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O poema de guerra que largou a rima
Basílio da Gama publicou O Uraguai em Lisboa, em 1769, todo em verso branco, e caiu nas graças do ministro que mandava no reino.
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Lisboa, 1769: O Uraguai sai da oficina régia
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Serás lido, Uraguai. José Basílio da Gama pôs essa promessa perto do último verso de O Uraguai, poema publicado em Lisboa em 1769, e ela resolve hoje a dúvida de quem acha que poesia só vale com rima: a frase não rima com nada e fica no ouvido.
Basílio nasceu em 1741 em São José do Rio das Mortes, arraial de Minas Gerais que hoje se chama Tiradentes. Estudou no colégio dos jesuítas do Rio de Janeiro e era noviço da Companhia de Jesus quando o governo de Lisboa expulsou a ordem do Brasil, em 1759.
Seguiu para Roma e entrou na Arcádia Romana, academia de poetas que imitava a vida simples dos pastores gregos, e lá assinava Termindo Sipílio. Ali leu os italianos que escreviam em versi sciolti (versos soltos, sem rima).
Em 1768 desembarcou em Lisboa e foi preso como suspeito de simpatia pelos jesuítas. A pena prevista era o degredo (exílio forçado) em Angola.
Escapou com um epitalâmio (poema de casamento) para as bodas da filha de Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro Marquês de Pombal, ministro que governava o reino na prática. Pombal gostou dos versos, e o degredo caiu.
No ano seguinte saiu O Uraguai, pela Régia Oficina Tipográfica. Cinco cantos (partes do poema) contam a guerra guaranítica, a luta de 1754 a 1756 entre os exércitos de Portugal e Espanha e os guaranis das missões jesuíticas do sul, que se recusaram a deixar suas aldeias depois do Tratado de Madri, assinado em 1750.
O poema pinta os padres como vilões e o general Gomes Freire de Andrada como herói. Era a versão da guerra que o ministro queria ver impressa, e o livro saiu dedicado ao irmão dele, Francisco Xavier de Mendonça Furtado.
E nenhum verso rima. A epopeia portuguesa tinha o molde de Os Lusíadas, de Camões, escrito em oitavas rimadas, e Basílio escolheu o decassílabo branco (verso de dez sílabas, sem rima).
A primeira parada é a abertura do poema, onde a falta de rima se ouve já na quarta linha.
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I O Poema do Dia
A praia que ainda fumega
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Num sarau, poema épico assusta: a sala espera rima marcada e batida de tambor. A abertura de O Uraguai chega sem rima e prende pela imagem.
O começo de O Uraguai serve para abrir uma leitura porque a frase corre por quatro versos sem parar para rimar. Quem escuta segue a cena, e a cena é forte.
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Fumam ainda nas desertas praias Lagos de sangue tépidos e impuros Em que ondeiam cadáveres despidos, Pasto de corvos. Dura inda nos vales O rouco som da irada artilharia.
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José Basílio da Gama, O Uraguai, Canto I, Lisboa, 1769.
Tépido quer dizer morno. O sangue ainda está quente: o poema começa depois da batalha, com a fumaça subindo, e deixa a luta para contar nos versos seguintes.
Repare na quarta linha. Pasto de corvos acaba no meio do verso, e a frase nova começa ali mesmo. Esse corte se chama encadeamento (a frase passa de um verso para o seguinte sem pausa), e num poema rimado ele tropeça, porque o ouvido espera o som repetido na última sílaba.
Sem rima, o fim do verso vira só respiração. Quem lê vai pelo sentido, quase como em prosa, e a métrica de dez sílabas segura o ritmo por baixo.
Por que Basílio largou a rima? Ele não deixou carta nem prefácio explicando a escolha, e os estudiosos só podem apontar o que ele tinha lido. Em Roma, os árcades italianos escreviam em verso solto; na Inglaterra, John Milton publicara Paraíso Perdido em 1667, também sem rima.
A outra pista é a sombra de Camões. Com oitava rimada, todo poema épico em português soava como Os Lusíadas. O verso branco livrou O Uraguai da comparação e deu à guerra do sul uma voz própria.
Inda é a forma antiga de ainda, e Dura inda nos vales quer dizer que o som dos canhões continua ecoando nos vales. O poeta ouve a guerra depois dela, como quem chega tarde ao campo.
Corvos e canhões vêm de propósito na frente. Basílio mostra o custo da guerra antes de apresentar os generais, e o leitor de 1769 entrava no livro pelo estrago, com os heróis ainda fora da cena.
Na hora de ler
Conte em duas frases de onde vem o poema: um mineiro, uma guerra no sul, um livro de 1769 sem rima. A sala precisa desse aviso para não esperar o eco.
Leia pela pontuação, nunca pela quebra do verso. Onde o verso quebra e a vírgula não aparece, siga reto até a próxima pausa.
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II Pra Ler no Altar
A luz que fica para o outro
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Num casamento, a promessa mais difícil é a que admite o fim: um dia um dos dois vai embora. O último trecho de O Uraguai faz essa promessa sem assustar a igreja.
Os versos finais servem ao altar porque o poeta aceita a própria noite e pede luz inteira para quem fica. Cabem num cartão de três linhas.
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Serás lido, Uraguai. Cubra os meus olhos Embora um dia a escura noite eterna. Tu vive e goza a luz serena e pura.
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José Basílio da Gama, O Uraguai, Canto V, Lisboa, 1769.
No poema, Basílio fala com o próprio livro. Cubra os meus olhos embora um dia a escura noite eterna quer dizer: mesmo que a noite sem fim me feche os olhos. O livro fica e continua a ser lido.
Tu vive é imperativo (a forma do verbo que pede ou manda) na gramática da época; hoje diríamos vive tu. Goza tem o sentido velho de aproveitar, desfrutar.
A promessa pesava em 1769. Basílio tinha escapado do degredo pouco antes, graças a um poema, e sabia que o favor de um ministro acaba.
Acabou mesmo. Pombal caiu em 1777, com a morte do rei José I, e perdeu o poder. O Uraguai seguiu sendo reimpresso e chegou às escolas do Brasil, onde é lido até hoje.
No altar, o verso muda de destinatário. Quem lê é um dos noivos, e o tu passa a ser o outro: se a minha noite chegar primeiro, você segue na luz.
A origem: diga que o verso fecha um poema de guerra de 1769 e que o poeta fala com o próprio livro. A cena dá peso ao tu.
O corte: leia só os três versos. O resto do canto trata de generais e de tratados, e pede um contexto que a cerimônia não tem.
O cuidado: mantenha noite eterna. A imagem suaviza a ideia do fim, e a igreja aguenta ouvir.
O ritmo: os três versos têm dez sílabas cada um, e a falta de rima deixa a frase respirar no ponto final. Ninguém na plateia vai sentir falta do eco.
Na hora de ler
Troque Uraguai pelo nome de quem casa com você. Serás lido vira uma promessa de atenção: vou continuar a ler você.
Olhe para o outro no último verso. Ele é o único no presente, e pede a voz mais firme das três linhas.
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