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Numa despedida, quem fala costuma procurar verso sobre descanso, paz e céu, e entrega à família uma frase que poderia ser dita sobre qualquer pessoa do mundo. A sala escuta palavra bonita e sai sem nenhuma imagem daquela pessoa específica.
O trecho que sustenta uma despedida diz o que aquela pessoa era para quem ficou, e para ali, porque vínculo nomeado é a única informação que a sala ainda consegue guardar. O nome do vínculo é o que fica.
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Eu sou talvez a visão que Alguém sonhou, Alguém que veio ao mundo pra me ver E que nunca na vida me encontrou!
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Florbela Espanca, versos finais do soneto Eu, no Livro de Sóror Saudade, Lisboa, 1923.
Os três versos descrevem um encontro que não aconteceu. Existe alguém que veio ao mundo para ver a pessoa, existe o mundo inteiro no caminho, e existe o fracasso do encontro, dito sem culpa e sem explicação, o que é exatamente o que uma família sente diante de uma despedida.
A palavra talvez é o que segura o trecho de pé. Ela tira a certeza da frase e devolve a dúvida a quem escuta, e numa sala onde ninguém sabe o que dizer a dúvida compartilhada pesa menos que qualquer afirmação solene.
A maiúscula em Alguém faz trabalho de fé sem citar religião nenhuma. Cabe em velório católico, em cerimônia civil e em reunião de família sem crença declarada, porque cada pessoa na sala preenche a palavra com o que já acredita.
A leitura leva nove segundos e serve para o momento da despedida, para o cartão das flores e para a mensagem enviada à família no dia seguinte.
O trecho: leia os três versos finais, sem o resto do soneto. Os onze versos anteriores fazem inventário de tristeza e, num velório, o inventário cansa a sala antes de a imagem do encontro perdido chegar.
A linha de apresentação: diga que os versos são portugueses, de 1923, e que a poeta escreveu depois um livro inteiro dedicado ao irmão aviador, entregue ao público só em 1931, depois dela. Uma frase basta.
O cuidado: a frase descreve um desencontro. Numa família que se despede de alguém com quem conviveu até o fim, troque a apresentação para o tema do encontro que acabou, ou o trecho soa como cobrança.
O desfecho dela tem uma parte que não se sabe, e vale dizer com todas as letras. Não existe carta, bilhete ou recado deixado em 8 de dezembro de 1930, e é por isso que os biógrafos divergem até hoje sobre a dose de barbitúrico ter sido contada ou somada por descuido: a documentação registra o remédio, a data e o local, e para a intenção não há nenhum papel.
O que está documentado é a sequência. Charneca em Flor saiu em 1930 com o primeiro elogio que a crítica portuguesa lhe deu em vida, e As Máscaras do Destino, já com a dedicatória ao irmão, entrou nas livrarias no ano seguinte.
“Qual poema você leria em voz alta sem precisar explicar antes?”
O livro para Apeles saiu depois dela.
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