|
|
|
I O Poema do Dia
O vendeiro de tamancos
|
|
A um Camarista, tendo o Autor sido Despachado, carta de Nicolau Tolentino de Almeida no segundo tomo das Obras Poéticas, tem seis décimas (estrofes de dez versos de sete sílabas). Camarista era o fidalgo que servia nos aposentos do príncipe; despachado queria dizer nomeado para o cargo pedido.
A pobreza do poema se mede em objetos: as brasas, a roupa dos sobrinhos e o giz do vendeiro.
|
Que um tendeiro, que os seus bens Me fiava, dando arrancos, Veio em barrete e tamancos Dar-me logo os parabéns; Espera que os meus vinténs O façam também feliz; Porque, segundo ele diz, Há de haver na sua tenda Mais saída na fazenda E menos gasto no giz.
|
Nicolau Tolentino de Almeida, A um Camarista, tendo o Autor sido Despachado, décimas, Obras Poéticas, tomo II, Lisboa, Régia Oficina Tipográfica, 1801.
Em prosa: contai que um vendeiro, que me vendia fiado de má vontade, veio de gorro e tamancos me dar os parabéns na hora; espera que as minhas moedas o façam feliz também, porque, segundo ele, vai sair mais mercadoria da venda e gastar-se menos giz.
Tendeiro é o dono da venda do bairro, e fiar é vender para receber depois. Uma nota do livro explica o último verso: os vendeiros marcavam com giz o que davam fiado.
A cozinha acesa
Duas estrofes antes, o poeta manda contar ao príncipe: “Dizei-lhe que na cozinha / Ardem já montões de brasas; / Que em todas as minhas casas / Era a mais fresca que eu tinha”. A cozinha era o cômodo mais fresco porque nela quase não se cozinhava.
Na estrofe seguinte, os sobrinhos aparecem de roupa nova, e a Rua Augusta, onde se vendia pano, diz outra nota, volta a ficar livre para ele: antes estava “por vários crimes vedada”. Os crimes, pelo tom da carta, eram dívidas com os lojistas.
A rima de dez versos
A décima segue o molde que o espanhol Vicente Espinel fixou no livro Diversas Rimas, de 1591, e que herdou dele o apelido de espinela: o primeiro verso rima com o quarto e o quinto (bens, parabéns, vinténs), o segundo com o terceiro (arrancos, tamancos), o oitavo com o nono (tenda, fazenda).
O sexto, o sétimo e o décimo dividem a última rima, feliz, diz e giz, e Tolentino guarda para a décima linha a palavra da piada.
A véstia de cetim
No mesmo tomo, duas décimas agradecem a D. Catarina Micaela de Sousa uma véstia de cetim, o colete comprido usado sob a casaca. O poeta diz que anda bem coberto e pede pelo irmão militar, que requeria o governo de um forte e tinha “farda rota e chamuscada” (uniforme rasgado e queimado).
A mão que lhe deu “véstia branca”, escreve, pode dar ao irmão “casaca encarnada”, a vermelha. O livro não conta se o irmão ganhou o forte.
Na hora de ler
Leia a estrofe do vendeiro devagar até “parabéns” e acelere na fala do homem. Antes de “giz”, segure meio segundo de silêncio.
|
|
|
|
|
II Pra Ler no Altar
Esposa e amigo
|
|
Para um casamento, a página traz a carta em que Nicolau Tolentino louva o estado de casado de um amigo: vinte e três quintilhas (estrofes de cinco versos).
Os versos servem ao altar porque elogiam a escolha do noivo: na mesma pessoa, ele achou esposa e amigo.
|
Foi este o ditoso dia Que te deu a esposa bela; Doce, sólida alegria, Para ti, junto com ela, No mesmo berço nascia;
Eu sei teu costume antigo: A mulher que é só formosa Não vale tudo contigo; Soubeste escolher esposa Em quem tens esposa e amigo;
|
Nicolau Tolentino de Almeida, A um Amigo, louvando-lhe o Estado de Casado, carta em quintilhas, Obras Poéticas, tomo II, Lisboa, Régia Oficina Tipográfica, 1801.
Em prosa: foi este o dia feliz que te deu a esposa bonita; com ela, nascia no mesmo berço, para ti, uma alegria doce e firme. Conheço teu velho costume: a mulher só bonita não vale tudo para ti; soubeste escolher uma esposa em quem tens esposa e amigo.
Ditoso quer dizer feliz, e formosa, bonita. O berço comum diz que a alegria chegou junto com a esposa.
A rima de cinco versos
Na quintilha, o primeiro, o terceiro e o quinto versos rimam entre si (dia, alegria, nascia), e o segundo com o quarto (bela, ela). O quinto verso devolve a rima da abertura e encerra a ideia junto com o som.
O amigo que abre exceção
No miolo da carta, o poeta desconfia da amizade entre homens: o amigo de rosto alegre se veste das paixões do outro para agradar, e “São raros os corações / Em que doa dor alheia”. Amor puro, para ele, só mora entre esposos.
Na última estrofe, depois de chamar de fábula a amizade masculina, o poeta oferece a dele: “Conta com um, que é singelo; / E foi sempre teu amigo, / Quanto os homens podem sê-lo”. Singelo, no verso, quer dizer sincero, sem dobra.
Os criados da noiva
Para outro casamento, o da condessa de Tarouca, Tolentino escreveu 35 quadras na voz da casa que a noiva deixava, e quem chora nela são os criados.
O copeiro Silva, encarregado da copa e da mesa, “Põe o doce antes da sopa; / Queima o café, quebra tudo”. A aia velha, a criada que cuidou da noiva desde menina, abre a janela por costume para dar bom-dia e encontra a cama vazia.
Por que funciona no altar
No altar, a carta faz o brinde do amigo que viu de perto o noivo escolher.
• O corte: a primeira e a terceira estrofes, mais a última, com a oferta de amizade.
• O tom: de brinde, com o copo ainda na mesa.
• O leitor: o padrinho mais antigo do noivo.
Na hora de ler
Respire depois de “No mesmo berço nascia”. Na terceira estrofe, dê peso a “esposa e amigo” e olhe para a noiva ao dizer as três palavras.
|
| |
|