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O corvo que Machado de Assis ensinou a dizer nunca mais
Em 1883, Machado traduziu O Corvo de Edgar Allan Poe e trocou o nevermore de 1845 por um refrão que rima com saudades imortais.
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Rio, 1883: o corvo pousa no busto de Palas
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Nunca mais, nunca mais! Machado de Assis fechou assim, em 1883, a versão brasileira de O Corvo, e a repetição explica por que um poema americano de 1845 ainda assombra quem o lê em voz alta.
Edgar Allan Poe publicou The Raven (O Corvo) em 29 de janeiro de 1845, no jornal Evening Mirror, de Nova York. Tinha 36 anos, pouco dinheiro e a mulher doente em casa.
O enredo cabe numa noite. Um estudante lê livros velhos para esquecer Lenora, a amada perdida. À meia-noite de dezembro, ouve batidas na porta do quarto. Abre e encontra só escuro.
As batidas voltam, agora na janela. Entra um corvo, pousa no busto de Palas Atena, a deusa grega da sabedoria, posto em cima da porta, e responde a cada pergunta com a mesma palavra: nevermore (nunca mais).
O homem começa brincando com a ave. Depois pergunta se haverá consolo, se vai reencontrar Lenora no céu. A resposta não muda. A brincadeira vira desespero, e o desespero vira ordem para o pássaro ir embora. Ele fica.
O poema correu os Estados Unidos em poucas semanas, reimpresso em outros jornais e recitado em salões. Nas ruas de Nova York, Poe passou a ser apontado como o homem do corvo.
Em 1846, ele contou o método num ensaio, A Filosofia da Composição. Escreveu que buscou um refrão de uma palavra só, com o o longo e o r sonoro, e que pensou primeiro num papagaio, trocado depois pelo corvo, ave de mau agouro.
Trinta e oito anos depois, no Rio de Janeiro, Machado de Assis, já autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, decidiu trazer a ave para o português. Teve que resolver o refrão: nevermore tem três sílabas e termina fechado; nunca mais tem quatro e termina aberto.
A solução dele aparece na primeira estrofe abaixo, a da noite de dezembro, quando o corvo ainda não bateu.
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I O Poema do Dia
Era no glacial dezembro
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Num sarau, O Corvo pede uma sala escura e uma voz só. A estrofe que Machado de Assis escreveu para Lenora é a melhor porta: mostra o homem antes de a ave chegar.
A estrofe serve para abrir uma leitura porque apresenta a dor sem nomear o pássaro, e a sala entra no quarto antes da primeira batida.
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Ah! bem me lembro! bem me lembro! Era no glacial dezembro; Cada brasa do lar sobre o chão refletia A sua última agonia. Eu, ansioso pelo sol, buscava Sacar daqueles livros que estudava Repouso (em vão!) à dor esmagadora Destas saudades imortais Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora, E que ninguém chamará mais.
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Edgar Allan Poe, O Corvo, 1845, na tradução de Machado de Assis, 1883.
Machado mudou a forma do poema. Poe escreveu 18 estrofes de seis versos longos, com rima interna (rima no meio do verso). Machado fez estrofes de dez versos, alternando linhas curtas e longas.
A mudança tinha motivo. O verso de Poe é comprido, quase uma frase inteira de conversa, e o português pesa mais em cada palavra. Machado partiu a frase em pedaços menores e pôs a música nas rimas emparelhadas: lembro com dezembro, buscava com estudava.
O refrão também ganhou trabalho. Antes de a ave falar, as estrofes de Machado terminam em palavras com -ais: imortais, mais, tais. Quando o corvo abre o bico, a rima já está pronta, e o nunca mais chega como se o ouvido esperasse por ele.
Lenora aparece aqui pela primeira vez. Ela não fala, não tem rosto descrito e nunca entra no quarto. Existe só na saudade do estudante, e o nome dela fecha a estrofe como um sino.
Machado não foi o primeiro a levar o poema para outra língua. Charles Baudelaire tinha publicado O Corvo em prosa francesa em 1853, e a versão dele era a porta de entrada de muitos leitores brasileiros. Machado escolheu o verso.
Fernando Pessoa fez outra tradução em 1924, para a revista Athena, de Lisboa, presa ao ritmo do original. As duas versões circulam até agora, e as duas estão em domínio público.
Na hora de ler
Apague parte das luzes. Comece pelo dezembro e pelas brasas, devagar.
Pare depois de Lenora. A sala ainda não sabe que vem um corvo.
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II Pra Ler no Altar
Num reino à beira-mar
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Num casamento, o poema certo de Edgar Allan Poe é o último que ele escreveu: Annabel Lee, sobre um amor tão grande que, segundo o próprio verso, os anjos do céu tiveram inveja dele.
A estrofe serve ao altar porque diz, em seis versos, que duas pessoas viviam sem outro pensamento além de amar e ser amadas.
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It was many and many a year ago, In a kingdom by the sea, That a maiden there lived whom you may know By the name of Annabel Lee; And this maiden she lived with no other thought Than to love and be loved by me.
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Edgar Allan Poe, Annabel Lee, 1849.
Em prosa: foi há muitos e muitos anos, num reino à beira-mar, que viveu uma moça que talvez conheças pelo nome de Annabel Lee; e essa moça vivia sem outro pensamento que amar e ser amada por mim.
Poe casou em 1836 com Virginia Clemm, prima dele, em Richmond, na Virgínia. Ela tinha 13 anos; ele, 27. Os amigos contavam que a casa vivia pobre e cheia de música, com Virginia ao piano.
Em 1842, ela cantava quando tossiu sangue. Era tuberculose. Viveu mais cinco anos, doente, e partiu em janeiro de 1847, aos 24. Poe escreveu O Corvo com a mulher já doente em casa.
Os leitores de Poe enxergam a mesma perda em Lenora e em Annabel Lee. A primeira é a amada que o estudante chora num quarto fechado; a segunda, a moça levada por um vento frio, num reino junto ao mar.
Annabel Lee saiu no jornal New York Tribune em 9 de outubro de 1849, dois dias depois da morte do autor. Poe deixou o poema pronto e não chegou a vê-lo impresso.
A origem: diga que o poema é o último de Poe, escrito para uma mulher que ele perdeu.
O corte: leia só a primeira estrofe. As seguintes falam da morte da moça, e o altar pede o começo da história.
A língua: se a sala não fala inglês, leia primeiro a versão em prosa e depois o original, como assinatura.
O ritmo: os versos alternam longo e curto, como onda. Pede voz que sobe e desce, sem pressa.
Na hora de ler
Faça pausa depois de by the sea. O lugar fica no ar antes de a moça aparecer.
Olhe para os noivos no último verso, quando o poema diz amar e ser amado.
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