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ED 019

O cântico que um pai escreveu para um berço vazio

Aos vinte e dois anos, com o filho de três meses enterrado em dezembro de 1863, ele escreveu o maior poema de luto da língua.

Um berço vazio ao lado de uma mesa com papéis e vela acesa, numa casa de fazenda brasileira em 1863.

Dezembro de 1863, o luto vira cântico

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Em 11 de dezembro de 1863, numa casa do interior fluminense, um menino de três meses de idade parou de respirar. O pai tinha vinte e dois anos, uma companheira que a família não aceitava, uma vida de estudante interrompida e nenhuma profissão em pé.

O menino se chamava Emiliano. Tinha nascido em setembro, e o pai passou o outono inteiro escrevendo sobre o berço, no sentido literal: sentava ao lado dele de madrugada e trocava o sono pelo caderno.

O que existe do menino hoje cabe em duas linhas de registro paroquial e num poema que a língua portuguesa não conseguiu mais esquecer.

O poema se chama Cântico do Calvário e abre com uma dedicatória seca, à memória de meu filho, morto a 11 de dezembro de 1863. Não é epígrafe literária nem homenagem posterior. É a data do enterro impressa antes do primeiro verso, como quem coloca a certidão em cima da mesa e só depois começa a falar.

O texto foi reunido dois anos mais tarde no livro Cantos e Fantasias, publicado em 1865, dentro da seção que o autor batizou de Livro das Sombras.

O tamanho impressiona antes do conteúdo. São mais de cento e cinquenta versos sem rima, escritos numa medida que o poeta usa como quem fala em voz alta, e a peça inteira é dirigida a uma segunda pessoa que não pode responder.

Poema de luto costuma falar sobre o morto. Este fala com ele, do primeiro verso ao último, e essa escolha de destinatário é o que mantém o texto de pé cento e sessenta anos depois.

O pai não teve muito tempo para conferir se a dor passava. Ele mesmo se foi treze anos depois do filho, aos trinta e cinco, e Cântico do Calvário permaneceu como a peça mais lida de uma obra que tem dezenas de livros.

O que vem agora são três leituras deste poema. Primeiro a mecânica da abertura, que é uma aula de como se constrói perda numa página só. Depois um trecho que serve numa cerimônia de casamento, por mais improvável que pareça vindo de um poema de luto. E por fim a estrofe final, para uma despedida.

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I  O Poema do Dia

Cinco vezes a palavra eras

O poema não começa por uma cena nem por uma data. Começa por um verbo no passado, repetido no início de linhas seguidas, montando uma lista do que o menino representava enquanto estava vivo.

Toda a força da abertura vem de um tempo verbal: nada é dito no presente, e o leitor entende a perda pela gramática antes de entender pelo assunto. Não há uma palavra de aviso, e ainda assim a notícia já foi dada.

Os versos são decassílabos brancos, sem rima. É a medida do teatro e da epopeia, a mesma de Camões, e ela dá ao lamento um andamento de discurso em vez de canção.

Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, a inspiração, a pátria,
O porvir de teu pai!

Fagundes Varela, Cântico do Calvário, versos de abertura, no livro Cantos e Fantasias, Rio de Janeiro, 1865.

Repare que cada imagem sobe um degrau. Pomba, estrela, colheita, idílio, glória, pátria, futuro: começa num bicho pequeno na palma da mão e termina no destino de um homem inteiro.

A escada é proposital. Um menino de três meses não tinha feito nada ainda, então o pai não descreve feitos, descreve promessas, e promessa é a única coisa que uma criança dessa idade acumula.

Logo depois da lista o poema desmonta cada item na mesma ordem em que os montou. A pomba leva a flecha, o astro é engolido pelo temporal, o teto desaba, a crença deixa de viver.

É uma estrutura de espelho. O leitor recebe a construção completa e assiste à demolição peça por peça, e a demolição dói mais porque ele já sabe de cor o que estava ali.

Na hora de ler

Não corra nas cinco repetições. Cada linha que começa em eras é um item de lista, e lista dita depressa vira enumeração de nota fiscal.

Segure a pausa depois do ponto final em ramo da esperança. O corte no meio do verso é do próprio poeta e serve para dividir a respiração da estrofe.

Suba o volume só na última linha da lista. O porvir de teu pai é o topo da escada, e escada lida em tom único apaga o desenho inteiro.

Baixe a voz na demolição. Os versos que desmontam as imagens funcionam ditos quase em voz de conversa, e o contraste faz o trabalho sozinho.

Diga a ficha antes de começar. Uma frase resolve: Fagundes Varela, poema Cântico do Calvário, do livro Cantos e Fantasias, de 1865.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Os quatro versos que chamam a aliança de luz

Existe um trecho no meio deste poema de luto que fala de aliança, arco-íris e harmonia, e que funciona numa cerimônia melhor do que noventa por cento dos textos escritos para casamento.

A passagem descreve o que a chegada de alguém fez com uma vida que estava no escuro, e é exatamente essa a promessa que duas pessoas fazem uma à outra no altar. O poema fala de um filho, e a sala ouve a definição de um encontro.

O trecho vem depois de o poeta descrever a própria vida como exílio, o que dá à imagem da luz um antes concreto em vez de elogio solto.

Que belos sonhos! Que ilusões benditas!
Do cantor infeliz lançaste à vida,
Arco-íris de amor! Luz da aliança,
Calma e fulgente em meio da tormenta!
Do exílio escuro a cítara chorosa
Surgiu de novo e às virações errantes
Lançou dilúvios de harmonia! O gozo
Ao pranto sucedeu.

Fagundes Varela, Cântico do Calvário, trecho central, no livro Cantos e Fantasias, Rio de Janeiro, 1865.

A expressão luz da aliança carrega dois sentidos ao mesmo tempo, o pacto bíblico do arco-íris depois do dilúvio e o anel que os noivos trocam. Numa cerimônia, a coincidência trabalha a favor de quem lê.

As quatro primeiras linhas bastam para um brinde. Elas dizem que a chegada de alguém reorganizou uma vida inteira sem prometer nada sobre o futuro, e é uma coisa que os presentes conseguem testemunhar.

A origem: não anuncie que o poema é de luto antes de ler. Diga o nome do autor, o livro e o ano, leia o trecho, e conte a origem depois, se alguém perguntar.

O corte: para cerimônia curta, comece em arco-íris de amor e pare em em meio da tormenta. São duas linhas e meia, cabem em doze segundos e não perdem nada.

Na hora de ler

Marque as duas exclamações da primeira linha. Que belos sonhos e que ilusões benditas são dois blocos, e ler os dois em fôlego único derruba a abertura.

Diga arco íris de amor devagar e luz da aliança mais devagar ainda. É o centro do trecho, e a sala precisa de meio segundo para ouvir a palavra aliança.

Não force a palavra cítara. Se travar, troque a frase toda por uma explicação em prosa antes de ler, e comece o verso em surgiu de novo.

Pronuncie dilúvios de harmonia com a voz subindo. É o ápice, e depois dele vem uma frase curta que serve de pouso.

Diga quem assina e de quando é. Uma frase resolve: Fagundes Varela, poema Cântico do Calvário, do livro Cantos e Fantasias, de 1865.

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III  Pra Dizer Adeus

A escada que o poema deixa no fim

A despedida de uma criança é a única em que o consolo de vida bem vivida não existe. Não há carreira para elogiar, nem histórias para contar, nem fotos suficientes, e quase todo texto de conforto disponível pressupõe as três coisas.

O fim deste poema resolve o problema de um jeito raro. Em vez de falar do que a criança foi, o pai vira o texto para cima e transforma o destinatário em ponto de orientação para quem ficou.

As últimas linhas não pedem descanso para quem partiu, pedem direção para quem continua, e é uma diferença que muda o clima da sala inteira. Quem lê não está entregando alguém, está pedindo ajuda em voz alta.

Mas não! Tu dormes no infinito seio
Do Criador dos seres! Tu me falas
Na voz dos ventos, no chorar das aves,
Talvez das ondas no respiro fébil!
Tu me contemplas lá do céu, quem sabe,
No vulto solitário de uma estrela.
Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho!
Brilha e fulgura no azulado manto,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minha alma.

Fagundes Varela, Cântico do Calvário, versos finais, no livro Cantos e Fantasias, Rio de Janeiro, 1865.

O mas não da primeira linha é o giro do poema. Depois de mais de cem versos de perda, o texto se interrompe a si mesmo e escolhe outra saída, e ler esse mas não em voz alta é dar permissão para a sala respirar.

A escada de Jacó é a imagem do sonho bíblico em que anjos sobem e descem entre a terra e o céu. Aqui ela deixa de ser visão e vira uso prático: o pai promete usar aquela luz como degrau quando for a vez dele.

Por isso o trecho cai bem lido por um avô ou por um tio, e não pelos pais. Ele coloca quem lê na posição de quem vai continuar andando, e é um papel que a família estendida consegue assumir naquele dia.

O trecho: para falar em voz alta, use as dez linhas inteiras, que levam cerca de quarenta segundos. Para o cartão das flores, use apenas as duas últimas.

A linha de apresentação: diga quem assina e de quando é, e diga que o poema foi escrito por um pai. A informação prepara a sala sem que ninguém precise explicar o resto.

A palavra que não se troca: talvez. Está no meio do trecho para marcar que o poeta não tem certeza de nada, e trocá-la por certamente transforma o verso numa promessa que ninguém pode cumprir.

E vale guardar o dado que costura a leitura. O poema mais consolador que a língua tem sobre a perda de um filho foi escrito por um rapaz de vinte e dois anos que ainda não tinha aprendido a se consolar de nada.

“Que texto você guardaria para dizer o que não consegue falar?”

 
 
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