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O menino vendido pelo pai que aprendeu a ler aos dezessete
Em 1859, um ex-escravizado assinou Getulino num livro de versos e devolveu à elite paulista o apelido que ela usava para ofender.
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São Paulo, 1859, o insulto vira verso
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Em 1840, um menino de dez anos foi levado ao porto de Salvador e embarcado com destino ao sul. Quem tratou da venda foi o próprio pai, um fidalgo português com dívidas de jogo, que resolveu o rombo entregando o filho a um traficante.
O menino se chamava Luís e tinha nascido livre. A mãe era africana forra, e pela lei da época a condição da mãe passava para o filho. O papel que provava a liberdade dele existia em algum lugar, mas o menino não sabia ler uma linha.
Vendido de novo em Santos, foi parar numa casa de família em São Paulo, onde serviu por anos como escravo doméstico sem que ninguém contestasse a origem daquela posse. A vida inteira dele passou a depender de uma prova escrita que ele não conseguia decifrar.
A virada veio aos dezessete anos. Um estudante de direito hospedado na mesma casa ensinou o rapaz a ler e a escrever. Com as letras na mão, ele juntou testemunhos, montou a própria defesa e provou em juízo a condição de nascido livre.
Saiu dali para virar escrevente, depois rábula, advogado sem diploma que passou décadas arrancando gente do cativeiro em tribunal, processo por processo. E, no meio dessa rotina de fóruns, escreveu versos.
O livro saiu em 1859 com o nome de Primeiras Trovas Burlescas, assinado por Getulino. Não é livro de lamento. É sátira, feita para ser lida em voz alta, com rima curta e alvo claro, dirigida à mesma sociedade paulista que comprava e vendia gente durante o dia e falava de civilização à noite.
A arma escolhida foi uma palavra que corria nos salões como ofensa contra quem tinha ascendência africana. Em vez de recusar o apelido, o poeta o pegou, vestiu e devolveu, transformando o insulto num inventário da cidade inteira.
O que vem agora são três leituras de um mesmo autor, todas amarradas nesse livro de 1859 e na carta que ele escreveu vinte e um anos depois. Primeiro a sátira que virou apelido nacional, depois o trecho que serve numa cerimônia de casamento, e por fim as palavras para uma despedida.
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I O Poema do Dia
A palavra que voltou pelo mesmo caminho
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Nos salões paulistas do século dezenove, chamar alguém de bode era acusar a pessoa de ter sangue africano. Era palavra de rua e de sala de visita, dita baixo para ferir sem deixar rastro.
Getulino fez a única coisa que um insulto não suporta: aceitou a palavra em público, com todas as letras, e começou o poema por ela. O texto ficou conhecido como Bodarrada, e o título original é a pergunta Quem sou eu?
O poema abre com uma concessão que parece rendição e é armadilha. O poeta admite o apelido na primeira linha, e a partir daí a palavra deixa de ser dele e passa a ser de todo mundo.
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Se negro sou, ou sou bode, pouco importa. O que isto pode? Bodes há de toda casta, pois que a espécie é mui vasta... Há cinzentos, há rajados, baios, pampas e malhados, bodes negros, bodes brancos, e, sejamos todos francos,
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Luís Gama, Quem sou eu?, trecho inicial, no livro Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, São Paulo, 1859.
Repare no que a rima faz. São pares curtos, de sete sílabas, no metro das cantigas populares, o mesmo que qualquer pessoa consegue guardar depois de ouvir uma vez.
A escolha do metro é política. Um poema em verso longo e vocabulário difícil ficaria preso ao gabinete de quem já sabia ler; o verso curto sai andando pela cidade na boca de quem escutou.
E o argumento é simples de acompanhar. Se o defeito atribuído é a mistura, então basta olhar em volta e listar quem também é misturado, o que numa cidade escravista do Brasil quer dizer praticamente todos.
Na hora de ler
Não faça voz de indignação. O poema funciona por deboche calmo, e voz de comício estraga a piada antes de ela chegar ao fim.
Marque a pausa nas reticências. Elas estão ali de propósito, no lugar onde a plateia da época completava a lista sozinha, pensando nos vizinhos.
Acelere de leve na enumeração das cores. Cinzentos, rajados, baios, pampas e malhados formam um único gesto, e cortá-los com pausa igual entre um e outro derruba o ritmo.
Diga a ficha antes de começar. Uma frase resolve: Luís Gama, poema Quem sou eu?, do livro Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, de 1859.
Se estiver lendo para gente que nunca ouviu o texto, explique a palavra antes. Sem saber que bode era xingamento de origem, quem escuta perde a inversão inteira e acha que o poema fala de cabras.
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II Pra Ler no Altar
A lista que serve para juntar duas famílias
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Existe uma ocasião em que a segunda parte desse mesmo poema cai melhor que qualquer texto de flor e promessa: o casamento que junta duas famílias de origens diferentes, com bagagem social desigual dos dois lados da igreja.
O trecho seguinte da sátira não fala de amor, fala de linhagem, e faz uma coisa rara numa cerimônia: coloca todo mundo no mesmo nível sem constranger ninguém. O riso resolve o que o discurso solene costuma piorar.
O que vem depois da abertura é um inventário social. O poeta continua a lista de bodes e vai empurrando para dentro dela as camadas todas, do plebeu ao nobre, do pobre ao rico, do sábio ao trapaceiro.
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uns plebeus, e outros nobres, bodes ricos, bodes pobres, bodes sábios, importantes, e também alguns tratantes... Aqui, nesta boa terra, marram todos, tudo berra;
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Luís Gama, Quem sou eu?, continuação do mesmo poema, no livro Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, São Paulo, 1859.
Marrar é dar marradas, bater com a cabeça, e berrar é o som do bicho. As duas palavras juntas resumem a cidade como um curral em que todo mundo se acha melhor que o vizinho de baia.
Numa festa de casamento, essas seis linhas fazem o trabalho de um brinde. Elas admitem que as duas famílias vieram de lugares diferentes e dizem, com humor, que a diferença não sustenta hierarquia nenhuma.
A troca do nome: não personalize o verso. O poema tem métrica fechada de sete sílabas, e encaixar o nome dos noivos dentro dele quebra a batida. Diga os nomes na apresentação, antes da primeira linha.
Na hora de ler
Avise que é sátira antes de abrir a boca. Uma frase basta: o próximo texto é um poema cômico de 1859 sobre orgulho de família.
Leia devagar as duas últimas linhas. Aqui, nesta boa terra, marram todos, tudo berra é o remate, e remate dito com pressa vira frase perdida.
Espere o riso terminar antes de seguir. Se a sala rir na palavra tratantes, segure o verso seguinte por dois segundos.
Diga quem assina e de quando é. Uma frase resolve: Luís Gama, poema Quem sou eu?, do livro Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, de 1859.
Ensaie a palavra marram em voz alta. É o único termo que trava o leitor moderno, e tropeçar nela bem no fecho derruba o efeito do trecho inteiro.
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