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O lavrador que recitava de cor um livro que mal sabia ler
Em 1956, um agricultor de Assaré com poucos meses de escola virou autor de um livro que ele já guardava inteiro na memória, verso por verso.
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Assaré, Ceará, o poeta que compunha na roça
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Um homem de quarenta e sete anos, nascido na serra de Santana, no sertão do Ceará, segurava em 1956 o primeiro exemplar de um livro com o nome dele na capa. Ele tinha frequentado a escola por poucos meses na vida inteira. Lia com dificuldade, soletrando, a mesma página que sabia recitar inteira de olhos fechados.
A cena tem uma esquisitice que quase nenhuma biografia de poeta apresenta. O texto impresso não era novidade nenhuma para o autor. Estava na cabeça dele havia anos, decorado linha por linha, testado em feira, em alpendre, em roda de vaqueiro, muito antes de existir papel.
O método era o inverso do que a escola ensina. Ele compunha enquanto capinava, guardava a estrofe pronta na memória, corrigia mentalmente por dias e só depois passava para alguém escrever, ou escrevia ele mesmo, devagar, com a letra grande de quem aprendeu tarde.
O resultado é uma obra que nasceu sonora. Cada verso foi ajustado para caber no fôlego de quem fala em voz alta, não no olho de quem lê sentado. A métrica não era enfeite de escola, era a corda que segurava o poema na memória.
Essa é a chave que interessa para quem vai ler poesia em voz alta hoje. Um texto construído para ser lembrado se comporta de outro jeito na boca: ele puxa a próxima linha sozinho, com rima previsível e frase curta, e perdoa o leitor nervoso que perde a página.
A poesia brasileira tem uma tradição inteira feita assim, de cor antes de impressa, e ela é a mais fácil de dizer em público porque foi testada em público. O sertanejo de Assaré é o caso extremo dessa linhagem.
O que vem agora sai da cabeça dele para a sua. Primeiro a estrofe que ele usava para responder a quem duvidava de um poeta sem diploma, depois um soneto de amor que cabe em quatro respirações no altar, e por fim um poema curto para quando faltar alguém e a casa estiver cheia.
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I O Poema do Dia
A resposta em verso ao poeta da cidade
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Existe uma estrofe de dez linhas que virou carteira de identidade da poesia sertaneja. Ela responde, sem levantar a voz, a todo mundo que já tratou poeta de roça como curiosidade folclórica.
O poema abre o livro Cante Lá Que Eu Canto Cá, publicado em 1978, e a estrofe de abertura circulava de boca em boca décadas antes de virar página impressa. O autor, Patativa do Assaré, era agricultor no Ceará e assinava os versos com o apelido de um pássaro cantor.
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Poeta, cantô da rua, Que na cidade nasceu, Cante a cidade que é sua, Que eu canto o sertão que é meu. Se aí você teve estudo, Aqui Deus me ensinou tudo, Sem de livro precisá, Por favor, não mêxa aqui, Que eu também não mexo aí, Cante lá que eu canto cá.
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Patativa do Assaré, Cante Lá Que Eu Canto Cá, primeira estrofe do poema, no livro Cante Lá Que Eu Canto Cá, Petrópolis, 1978.
A grafia estranha não é erro de revisão nem descuido de editora. Cantô, precisá, mêxa: o autor exigiu que o livro registrasse a fala do sertão como ela soa, e brigou por essa escolha com quem quis corrigir.
A estrofe tem uma engenharia que se sente melhor na boca do que no olho. São dez linhas de sete sílabas, com rimas encaixadas de dois em dois, e nenhuma palavra com mais de três sílabas.
Esse desenho é o motivo de o texto grudar na memória. Quem ouve duas vezes já antecipa o fim da linha, e é exatamente esse mecanismo que permitia ao autor carregar centenas de páginas na cabeça sem nenhum caderno.
O conteúdo faz o mesmo trabalho de forma diferente. O poema não implora respeito nem reclama de exclusão, apenas divide o mundo em duas competências e recusa a hierarquia entre elas.
A frase final resolve tudo. Cante lá que eu canto cá não é briga, é acordo, e por isso a linha atravessou o século sem envelhecer nem em jornal, nem em sala de aula, nem em roda de violeiro.
Na hora de ler
Não conserte a grafia. Dizer cantor no lugar de cantô destrói o argumento do poema, que é justamente o direito de falar como se fala.
Marque o compasso com o corpo, não com a voz. Sete sílabas pedem um andamento de caminhada, e a tentação de declamar alto atrapalha mais do que ajuda.
Faça uma pausa antes das duas últimas linhas. O poema guarda o acordo para o fim, e ele funciona como fecho de conversa, não como grito de resposta.
Diga a ficha antes de começar. Uma frase resolve: Patativa do Assaré, Cante Lá Que Eu Canto Cá, do livro de mesmo nome, de 1978.
Se for ler para um grupo, repita a última linha uma vez. Aqui a repetição soa como assinatura, não como esquecimento.
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II Pra Ler no Altar
O soneto que promete sem prazo
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A ocasião é a cerimônia em que alguém da família vai ler e está com medo de errar. Serve no civil, na igreja, no brinde e na renovação de votos depois de muitos anos juntos.
São catorze linhas, escritas em 1939 e publicadas em 1946, e talvez seja o texto mais decorado da língua portuguesa depois das orações. Muita gente na sala vai reconhecer o começo, e reconhecer ajuda quem lê.
O poema se chama Soneto de Fidelidade e está na Antologia Poética do autor. Ele foi escrito quando o poeta tinha vinte e seis anos e morava fora do Brasil.
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De tudo, ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento. E assim, quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama Eu possa me dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.
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Vinicius de Moraes, Soneto de Fidelidade, íntegra do poema, no livro Antologia Poética, Rio de Janeiro, 1946.
O soneto resolve um problema comum de casamento. Quase toda leitura de cerimônia promete eternidade, e a promessa soa vazia porque ninguém na sala acredita nela por completo.
Aqui a promessa é outra, e é mais difícil de cumprir. O verbo central é ser atento, ou seja, prestar atenção todo dia, que é trabalho, e não sentimento que aparece sozinho.
As duas últimas linhas costumam ser lidas como tristeza, e não são. Elas trocam duração por intensidade e assumem, na frente de todo mundo, que o amor é chama e não pedra.
Vão momento é uma expressão que trava o leitor apressado. Vão aqui quer dizer vazio, sem importância, o momento que não vale nada, e o poema promete atenção justamente nesses.
A troca do nome: o texto não tem nome próprio nenhum, então serve para qualquer casal sem uma sílaba de ajuste. Se quiser personalizar, diga o nome antes da primeira linha, nunca dentro do verso.
Na hora de ler
Diga quem assina e de quando é. Uma frase resolve: Vinicius de Moraes, Soneto de Fidelidade, do livro Antologia Poética, de 1946.
Respire nas quatro divisões do soneto. São quatro blocos, e ler tudo emendado transforma a peça num parágrafo comprido sem virada.
Segure a última linha. Mas que seja infinito enquanto dure precisa de uma pausa antes e de nenhuma pressa dentro, porque é a frase que a sala vai levar para casa.
Ensaie três vezes em voz alta antes do dia. Como o texto é muito conhecido, o público acompanha de cor, e o leitor que troca uma palavra sente a sala corrigir.
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