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O livro de Costa Alegre que saiu 26 anos depois dele
Em 1916, um amigo publicou em Lisboa os Versos do estudante são-tomense que escreveu sobre a própria cor e nunca viu o livro.
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Lisboa, 1916: os Versos saem da gráfica
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A minha cor é negra, indica luto e pena. Caetano da Costa Alegre escreveu o verso em Lisboa, nos anos 1880, e ele responde até agora a uma pergunta que muita gente faz em voz baixa: como falar da própria pele sem pedir licença.
Caetano da Costa Alegre nasceu em 1864 na ilha de São Tomé, colônia portuguesa no golfo da Guiné, numa família com posses. Ainda rapaz, embarcou para Lisboa com um plano claro: estudar medicina e voltar doutor.
Na capital, entrou na Escola Médico-Cirúrgica e começou a escrever versos nos intervalos das aulas. Era um dos poucos estudantes negros da cidade, e sentia nas ruas, nos cafés e nos bailes o olhar que pousava sobre a pele dele.
Os poemas nasciam desse olhar. Falam de moças brancas que o recusam, de salões onde ele é o único de pele escura, de uma cor que ele mesmo compara à noite. Ele não escondia a mágoa e não pedia desculpa por ela.
Mostrava os versos aos colegas e a alguns jornais de Lisboa. Não reuniu nenhum livro em vida.
A tuberculose chegou antes do diploma. Ele largou o curso, foi tratar-se no interior de Portugal e partiu em 1890, em Alcobaça, antes de completar 26 anos.
Os papéis ficaram com um amigo, Artur da Cruz Magalhães, que guardou os poemas durante mais de duas décadas. Em 1916, publicou em Lisboa o volume Versos, com tudo o que conseguiu juntar e um texto de apresentação sobre o autor.
A conta é simples e dura. Vinte e seis anos separam o último poema do livro impresso, o mesmo número de anos que o autor não chegou a viver. Costa Alegre não leu uma única página impressa da própria obra.
Os leitores do século 20 o puseram entre os primeiros poetas africanos de língua portuguesa a escrever, de frente, sobre a cor de quem escreve. O livro de 1916 virou o documento dessa voz.
A estrofe da cor, a mais citada de Versos, abre a leitura abaixo, em quatro linhas curtas.
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I O Poema do Dia
A cor que indica luto
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Num sarau, Caetano da Costa Alegre pede uma voz grave e uma sala que escute sem pressa. A estrofe da cor é a mais conhecida de Versos e cabe inteira num fôlego.
A estrofe abre bem uma leitura porque diz de frente o que o resto do livro rodeia: a cor de quem escreve e a cor de quem ele ama.
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A minha cor é negra, Indica luto e pena; É luz, que nos alumia, A tua cor morena.
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Caetano da Costa Alegre, Versos, 1916, poema escrito em Lisboa nos anos 1880.
A forma é uma quadra (estrofe de quatro versos), a mesma das cantigas populares que qualquer português sabia de cor. Costa Alegre escolheu a moldura mais simples da língua para dizer a frase mais difícil.
A rima também é de cantiga. O segundo e o quarto versos rimam, pena com morena, e o primeiro e o terceiro ficam soltos. O ouvido reconhece o desenho e baixa a guarda.
O primeiro verso usa o código da Europa do século 19, em que o preto vestia o luto das viúvas e dos enterros. O poeta aceita o código e o vira contra si mesmo: a cor dele já chega de luto.
O terceiro verso traz a luz. A cor morena da amada é a que ilumina os dois, e a frase põe o poeta no escuro e a mulher no dia. A divisão é dele, escrita em primeira pessoa.
Quem lê a estrofe só como queixa perde metade dela. Costa Alegre escreve a dor com métrica de canção, e a canção é um jeito de dizer em público o que doía em particular.
O resto de Versos volta ao tema em poemas mais longos, com moças que riem do pretendente, mães que fecham a porta e noites de baile. A quadra concentra tudo em quatro linhas.
Os versos têm a língua de Lisboa do século 19, sem uma palavra do crioulo forro (a língua nascida em São Tomé da mistura do português com idiomas africanos). Costa Alegre escrevia para os leitores da capital, na fala deles.
A edição de 1916, organizada por Artur da Cruz Magalhães, saiu em tiragem pequena. Por décadas, Versos circulou mais em antologias e estudos do que na forma original, e passou a ser lido como peça da história literária de São Tomé e Príncipe.
Na hora de ler
Diga o primeiro verso devagar, sem baixar os olhos. A sala precisa ouvir a palavra negra inteira.
Faça uma pausa antes de luz. O verso muda de direção ali.
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II Pra Ler no Altar
A alma que se transforma
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Num casamento, Caetano da Costa Alegre cede a palavra a um poeta que ele leu na escola: Luís de Camões, que também não viu impresso o livro dos seus sonetos de amor.
O soneto serve ao altar porque diz que quem ama vira parte do outro, e que o corpo pode descansar porque a alma já está junto.
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Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, Pois consigo tal alma está liada.
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Luís de Camões, soneto Transforma-se o amador, Rimas, 1595.
O soneto começa com a frase que dá nome a ele: quem ama se transforma no ser amado, de tanto imaginá-lo. A quadra acima é a segunda e tira a conclusão: se a alma do amante já mora na amada, o corpo não precisa correr atrás dela.
Liada quer dizer ligada, amarrada. A palavra antiga pede a voz um pouco mais lenta.
Camões partiu em Lisboa em 1580, pobre. As Rimas, com os sonetos, só saíram em 1595, quinze anos depois, organizadas por amigos e editores que juntaram os manuscritos.
Três séculos depois, em 1880, Lisboa festejou com desfiles e discursos os 300 anos da partida de Camões. Os estudantes que chegavam à cidade naquela década, Costa Alegre entre eles, aprendiam os sonetos na escola.
A quadra que Costa Alegre escolheu para os próprios versos vem dessa mesma tradição de lírica portuguesa, a poesia de amor cantada em primeira pessoa.
O soneto de Camões fala de um amor que já venceu a distância. Os poemas de Costa Alegre falam de um amor que a sala recusa. No altar, a sala já disse sim, e o verso de Camões é o que cabe.
O soneto tem catorze versos: duas quadras e dois tercetos (estrofes de três versos). Para uma cerimônia, a segunda quadra basta e dura menos de meio minuto.
A origem: diga que o soneto é de Camões e saiu impresso só depois que o poeta já não estava aqui.
O corte: leia só a segunda quadra. Ela fala do casal e dispensa a teoria do começo.
A língua: explique liada antes de ler, numa frase. Ligada, amarrada.
O ritmo: o verso tem dez sílabas e pede voz regular, como quem caminha até o altar.
Na hora de ler
Olhe para os noivos em alma transformada. A sala entende o resto sem explicação.
Termine em liada e espere um segundo antes de passar a palavra.
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