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O elogio que media a poeta pelo que ela não era
Francisca Júlia publicou Mármores em 1895 e a crítica do Rio louvou os sonetos chamando o verso dela de viril.
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São Paulo, 1895: os sonetos de Mármores
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Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero luto jamais te afeie o cândido semblante. Francisca Júlia deixou a ordem no soneto Musa Impassível, recolhido em Mármores, São Paulo, 1895, e ela resolve um problema prático de quem vai ler em voz alta numa sala emocionada: a instrução dada à musa serve palavra por palavra a quem segura o papel, porque a voz que não desaba é a única que a plateia consegue acompanhar até o fim.
A autora nasceu em 1871, no interior de São Paulo, filha de uma família modesta que se mudou para a capital quando ela era menina. Trabalhou como professora e publicou versos em jornal desde os vinte anos, em plena moda parnasiana, quando escrever poesia significava esculpir estrofe medida, rima rica e assunto frio.
Mármores saiu em 1895, com sonetos sobre estátua, pedra, mitologia e paisagem sem uma linha de confissão pessoal. O livro caiu bem numa época que premiava exatamente essa contenção, e a recepção veio calorosa e enviesada ao mesmo tempo: os críticos elogiaram a força do verso chamando de viril, palavra que naquele vocabulário significava nota alta e que, dita a respeito de uma mulher, funcionava como espanto disfarçado de aplauso.
O elogio media a poeta pela distância que ela guardava do que se esperava de uma escritora do período, terno, doméstico, choroso. Ninguém abria o livro para descrever o que estava lá; abriam para registrar a surpresa de não encontrar o que procuravam. Ela seguiu publicando, lançou Esphinges em 1903 e morreu em 1920, com o nome já saindo das antologias que os mesmos críticos organizavam.
A edição de hoje usa três textos parnasianos brasileiros em três situações de leitura em voz alta. Um soneto de disciplina para quem precisa ler sem tremer, um quarteto de espanto amoroso para cerimônia de casamento e uma estrofe de partida coletiva para despedida.
Começa pela estrofe que dá ordem à própria voz, escrita por quem passou a vida sendo lida como exceção do próprio gênero.
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I O Poema do Dia
A ordem que a poeta deu à própria voz
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O soneto que abre a parte mais conhecida de Mármores não descreve sentimento nenhum. Ele dá uma ordem, no imperativo, dirigida à musa, e a ordem é para não demonstrar sofrimento diante de assunto sofrido. A escolha resume o programa parnasiano inteiro em duas linhas e, sem querer, entrega o manual mais útil que existe para leitura pública.
A estrofe funciona porque separa o assunto do rosto de quem fala: o luto pode estar no texto, no semblante não, e é essa separação que permite ao ouvinte sentir o que a voz sustenta sem desabar junto. A contenção é técnica, não frieza.
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Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero luto jamais te afeie o cândido semblante!
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Francisca Júlia, versos de abertura do soneto Musa Impassível, publicado em Mármores, São Paulo, 1895.
Repare no verbo afeie. Ele descreve alteração de superfície, aquilo que a emoção faz aparecer no rosto, e não a emoção em si. A poeta não manda a musa deixar de sentir; manda não deixar transparecer. Uma leitura firme guarda a emoção inteira por baixo da voz, e quem lê em público precisa dessa reserva para chegar ao último verso.
Repare também na exclamação isolada no começo. Musa vem sozinha, com pausa própria, e a estrofe já começa chamando alguém pelo nome antes de mandar qualquer coisa. Numa sala, o efeito é imediato: a voz endereça, a plateia entende que a fala tem destinatário e presta atenção no que vem depois.
A estrofe cabe em oito segundos e não pede contexto histórico nenhum. Ela serve na abertura de leitura de poema difícil, na fala de quem precisa homenagear alguém sem se desmontar, e em qualquer momento em que a pessoa que segura o microfone esteja perto demais do assunto.
Também vale como preparação silenciosa. Quem repete a estrofe consigo antes de subir, em voz baixa, dá a si mesmo a instrução que a poeta deu à musa, e a mecânica de dizer a ordem no imperativo baixa a frequência da própria respiração.
Na hora de ler
Faça a pausa depois de Musa e não corra para o resto. A palavra sozinha estabelece o endereçamento, e a leitura corrida transforma o chamado em enfeite.
Suba um pouco o volume em jamais. A negação é o eixo da instrução, e sem ela a estrofe soa como pedido gentil, não como ordem.
Diga a ficha em uma frase. Soneto brasileiro de 1895 que manda a musa não deixar o sofrimento aparecer no rosto, escrito por uma poeta que a crítica só sabia elogiar por comparação com homens.
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II Pra Ler no Altar
O espanto que confessa em voz alta
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Numa cerimônia de casamento, a leitura mais escolhida afirma certeza: os dois se encontraram, a vida faz sentido, o amor é seguro. O problema aparece nos noivos, que na maioria das vezes estão nervosos e não se reconhecem em texto que fala com tanta segurança sobre o que eles estão sentindo naquela tarde.
A leitura que acerta a sala é a que confessa espanto e assume o ridículo de estar apaixonado, porque o casal reconhece o próprio estado e a plateia ri no lugar certo antes de se emocionar. O espanto assumido desarma a cerimônia.
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Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto...
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Olavo Bilac, primeiro quarteto do soneto XIII da série Via Láctea, publicado em Poesias, Rio de Janeiro, 1888.
O quarteto inteiro é uma resposta a uma acusação. Alguém, fora do poema, disse que quem fala está louco, e a estrofe não nega a acusação: ela detalha o comportamento louco com precisão doméstica, janela aberta, madrugada, rosto pálido. A defesa vem pela confissão.
A construção em diálogo ajuda a cerimônia. O poema já traz a plateia dentro dele, com o direis no primeiro verso, então quem lê em voz alta não precisa fingir que a sala não existe. A estrofe conversa com quem ouve desde a primeira palavra.
O quarteto também mede bem em tempo. São quatro decassílabos, cerca de quinze segundos, e sobra espaço para uma fala pessoal antes ou depois, sem alongar a cerimônia.
A origem: diga que o soneto é brasileiro, de 1888, e que ele responde a alguém que chamou o apaixonado de louco. Uma frase basta, e ela prepara a sala para o parêntese do primeiro verso.
O corte: com pouco tempo, leia só o quarteto, que fecha sozinho. Com espaço, leia o soneto inteiro, porque o último verso responde à acusação com uma explicação simples que arranca reação da sala.
A troca: apresente citando os noivos pelo primeiro nome e não mexa nos versos. A métrica é regular e qualquer palavra acrescentada desmonta a batida que sustenta o parêntese.
Na hora de ler
Diga o trecho entre parênteses em voz mais baixa. Ele é a fala do outro, e a mudança de altura deixa claro que a estrofe tem duas vozes.
Marque as reticências do quarto verso com dois segundos de silêncio. O espanto fica suspenso ali, e a pressa apaga o efeito inteiro.
Diga a ficha em uma frase. Soneto brasileiro do século dezenove em que o apaixonado é acusado de loucura e responde contando o que faz de madrugada.
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