, e os restos do rapaz foram parar no São João Batista, aberto em 1854, onde o livro de registros o marca como o décimo segundo sepultamento da casa.
Enquanto o corpo mudava de endereço, a obra ficou parada. Em vida ele tinha publicado poemas avulsos, artigos e discursos, e nenhum livro.
A Lira dos Vinte Anos, o único volume que ele mesmo chegou a organizar, saiu em 1853, no Rio de Janeiro, pela Tipografia Americana, dentro das Obras reunidas do poeta. Quem levou os originais ao prelo foi um amigo, Domingos Jacy Monteiro.
Naquela primeira edição a Lira apareceu em duas partes, sem os dois prefácios em que o autor explicava o próprio livro. A medalha de duas faces que ele desenhou chegou ao leitor com uma face a menos.
Na primeira parte está Lembrança de Morrer, doze quartetos ditos por quem já se considera de saída.
São doze estrofes de decassílabos, e a única linha fora do desenho é a quarta da primeira estrofe, um hexassílabo que corta a estrofe antes da hora. No alto da página vem uma epígrafe em inglês tirada de Shelley: No more! O never more!
O poema tem três trechos que servem a três salas diferentes, e trocar um pelo outro estraga a leitura inteira.
A seguir vêm o rapaz que escreveu tudo, a república de estudantes onde ele morava em São Paulo e as quatro estrofes centrais do poema, com as palavras que pedem tradução antes de qualquer leitura em voz alta.
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I O Poema do Dia
A república de estudantes chamada Casa de Satã
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Um menino levado para o Rio aos dois anos, uma volta sozinho a São Paulo aos dezessete e doze quartetos escritos na cama. Veja quem ele foi e as estrofes centrais do poema.
Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo em 12 de setembro de 1831, na casa do avô materno, e foi levado para o Rio de Janeiro aos dois anos.
No Rio ele fez o primário e o secundário. Em 1848, aos dezessete, voltou sozinho para São Paulo e se matriculou na Escola de Direito do Largo de São Francisco.
Em São Paulo ele fundou duas coisas de naturezas opostas. Uma foi a Revista Mensal da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano, publicação séria de estudantes.
A outra foi a Sociedade Epicureia, república apelidada de Casa de Satã, onde um grupo de rapazes tentava viver como imaginava que Byron tinha vivido. Bernardo Guimarães, amigo dele e morador da república, contou depois que as reuniões passavam da conta.
Nas férias de 1851 para 1852 ele desceu para a casa da família, no Rio, e não voltou mais para a faculdade.
Lembrança de Morrer está na primeira parte da Lira, a parte que ele associou a Ariel, o espírito leve de A Tempestade, de Shakespeare.
As quatro estrofes do meio são o coração do poema. Nelas ele diz o que leva consigo e para quem olha antes de sair.
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Eu deixo a vida como deixa o tédio Do deserto o poento caminheiro... Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro... Como o desterro de minh'alma errante, Onde fogo insensato a consumia, Só levo uma saudade, é desses tempos Que amorosa ilusão embelecia. Só levo uma saudade, e dessas sombras Que eu sentia velar nas noites minhas... E de ti, ó minha mãe! pobre coitada Que por minhas tristezas te definhas! De meu pai... de meus únicos amigos, Poucos, bem poucos! e que não zombavam Quando, em noites de febre endoudecido, Minhas pálidas crenças duvidavam.
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Álvares de Azevedo, quatro estrofes de Lembrança de Morrer, na Lira dos Vinte Anos, dentro das Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo, Rio de Janeiro, 1853.
No original, três dessas linhas trazem travessão onde aqui está vírgula. Nenhuma palavra mudou de lugar.
Cinco palavras pedem tradução na hora de ler. Poento é coberto de poeira; caminheiro é quem anda a pé por ofício; dobre é o toque repetido do sino que anuncia um enterro; desterro é o exílio; endoudecido é a grafia antiga de enlouquecido.
Em voz alta, as quatro estrofes levam cerca de cinquenta segundos. As reticências mandam no ritmo: são quatro, e cada uma pede uma pausa maior que a da vírgula.
No enterro, quem leu em voz alta não foi este poema. Joaquim Manuel de Macedo, o autor de A Moreninha, leu o último texto que o rapaz escreveu de cama, Se Eu Morresse Amanhã.
A linha de apresentação cabe numa frase: Álvares de Azevedo, Lembrança de Morrer, do livro Lira dos Vinte Anos, de 1853. Diga o nome, o livro e o ano, espere um segundo e comece.
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II Pra Ler no Altar
As oito linhas que terminam numa promessa
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Duas estrofes seguidas do poema falam de uma pessoa só e fecham num verbo no futuro. São oito linhas, quarenta segundos de leitura, e nenhuma delas fala de despedida.
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A ocasião é a celebração de um amor que já tem passado: renovação de votos, bodas de prata, bodas de ouro, casamento de gente que namorou anos, homenagem a um casal na festa da família.
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Ó tu, que à mocidade sonhadora Do pálido poeta deste flores... Se vivi... foi por ti! e de esperança De na vida gozar de teus amores. Beijarei a verdade santa e nua, Verei cristalizar-se o sonho amigo... Ó minha virgem dos errantes sonhos, Filha do céu! eu vou amar contigo!
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Álvares de Azevedo, duas estrofes de Lembrança de Morrer, na Lira dos Vinte Anos, Rio de Janeiro, 1853.
Duas expressões carregam as oito linhas. Deste flores quer dizer, simplesmente, deu flores, no passado. Cristalizar-se o sonho amigo é o sonho virando coisa sólida, que a mão pega.
O último verso fecha em promessa. Eu vou amar contigo não é declaração de amor a uma pessoa, é convite para amar junto, lado a lado, olhando na mesma direção.
Onde parar: em amar contigo. É a última linha da segunda estrofe, e o verso seguinte já muda de assunto, porque abre a estrofe do epitáfio.
Na hora de ler
O tempo verbal pede uma frase antes. Se vivi está no passado, e numa cerimônia de gente muito jovem a linha soa fora de hora.
Resolva em prosa, antes de ler: nestes oito versos fala quem olha para trás e diz que a vida inteira teve um motivo só.
Não troque palavra do original para encaixar o nome dos homenageados. A troca quebra o decassílabo e entrega o truque na hora.
Oito versos levam cerca de quarenta segundos. Respire nas reticências, que são três, e não corra para o verso seguinte.
E não leia o poema inteiro numa festa. O texto todo é uma despedida, e a sala entende a mudança de cena já na primeira estrofe.
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