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O poema de saudade escrito num balcão de comércio em Lisboa
Um rapaz de dezoito anos, mandado pelo pai para o comércio português, transformou a lembrança do quintal na rima mais decorada do país.
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Lisboa, 1856, a saudade vira verso
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Em 1853, um rapaz de quinze anos desembarcou em Lisboa com uma carta de recomendação e uma vaga de aprendiz numa casa de comércio. O pai, comerciante da Barra de São João, no litoral fluminense, tinha decidido que o filho aprenderia escrituração portuguesa e voltaria homem de negócios.
O rapaz se chamava Casimiro. Passava o dia entre livros de caixa, fardos e recibos, num escritório de porto que cheirava a papel, sal e estopa.
O trabalho ia mal. Ele errava contas, atrasava lançamentos e escrevia cartas pedindo ao pai a passagem de volta, que o pai não mandava.
O que ele fez com o tempo que sobrava não estava no plano de ninguém. Frequentou a roda literária portuguesa, publicou versos em jornal e chegou a ver uma peça sua encenada num teatro de Lisboa antes de completar vinte anos.
Foi nesse escritório que ele escreveu um poema sobre a própria infância. O texto não descreve Lisboa nenhuma. Descreve bananeiras, laranjais, tardes compridas e a voz da mãe, tudo enxergado do outro lado do oceano.
A casa de comércio não deu certo em nenhum sentido. O pai acabou chamando o filho de volta por carta, e o aprendiz reprovado desembarcou no Rio sem carreira de guarda-livros e com um caderno de versos debaixo do braço.
Em 1857 ele voltou ao Brasil. Dois anos depois reuniu a obra num volume só, As Primaveras, publicado no Rio de Janeiro em 1859, com o poema da infância no meio.
O livro tinha um ano de vida quando a tuberculose levou o autor, aos vinte e um anos, na mesma vila fluminense de onde ele havia partido menino.
O que vem agora são três leituras de um único poema desse livro. Primeiro a mecânica que fez essas oito linhas ficarem na boca do país inteiro, depois a estrofe que serve numa cerimônia de casamento, e por fim os versos para uma despedida.
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I O Poema do Dia
A saudade que cabe em sete sílabas
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Meus oito anos é escrito em redondilha maior, o verso de sete sílabas das cantigas de roda, das quadras de festa e do cordel. É a batida que a criança brasileira aprende de ouvido, muito antes de saber que existe métrica.
A escolha do metro é o truque inteiro do poema: um texto sobre infância dito no mesmo ritmo em que a infância canta. Quem escuta não precisa estudar nada para acompanhar, e por isso decora sem querer.
A abertura não descreve cenário. Começa por uma interjeição de falta, e só depois deixa o quintal aparecer, como quem lembra na ordem em que a lembrança chega.
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Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fecundas À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais!
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Casimiro de Abreu, Meus oito anos, primeira estrofe, no livro As Primaveras, Rio de Janeiro, 1859.
Repare na progressão das quatro primeiras linhas. Aurora, vida, infância, anos: o poeta vai apertando o foco de uma palavra grande até a conta exata do tempo perdido.
Só então entram as coisas concretas. Amor, sonhos e flores são abstrações que qualquer poeta usaria, e o verso poderia morrer ali de tão genérico.
O que salva a estrofe são as duas últimas linhas. Bananeira e laranjal não são plantas decorativas de poema europeu, são o fundo do quintal de uma casa do litoral fluminense.
É a diferença entre lembrar e nomear. O poeta escreve do escritório de Lisboa, cercado de pedra e neblina, e a única coisa que ele coloca no papel é a sombra de uma folha larga.
Quase todo mundo recita a sétima linha errado, dizendo à sombra das laranjeiras. O livro traz bananeiras, e os laranjais só chegam na linha seguinte.
A troca vem de um século de repetição oral e de paródia escolar. Vale conferir a página antes de ler em público.
Na hora de ler
Não arraste a voz. O poema já é lamento no conteúdo, e voz arrastada em cima de texto triste vira choro de novela.
Marque a exclamação da quarta linha e pare. É ali que a estrofe divide o que se perdeu do que se lembra, e a pausa segura a plateia para a segunda metade.
Diga as três abstrações em bloco. Amor, sonhos e flores formam um fôlego só, e pausa igual entre elas transforma a linha em lista de compras.
Baixe o volume nas duas últimas linhas. As árvores são o fecho, e fecho dito baixo obriga a sala a chegar mais perto.
Diga a ficha antes de começar. Uma frase resolve: Casimiro de Abreu, poema Meus oito anos, do livro As Primaveras, de 1859.
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II Pra Ler no Altar
A estrofe que junta as duas infâncias
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Existe um tipo de casamento em que o texto de amor eterno soa deslocado: aquele em que os noivos se conhecem desde crianças, ou em que as duas famílias cresceram na mesma rua e a cerimônia é também um reencontro de quintal.
A segunda estrofe do poema não fala de casamento nenhum, e é exatamente por isso que funciona no altar: ela fala do começo de tudo, no registro que a sala já conhece de cor. O reconhecimento faz o trabalho que a promessa solene não faz.
O trecho troca a lamentação da abertura por uma sequência de imagens do mundo visto por olhos novos, e cada linha entrega uma comparação inteira.
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Como são belos os dias Do despontar da existência! Respira a alma inocência Como perfumes a flor; O mar é lago sereno, O céu um manto azulado, O mundo um sonho dourado, A vida um hino d’amor!
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Casimiro de Abreu, Meus oito anos, segunda estrofe, no livro As Primaveras, Rio de Janeiro, 1859.
As quatro últimas linhas são quatro definições em fila: mar, céu, mundo e vida, cada um resolvido em três palavras. É a construção mais simples que existe, e ela sustenta a estrofe sozinha.
Numa cerimônia, essa fila vira um brinde pronto. O texto diz que o começo é bonito sem prometer nada sobre o resto, e casal nenhum precisa carregar promessa no altar.
Serve bem quando alguém da família lê antes da entrada dos noivos: prepara a sala sem roubar a cena de quem vai entrar.
A troca do nome: não personalize o verso. A redondilha tem sete sílabas fechadas, e encaixar o nome dos noivos derruba a batida na hora. Diga os nomes na apresentação, antes da primeira linha.
O corte: se a cerimônia é curta, comece em o mar é lago sereno e leve até o fim. As quatro linhas finais funcionam sozinhas e cabem em quinze segundos.
Na hora de ler
Avise que o poema é sobre infância. Uma frase basta: o próximo texto é de 1859 e fala do começo da vida, não do fim dela.
Suba um degrau de volume a cada definição. Mar, céu, mundo e vida formam uma escada, e ler as quatro no mesmo tom apaga o desenho.
Pronuncie hino d amor sem engolir a elisão. O apóstrofo está no livro para caber na métrica, e dizer hino de amor estica o verso e trava a leitura.
Segure meio segundo antes da última linha. É o remate da estrofe, e remate colado no verso anterior passa despercebido.
Diga quem assina e de quando é. Uma frase resolve: Casimiro de Abreu, poema Meus oito anos, do livro As Primaveras, de 1859.
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III Pra Dizer Adeus
Os versos que devolvem a manhã de quem partiu
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A despedida mais difícil de escrever é a de alguém que se foi cedo, antes do tempo que a família tinha imaginado. Os textos de conforto costumam falar em descanso, e descanso é palavra que não cabe numa vida interrompida no meio.
Existe uma alternativa: em vez de tratar do fim, devolver à sala a imagem do começo daquela pessoa. Para uma homenagem assim, a última estrofe do poema serve melhor que qualquer oração escrita para a ocasião.
O autor tinha vinte e um anos quando a tuberculose o alcançou, e o poema mais lido dele é justamente o de um rapaz olhando para trás como se já fosse velho. Quem lê o trecho num velório lê as palavras de alguém que também teve pouco tempo.
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Oh! dias da minha infância! Oh! meu céu de primavera! Que doce a vida não era Nessa risonha manhã! Em vez das mágoas de agora, Eu tinha nessas delícias De minha mãe as carícias E beijos de minha irmã!
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Casimiro de Abreu, Meus oito anos, estrofe final, no livro As Primaveras, Rio de Janeiro, 1859.
O que faz o trecho funcionar numa despedida é a virada da quinta linha. Até ali o poema é lembrança pura, e de repente ele nomeia a dor do presente sem descrever a dor.
As duas últimas linhas resolvem o resto. Elas trocam ideia por gesto, e gesto é o que a família consegue reconhecer: a mão da mãe, o beijo da irmã, uma cena que cada pessoa da sala completa com a própria memória.
Por isso o trecho cai bem quando quem se foi era a mãe ou a irmã de alguém presente. Ler os versos nesse caso é dizer o nome de um afeto específico sem obrigar a família a ouvir elogio genérico.
O trecho: para falar em voz alta, use a estrofe inteira, que leva menos de trinta segundos. Para o cartão que acompanha as flores, use apenas as duas primeiras linhas.
A linha de apresentação: diga quem assina e de quando é. Uma frase resolve: Casimiro de Abreu, poema Meus oito anos, do livro As Primaveras, de 1859.
A palavra que não se troca: mágoas. Está ali para marcar que a dor é de quem ficou, e substituir por saudades apaga a diferença entre a falta e o peso.
Um cuidado com a sala. O texto fala de mãe e de irmã pelo nome do parentesco, e numa família em que essas pessoas estão presentes vale avisar antes, em uma linha, que o poema é do próprio autor sobre a infância dele.
Vale ler a estrofe final logo depois da primeira quando a homenagem for para alguém que passou a vida longe da terra natal. A primeira dá o quintal, a última dá a falta, e juntas levam pouco mais de um minuto.
E vale guardar o dado que costura a leitura. O poema foi escrito por um rapaz de dezoito anos num escritório de porto a seis mil quilômetros de casa, e ele nunca chegou a envelhecer para conferir se a saudade era mesmo daquele tamanho.
“Que canto da sua infância você ainda recita de cor?”
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Guia Poesia do Dia · Novo
A Fôrma do Poema
O método de imitação que faz quem nunca escreveu terminar o primeiro poema em 40 minutos.
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Quiz da edição
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No livro As Primaveras, a sétima linha de Meus oito anos diz 'à sombra das' o quê?
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