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ED 038
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O livro escrito para um irmão que caiu no Tejo

Florbela Espanca passou três anos escrevendo para Apeles, perdido num acidente aéreo em 1927, e lançou Charneca em Flor em Lisboa, em 1930.

Caderno aberto e carta dobrada sobre mesa de escritório, Lisboa, 1930.

Lisboa, 1930: o único elogio em vida

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Ser poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens. Florbela Espanca imprimiu essa linha em Charneca em Flor, em Lisboa, em 1930, e ela continua sendo a definição mais útil para quem precisa ler um poema em público sem pedir desculpa pelo tamanho do sentimento.

Apeles Espanca era aviador e irmão dela, nascido da mesma casa de Vila Viçosa. Em junho de 1927, o avião que ele pilotava caiu no rio Tejo, perto de Lisboa, durante um voo de treino, e o corpo levou dias para ser encontrado. Florbela tinha trinta e dois anos quando recebeu a notícia.

Os três anos seguintes foram de escrita endereçada. Ela produziu os sonetos que entrariam em Charneca em Flor e escreveu um livro de contos dedicado ao irmão, As Máscaras do Destino, que só chegou às livrarias em 1931, depois dela.

Charneca em Flor foi o único livro que a crítica portuguesa elogiou enquanto ela estava viva. Charneca, palavra do título, nomeia um terreno pobre de mato rasteiro, dos que florescem rente ao chão depois do inverno, e a imagem explica o projeto do volume melhor que qualquer prefácio.

Em 8 de dezembro de 1930, o dia em que completava trinta e seis anos, Florbela foi encontrada sem vida em Matosinhos, depois de ingerir uma dose alta de barbitúrico, o remédio para dormir que usava havia meses. A data do aniversário e a data do fim são a mesma linha no registro civil.

A edição de hoje separa três trechos dela, todos em domínio público no Brasil, e coloca cada um numa situação concreta de leitura em voz alta: quatro versos para quem vai falar sobre uma perda, quatro para uma cerimônia de casamento e três para uma despedida.

A primeira parada é o soneto em que ela definiu o próprio ofício, o trecho que mais se estraga quando alguém o lê com voz contida.

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I  O Poema do Dia

Quatro versos que aceitam o tamanho da dor

Quem precisa ler um poema em voz alta num momento de perda costuma procurar trecho pequeno e contido, com medo de parecer exagerado diante de quem está sofrendo. A escolha protege quem lê e deixa a sala vazia: o texto cabe no bolso e não chega perto do que está acontecendo ali.

Florbela Espanca escreveu o contrário e acerta: a estrofe assume a dor em voz alta, nomeia o tamanho dela e por isso autoriza a sala a sentir o que já está sentindo. A autorização é o que as pessoas levam para casa.

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

Florbela Espanca, primeira estrofe do soneto Ser Poeta, no livro Charneca em Flor, Lisboa, 1930.

Repare no verbo morder. Ela escolhe a palavra mais física do vocabulário da boca e cola nela a palavra beijo, na mesma linha, sem explicar a mistura. Quem escuta entende na hora que afeto e machucado estão no mesmo gesto, porque já viveu a cena.

O segundo par de versos inverte a posse. O mendigo dá, e dá como rei, o que transforma a falta em recurso: quem não tem nada distribui do pouco, e a estrofe faz da pobreza uma forma de abundância sem gastar uma palavra de consolo.

A expressão Reino de Aquém e de Além Dor nomeia um território que vai do lado de cá ao lado de lá da dor. Ela inventa a geografia e coloca o poeta como governante dela, o que dá ao trecho a única promessa que uma sala enlutada aceita: a de que alguém conhece o caminho.

Os quatro versos levam doze segundos em voz alta. Servem para abrir uma fala sobre uma perda recente, para a homenagem de aniversário de alguém que partiu e para o início de um encontro de escrita.

O trecho pede um cuidado de contexto. A estrofe fala de ofício de poeta, e numa sala sem nenhuma relação com escrita a palavra poeta precisa ser apresentada como quem sente em tamanho grande, ou metade da imagem se perde no caminho.

Na hora de ler

Diga mais alto e maior sem subir o volume da voz. A altura está no sentido, e quem grita a linha entrega uma arrogância que o soneto não tem.

Segure meio segundo antes de morder como quem beija. A frase é a virada da estrofe e precisa do ar parado antes dela para o paradoxo chegar inteiro.

Diga a ficha em uma frase. Quatro versos portugueses de 1930, do livro escrito nos três anos seguintes à perda de um irmão, sobre o preço de sentir em tamanho grande.

 
 

II  Pra Ler no Altar

A frase que começa com a alma perdida

Numa cerimônia de casamento, quem lê tende a buscar texto que prometa futuro: sempre, para toda a vida, até o fim dos tempos. A promessa é bonita no papel e envelhece mal, porque ninguém na sala consegue conferir nada do que foi dito.

Quatro versos que confessam dependência sem prometer futuro nenhum seguram uma cerimônia melhor que qualquer juramento, porque o casal reconhece a frase como descrição do presente. Descrição se confere na hora.

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Florbela Espanca, primeira estrofe do soneto Fanatismo, no Livro de Sóror Saudade, Lisboa, 1923.

O trecho funciona porque mede o sentimento por perda de função. A alma se perde, os olhos cegam, e os dois estragos aparecem como consequência de olhar demais para alguém: o amor é descrito pelo efeito, não pelo adjetivo.

A virada mora no terceiro verso. Ela nega a fórmula gasta, a de chamar a outra pessoa de razão de viver, e troca por algo maior e mais incômodo, que é a pessoa ocupar o lugar da vida inteira. A negação dá ao elogio um chão de verdade.

A palavra sóror, que nomeia o livro, é o termo latino para irmã, a forma com que freiras se tratavam no convento. Florbela se batiza assim em 1923 e assina como alguém que vive de clausura e de falta, o que explica o tom de confissão dos quatro versos.

A estrofe leva onze segundos. Cabe na abertura da cerimônia, na leitura entre os votos, no cartão do buquê e no brinde do jantar, sem adaptar nenhuma palavra.

A origem: diga que os versos são portugueses, de 1923, escritos por uma poeta que assinava como irmã de convento para falar de amor terreno. Uma frase basta, e ela explica o calor fora de lugar do poema.

O corte: a estrofe fecha sozinha no quarto verso. Com mais espaço, leia o soneto inteiro, que tem catorze versos e termina numa imagem de espelho.

O cuidado: a contração minh'alma pede leitura de três sílabas, sem engolir o apóstrofo. Ensaie em voz alta, porque tropeçar na primeira palavra derruba a confiança da sala nos três versos seguintes.

Na hora de ler

Marque a vírgula depois de minh'alma. O inciso de sonhar-te é o motivo do estrago, e a pausa nos dois lados dele deixa a causa visível.

Não acelere o último verso. Toda a minha vida são cinco palavras curtas, e a leitura apressada cola as cinco numa só, que é onde o verso perde o peso.

Diga a ficha em uma frase. Quatro versos portugueses de 1923, de uma poeta que assinava como freira, sobre o que sobra de uma pessoa depois de olhar muito para outra.

 

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III  Pra Dizer Adeus

A dedicatória que levou três anos

Numa despedida, quem fala costuma procurar verso sobre descanso, paz e céu, e entrega à família uma frase que poderia ser dita sobre qualquer pessoa do mundo. A sala escuta palavra bonita e sai sem nenhuma imagem daquela pessoa específica.

O trecho que sustenta uma despedida diz o que aquela pessoa era para quem ficou, e para ali, porque vínculo nomeado é a única informação que a sala ainda consegue guardar. O nome do vínculo é o que fica.

Eu sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca, versos finais do soneto Eu, no Livro de Sóror Saudade, Lisboa, 1923.

Os três versos descrevem um encontro que não aconteceu. Existe alguém que veio ao mundo para ver a pessoa, existe o mundo inteiro no caminho, e existe o fracasso do encontro, dito sem culpa e sem explicação, o que é exatamente o que uma família sente diante de uma despedida.

A palavra talvez é o que segura o trecho de pé. Ela tira a certeza da frase e devolve a dúvida a quem escuta, e numa sala onde ninguém sabe o que dizer a dúvida compartilhada pesa menos que qualquer afirmação solene.

A maiúscula em Alguém faz trabalho de fé sem citar religião nenhuma. Cabe em velório católico, em cerimônia civil e em reunião de família sem crença declarada, porque cada pessoa na sala preenche a palavra com o que já acredita.

A leitura leva nove segundos e serve para o momento da despedida, para o cartão das flores e para a mensagem enviada à família no dia seguinte.

O trecho: leia os três versos finais, sem o resto do soneto. Os onze versos anteriores fazem inventário de tristeza e, num velório, o inventário cansa a sala antes de a imagem do encontro perdido chegar.

A linha de apresentação: diga que os versos são portugueses, de 1923, e que a poeta escreveu depois um livro inteiro dedicado ao irmão aviador, entregue ao público só em 1931, depois dela. Uma frase basta.

O cuidado: a frase descreve um desencontro. Numa família que se despede de alguém com quem conviveu até o fim, troque a apresentação para o tema do encontro que acabou, ou o trecho soa como cobrança.

O desfecho dela tem uma parte que não se sabe, e vale dizer com todas as letras. Não existe carta, bilhete ou recado deixado em 8 de dezembro de 1930, e é por isso que os biógrafos divergem até hoje sobre a dose de barbitúrico ter sido contada ou somada por descuido: a documentação registra o remédio, a data e o local, e para a intenção não há nenhum papel.

O que está documentado é a sequência. Charneca em Flor saiu em 1930 com o primeiro elogio que a crítica portuguesa lhe deu em vida, e As Máscaras do Destino, já com a dedicatória ao irmão, entrou nas livrarias no ano seguinte.

“Qual poema você leria em voz alta sem precisar explicar antes?”

O livro para Apeles saiu depois dela.

 
 

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