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O giz do fiado nos versos de Tolentino

Professor sem dinheiro, Nicolau Tolentino pediu emprego em verso e contou a um fidalgo o dia em que o vendeiro do fiado veio dar os parabéns.

Bilhete dobrado com versos copiados à mão, no bolso de um casaco remendado pendurado numa cadeira, junto a um toco de giz.

Bilhete dobrado no bolso de um casaco remendado

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Nicolau Tolentino de Almeida pôs num livro impresso em Lisboa em 1801 dois versos sobre a véspera do dinheiro: “Inda a obra está na imprensa / E já sonho com ladrões” (inda é ainda, na forma antiga). A frase ainda descreve quem viveu anos sem sobra e, com o primeiro pagamento grande a caminho, perde o sono antes de receber.

O poeta nasceu em Lisboa em 1740, filho de um advogado da Casa da Suplicação, o tribunal mais alto do reino. Estudou leis em Coimbra, largou o curso sem diploma e virou professor régio de retórica: mestre pago pela Coroa para ensinar a arte de falar e escrever para convencer.

A sala de aula nunca lhe agradou. Uma nota do próprio livro de 1801 avisa que o autor era professor de retórica e “pretendia passar para outro emprego”. O emprego veio na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, o ministério do governo interno, onde ele entrou como praticante (aprendiz sem salário) e mais tarde virou oficial.

Chegou lá à força de cartas rimadas a ministros, condes e marqueses, e ganhou em Lisboa o apelido de poeta pedinchão. O livro de 1801 também nasceu de um pedido. O marquês de Ponte de Lima, ministro de Estado que o nomeara oficial, conseguiu licença para imprimir os versos na Régia Oficina Tipográfica, a gráfica da Coroa, com o lucro para o autor, e morreu de repente antes de assinar o aviso (a ordem escrita do ministério).

Quem assinou foi Luís Pinto de Sousa, outro ministro de Estado. As Obras Poéticas saíram em dois tomos pequenos, e o segundo guarda as cartas em que o autor agradece, cobra e pede de novo. Antes, alguns poemas dele tinham circulado sem assinatura, entre 1779 e 1783, numa publicação anual da Tipografia Rollandiana, outra gráfica de Lisboa.

O poema de hoje é a carta que ele mandou a um fidalgo do paço depois de conseguir o emprego, com notícias da cozinha e de um vendeiro do bairro.

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I  O Poema do Dia

O vendeiro de tamancos

A um Camarista, tendo o Autor sido Despachado, carta de Nicolau Tolentino de Almeida no segundo tomo das Obras Poéticas, tem seis décimas (estrofes de dez versos de sete sílabas). Camarista era o fidalgo que servia nos aposentos do príncipe; despachado queria dizer nomeado para o cargo pedido.

A pobreza do poema se mede em objetos: as brasas, a roupa dos sobrinhos e o giz do vendeiro.

Que um tendeiro, que os seus bens
Me fiava, dando arrancos,
Veio em barrete e tamancos
Dar-me logo os parabéns;
Espera que os meus vinténs
O façam também feliz;
Porque, segundo ele diz,
Há de haver na sua tenda
Mais saída na fazenda
E menos gasto no giz.

Nicolau Tolentino de Almeida, A um Camarista, tendo o Autor sido Despachado, décimas, Obras Poéticas, tomo II, Lisboa, Régia Oficina Tipográfica, 1801.

Em prosa: contai que um vendeiro, que me vendia fiado de má vontade, veio de gorro e tamancos me dar os parabéns na hora; espera que as minhas moedas o façam feliz também, porque, segundo ele, vai sair mais mercadoria da venda e gastar-se menos giz.

Tendeiro é o dono da venda do bairro, e fiar é vender para receber depois. Uma nota do livro explica o último verso: os vendeiros marcavam com giz o que davam fiado.

A cozinha acesa

Duas estrofes antes, o poeta manda contar ao príncipe: “Dizei-lhe que na cozinha / Ardem já montões de brasas; / Que em todas as minhas casas / Era a mais fresca que eu tinha”. A cozinha era o cômodo mais fresco porque nela quase não se cozinhava.

Na estrofe seguinte, os sobrinhos aparecem de roupa nova, e a Rua Augusta, onde se vendia pano, diz outra nota, volta a ficar livre para ele: antes estava “por vários crimes vedada”. Os crimes, pelo tom da carta, eram dívidas com os lojistas.

A rima de dez versos

A décima segue o molde que o espanhol Vicente Espinel fixou no livro Diversas Rimas, de 1591, e que herdou dele o apelido de espinela: o primeiro verso rima com o quarto e o quinto (bens, parabéns, vinténs), o segundo com o terceiro (arrancos, tamancos), o oitavo com o nono (tenda, fazenda).

O sexto, o sétimo e o décimo dividem a última rima, feliz, diz e giz, e Tolentino guarda para a décima linha a palavra da piada.

A véstia de cetim

No mesmo tomo, duas décimas agradecem a D. Catarina Micaela de Sousa uma véstia de cetim, o colete comprido usado sob a casaca. O poeta diz que anda bem coberto e pede pelo irmão militar, que requeria o governo de um forte e tinha “farda rota e chamuscada” (uniforme rasgado e queimado).

A mão que lhe deu “véstia branca”, escreve, pode dar ao irmão “casaca encarnada”, a vermelha. O livro não conta se o irmão ganhou o forte.

Na hora de ler

Leia a estrofe do vendeiro devagar até “parabéns” e acelere na fala do homem. Antes de “giz”, segure meio segundo de silêncio.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Esposa e amigo

Para um casamento, a página traz a carta em que Nicolau Tolentino louva o estado de casado de um amigo: vinte e três quintilhas (estrofes de cinco versos).

Os versos servem ao altar porque elogiam a escolha do noivo: na mesma pessoa, ele achou esposa e amigo.

Foi este o ditoso dia
Que te deu a esposa bela;
Doce, sólida alegria,
Para ti, junto com ela,
No mesmo berço nascia;

Eu sei teu costume antigo:
A mulher que é só formosa
Não vale tudo contigo;
Soubeste escolher esposa
Em quem tens esposa e amigo;

Nicolau Tolentino de Almeida, A um Amigo, louvando-lhe o Estado de Casado, carta em quintilhas, Obras Poéticas, tomo II, Lisboa, Régia Oficina Tipográfica, 1801.

Em prosa: foi este o dia feliz que te deu a esposa bonita; com ela, nascia no mesmo berço, para ti, uma alegria doce e firme. Conheço teu velho costume: a mulher só bonita não vale tudo para ti; soubeste escolher uma esposa em quem tens esposa e amigo.

Ditoso quer dizer feliz, e formosa, bonita. O berço comum diz que a alegria chegou junto com a esposa.

A rima de cinco versos

Na quintilha, o primeiro, o terceiro e o quinto versos rimam entre si (dia, alegria, nascia), e o segundo com o quarto (bela, ela). O quinto verso devolve a rima da abertura e encerra a ideia junto com o som.

O amigo que abre exceção

No miolo da carta, o poeta desconfia da amizade entre homens: o amigo de rosto alegre se veste das paixões do outro para agradar, e “São raros os corações / Em que doa dor alheia”. Amor puro, para ele, só mora entre esposos.

Na última estrofe, depois de chamar de fábula a amizade masculina, o poeta oferece a dele: “Conta com um, que é singelo; / E foi sempre teu amigo, / Quanto os homens podem sê-lo”. Singelo, no verso, quer dizer sincero, sem dobra.

Os criados da noiva

Para outro casamento, o da condessa de Tarouca, Tolentino escreveu 35 quadras na voz da casa que a noiva deixava, e quem chora nela são os criados.

O copeiro Silva, encarregado da copa e da mesa, “Põe o doce antes da sopa; / Queima o café, quebra tudo”. A aia velha, a criada que cuidou da noiva desde menina, abre a janela por costume para dar bom-dia e encontra a cama vazia.

Por que funciona no altar

No altar, a carta faz o brinde do amigo que viu de perto o noivo escolher.

• O corte: a primeira e a terceira estrofes, mais a última, com a oferta de amizade.

• O tom: de brinde, com o copo ainda na mesa.

• O leitor: o padrinho mais antigo do noivo.

Na hora de ler

Respire depois de “No mesmo berço nascia”. Na terceira estrofe, dê peso a “esposa e amigo” e olhe para a noiva ao dizer as três palavras.

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III  Pra Dizer Adeus

A balança de quem parte

Numa despedida, a página vai a duas décimas que Nicolau Tolentino escreveu para um ministro que partia levando os filhos. Ministro, no português do século 18, era também o magistrado nomeado pela Coroa, e a balança do poema é a da justiça.

Os versos servem ao adeus porque pedem pouco a quem vai: só a lembrança de quem fica.

A lei da pura amizade
Minhas lágrimas condena;
Quer que ceda a minha pena
À tua felicidade;
Vai; e enquanto a vil maldade,
E a intrigante cobiça,
A baixa inveja, a injustiça
Pesas na reta balança,
Conserva de mim lembrança,
Que é também fazer justiça.

Nicolau Tolentino de Almeida, Na despedida de um Ministro, que partia levando seus Filhos, décimas, Obras Poéticas, tomo II, Lisboa, Régia Oficina Tipográfica, 1801.

Em prosa: a lei da amizade pura condena minhas lágrimas e quer que a minha dor ceda à tua felicidade. Vai; e, enquanto pesas na balança justa a maldade vil, a cobiça que trama, a inveja baixa e a injustiça, guarda lembrança de mim, que também é fazer justiça.

Pena, no verso, é a dor de quem fica. Intrigante é a cobiça que arma intriga, e reta quer dizer justa.

Os filhos na bagagem

A segunda décima pede aos filhos, os “lindos inocentes”, que amoleçam o pai com risos quando o virem de balança na mão: “Lembrai-lhe que aqueles povos, / Como vós, seus filhos são”.

O título não diz quem era o ministro nem para onde ia. O verso indica só que ele partia com a família para julgar outros povos.

O poeta que ficou

Em 1807, as tropas de Napoleão entraram em Portugal, e a corte embarcou para o Brasil. Tolentino ficou em Lisboa, perto dos 70 anos, e os velhos apertos de dinheiro pioraram com a partida dos protetores.

Numa das cartas pela impressão do livro, pedira a D. Lourenço de Lima que fizesse os ricos comprarem exemplares, para ele não “ir ao Templo da Memória / Pela porta do Hospital”: chegar à fama passando antes pela miséria. Morreu solteiro na freguesia das Mercês, em Lisboa, em 23 de junho de 1811, aos 70 anos.

Na hora de ler

Leia a primeira décima olhando para quem parte. Faça uma pausa curta depois de “Vai;”, no quinto verso, e diminua o passo nos dois últimos. Se quem parte leva os filhos, a segunda estrofe serve inteira, dita a eles.

Em 1828, a Tipografia Rollandiana imprimiu em Lisboa as Obras Póstumas, com sonetos de agradecimento ao príncipe que o tirara da pobreza.

Ele não viu o livro.

 
 
 

Quiz da edição

No texto, depois que o marquês de Ponte de Lima morreu de repente antes de assinar o aviso que autorizava a impressão dos versos, quem assinou o aviso no lugar dele?

AD. Catarina Micaela de Sousa
BO vendeiro de tamancos
CLuís Pinto de Sousa
DO Camarista do paço

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