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ED 050
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O Cristo de trancinhas que virou poema

A família de Mário de Andrade reprovou uma escultura de Brecheret, e ele respondeu com Inspiração, o poema que abre Pauliceia Desvairada.

Cabeça de Cristo em bronze com o cabelo em trancinhas, sobre uma mesa de casa paulista de 1920.

Barra Funda, 1920: o Cristo que a família reprovou

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São Paulo! comoção de minha vida... Mário de Andrade abriu com esse verso os poemas de Pauliceia Desvairada, livro de 1922, e ele resolve hoje o embaraço de quem ama a própria cidade e não acha palavra bonita para ela: o poeta chamou a cidade pelo nome próprio, com exclamação, e deixou a emoção vir na frase seguinte.

Mário Raul de Morais Andrade nasceu na cidade de São Paulo em 1893. Em 1920 tinha 27 anos, dava aulas de piano no Conservatório Dramático e Musical e morava com a mãe, a tia e os irmãos, numa casa de família católica e cuidadosa com dinheiro.

Naquele ano, ele e um grupo de jovens escritores descobriram o escultor Victor Brecheret, nascido na Itália em 1894, criado na capital paulista e recém-chegado de anos de estudo em Roma. Brecheret trabalhava numa sala cedida no prédio do Palácio das Indústrias, ainda em obras.

Mário se apaixonou por uma peça em especial, uma Cabeça de Cristo em que o cabelo cai em trancinhas finas. Comprou a escultura com dinheiro que não tinha, segundo ele mesmo contou, e levou para casa.

A família olhou a cabeça e reprovou. Um Cristo de trancinhas parecia desrespeito ao sagrado, e a compra parecia extravagância de moço que ganhava pouco. A discussão terminou com Mário sozinho no quarto, de cabeça quente.

Ali, pelo relato dele, os versos vieram em jorro, sem plano, e o verso inicial daquela noite virou a abertura do livro. Mário narrou a cena em 1942, na conferência O Movimento Modernista, lida no Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro, vinte anos depois da Semana de Arte Moderna.

Ele morreu em 1945, e a obra está em domínio público no Brasil desde 1º de janeiro de 2016. Os versos podem ir impressos num programa de sarau ou num convite sem pedir licença a herdeiro.

Três leituras saem desse poema curto: a primeira estrofe para um sarau, o verso das flores para um altar e o refrão da comoção para uma despedida.

A primeira parada é a estrofe inteira, com a epígrafe que Mário foi buscar num frade português.

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I  O Poema do Dia

A cidade chamada aos gritos

Num sarau, quem escolhe um poema sobre a própria cidade costuma cair no cartão-postal. Inspiração, de Mário de Andrade, soa como gente brigando com a cidade que ama, e a sala reconhece o tom.

Inspiração funciona para abrir uma roda de leitura porque cabe em menos de um minuto e quase todo verso termina em exclamação ou reticências. A pontuação já marca onde respirar.

Acima do poema, Mário pôs uma epígrafe (citação curta que abre um texto) de Frei Luís de Sousa, frade dominicano português que viveu de 1555 a 1632: onde até na força do verão havia tempestades de ventos e frios de crudelíssimo inverno. Crudelíssimo é o superlativo antigo de cruel.

São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original!...
Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!...

Mário de Andrade, Inspiração, primeira estrofe, Pauliceia Desvairada, São Paulo, 1922.

Arlequinal é palavra inventada por Mário, adjetivo de arlequim, o personagem da comédia italiana vestido de losangos coloridos. A cidade vira roupa de retalhos: cinza e ouro, luz e bruma.

Bruma é névoa fina, e na capital paulista ela tem apelido caseiro, garoa. Forno e inverno morno descreve o clima que vira no mesmo dia, calor pesado de manhã e frio fraco à tarde. A epígrafe do frade fala do mesmo tempo instável, três séculos antes.

Arys era uma casa de perfumes de Paris, vendida nas lojas finas da cidade. O Trianon era o terraço de chás e banquetes da Avenida Paulista, no terreno onde hoje fica o Museu de Arte de São Paulo, e as bofetadas líricas são as brigas de poeta travadas nas mesas dele.

Algodoal quer dizer plantação de algodão. O verso termina lembrando de onde vinha o dinheiro que pagava perfume francês: das lavouras e das fiações do interior. Numa estrofe de sete linhas, Mário juntou o luxo e a fonte dele, sem explicar a ligação.

Na hora de ler

Conte a história da Cabeça de Cristo em duas frases, sem enfeite. A plateia precisa saber que o poema nasceu de uma bronca em casa para ouvir a exclamação como desabafo.

Leia as reticências como respiração e as exclamações sem gritar. O volume sobe na intenção da voz, e a sala acompanha melhor do que acompanharia um berro.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Flores feitas de original

Num casamento, quem sobe ao altar procura um verso que diga que aquele amor não se parece com nenhum outro, e as frases prontas de cartão dizem justamente o contrário.

O segundo verso de Inspiração serve ao altar porque é uma declaração de gosto: o poeta avisa que só ama o que não é cópia. Cabe numa linha do convite.

Os meus amores são flores feitas de original!...

Mário de Andrade, Inspiração, segundo verso, Pauliceia Desvairada, São Paulo, 1922.

Original, no verso, é a peça única, a que não saiu de molde. Em 1920, as salas de visita paulistas se enchiam de santos de gesso tirados da mesma fôrma, e a cabeça de Brecheret era o avesso disso: um Cristo que nenhum santeiro da cidade faria.

Mário quis a escultura mesmo sem dinheiro e pagou o gosto com a reprovação da família. O verso das flores guarda essa escolha. Amar o original, para ele, era bancar a peça que a sala de jantar achava estranha.

No altar, o verso diz o mesmo dos noivos. Eles se escolheram por um gosto próprio, e quem assiste não precisa entender a escolha para respeitá-la.

O plural também trabalha. Os amores de Mário eram a cidade, os amigos e a arte nova; num casamento, o plural cabe à família que o casal começa a formar ali.

A escultura ficou com Mário pelos 25 anos seguintes. Hoje está no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, com o resto da coleção de arte que ele juntou.

A origem: diga que o verso é de 1922 e que o poeta escreveu depois de defender uma escultura contra a própria família. A data e a cena explicam a palavra original.

O corte: leia só este verso, com uma frase de ligação antes: ele amava o que ninguém mais tinha. O resto da estrofe fala de clima e de perfume, e pede um contexto que a cerimônia não tem.

O cuidado: não troque original por único. A palavra de Mário é mais rara no ouvido, e a raridade prende a sala.

Na hora de ler

Faça a pausa depois de flores. Feitas de original precisa chegar como surpresa, porque ninguém espera flor fabricada num verso de amor.

Olhe para o casal nas reticências do fim. O verso não termina, fica aberto, e o silêncio de dois segundos completa a frase.

 

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III  Pra Dizer Adeus

A comoção que volta

Numa despedida, quem fala de alguém que viveu a cidade inteira procura um jeito de devolver a pessoa ao lugar dela, e o refrão de Mário faz essa volta sem lamento.

O refrão de Inspiração serve ao adeus porque o poema diz a mesma linha duas vezes, e na segunda ela chega mais cansada e mais funda.

São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!

Mário de Andrade, Inspiração, segunda estrofe, Pauliceia Desvairada, São Paulo, 1922.

Comoção é abalo, emoção forte que mexe com o corpo. Mário não diz que a cidade é bonita; diz que ela o sacode, e repete a frase como quem chama alguém que não responde.

Galicismo é a palavra ou o jeito de falar copiado do francês. A cidade que imitava Paris aparece gritando num continente que ainda não a escutava. Mário escreve o verso como carinho bravo, o jeito de quem xinga o que ama.

A família reprovou a escultura, mas a peça ficou em casa. O relato de 1942 não conta se a mãe e a tia mudaram de ideia; conta só que a cabeça continuou na sala e que o livro saiu dois anos depois.

Mário também ficou na cidade. Viveu desde 1921 no sobrado da Rua Lopes Chaves, na Barra Funda, e ali morreu em 25 de fevereiro de 1945, aos 51 anos. A casa virou a Casa Mário de Andrade, museu aberto a visitas, com oficinas de escrita e leitura durante o ano.

Para uma despedida, a troca é simples. Onde o poema diz São Paulo, a família pode dizer a cidade de quem partiu, e o refrão passa a chamar o lugar que foi a comoção daquela vida.

Na hora de ler

Leia a primeira linha mais baixo do que na abertura do poema. O refrão volta, e a voz que o repete já perdeu alguém.

Pare depois da primeira linha e só então leia o galicismo. Se a família preferir, termine no refrão e deixe o segundo verso de fora.

“Que cidade você chamaria de comoção da sua vida?”

Ele tinha 27 anos.

 
 
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Onde Victor Brecheret tinha um ateliê cedido, ainda em obras, quando Mário de Andrade se apaixonou pela Cabeça de Cristo?

ANo Conservatório Dramático e Musical, onde Mário dava aulas de piano
BNo Palácio das Indústrias, em São Paulo
CNo Museu de Arte de São Paulo, na Avenida Paulista
DNo Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro

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