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O caderno que saiu do mosteiro da Bahia
Ele entrou aos dezoito anos no convento beneditino, saiu três anos depois e publicou em 1855 os versos escritos dentro da cela.
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Bahia, 1855: os versos escritos na cela
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Cantei o monge, porque é escravo, não da cruz, mas da vontade de outro homem. Junqueira Freire escreveu essa frase no prólogo das Inspirações do Claustro, em 1855, e ela é a razão pela qual um livro de assunto religioso continua sendo lido por gente que não entra em igreja.
O autor da frase tinha entrado no mosteiro de São Bento da Bahia aos dezoito anos. Não foi levado por família nem por dívida. Foi por decisão própria, no fim da adolescência, com a ideia de que a clausura resolveria de uma vez o que a cabeça dele fazia com o mundo.
A clausura não resolveu. O regime beneditino da Bahia daquela década era de horário fixo, silêncio administrado e obediência a um superior humano, com nome e sobrenome. O rapaz descobriu que a regra da casa e a experiência de Deus eram duas administrações diferentes, e que só uma delas o tinha por dentro do muro.
Ficou três anos. Saiu doente, com o corpo já em falha e a cabeça cheia de papel escrito. Voltou para a vida comum de Salvador levando um caderno de poemas feitos dentro do convento, sobre freiras, monges, apóstatas, altares e enterros, com um tipo de raiva que nenhum poeta brasileiro tinha impresso ainda naquele registro.
O livro saiu em 1855, com o título Inspirações do Claustro, e o autor morreu no mesmo ano da publicação. Não houve tempo de segunda edição, de resposta à crítica, de correção de prova. Ficou um volume só, escrito por um homem que passou a juventude inteira entre a decisão de entrar e a doença de sair.
A edição de hoje leva três textos para três situações práticas. Um poema de altar que serve para falar de perda sem citar ninguém, um soneto de casamento que resolve a promessa de espera com uma história antiga, e uma estrofe de despedida que cabe num velório sem obrigar a sala a chorar na hora marcada.
Começa por um poema em que a mesma expressão volta seis vezes seguidas no início do verso, e a repetição é o argumento inteiro.
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I O Poema do Dia
A flor que já estava murcha
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O poema abre com uma constatação de duas palavras e passa a estrofe inteira repetindo essas duas palavras. Não há introdução, não há cenário, não há explicação de quem fala. Existe uma flor no altar, ela já secou, e o texto trata a secagem como prova de uma lei geral.
A repetição no começo do verso é um recurso antigo de púlpito, e o autor conhecia bem o púlpito. Quem passou três anos ouvindo sermão e cantando ofício aprende que a insistência de uma fórmula é o que faz uma ideia entrar em quem escuta, mesmo quem escuta distraído.
A força do poema está em usar uma flor de altar, objeto pequeno e barato, para dizer a mesma frase que um sermão levaria vinte minutos para armar: tudo que dá prazer é rápido e tudo que dói é longo, e a prova está ali na jarra, sem precisar de metafísica. A economia é o efeito.
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Assim um'hora de gosto Mil horas de dores traz: Assim o dia desmancha Os sonhos que a noite faz.
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Junqueira Freire, trecho do poema A flor murcha do altar, das Inspirações do Claustro, publicadas em 1855.
Repare no contraste de números dos dois primeiros versos. Uma hora contra mil horas. A conta é grosseira de propósito, porque a desproporção precisa ser sentida no ouvido antes de ser entendida na cabeça, e nenhum adjetivo faria o mesmo serviço.
Repare também no verbo desmancha. O dia não destrói o sonho, não apaga, não nega. Desmancha, que é o que se faz com costura malfeita e com massa de bolo. O poeta escolheu um verbo doméstico para tratar de perda, e ele soa mais verdadeiro do que qualquer palavra grave.
A quarta linha inverte a ordem esperada. O normal seria dizer que a noite desmancha o que o dia fez. Ele diz o contrário, porque quem escreve trancado passa a noite planejando e a manhã descobrindo que o plano não sobrevive ao ofício das seis.
Na hora de ler
Não acelere a fórmula que se repete. Cada volta precisa do mesmo peso da anterior, porque o efeito é de martelo, e martelo que apressa vira barulho de gaveta.
Marque a pausa dos dois pontos no segundo verso. Ali o poema muda de exemplo, e o ouvinte precisa desse respiro para acompanhar a lista sem se perder.
Diga a ficha em uma frase. Trecho de um poema brasileiro de 1855, escrito por um noviço dentro de um mosteiro da Bahia.
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II Pra Ler no Altar
Os sete anos que Jacó serviu
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Numa cerimônia de casamento, o texto que promete amor infinito costuma soar como contrato. Ele afirma muito e mostra pouco, e a sala escuta a promessa sem ter nenhuma imagem para segurar enquanto o oficiante espera o fim da leitura.
A leitura que funciona no altar conta uma história de espera cumprida com prazo, trabalho e nome próprio, porque quem escuta guarda o número de anos e o nome do apaixonado, e não guarda adjetivo nenhum sobre a grandeza do sentimento. A narrativa faz o serviço que a promessa não faz.
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Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; mas não servia ao pai, servia a ela, e a ela só por prêmio pretendia.
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Luís de Camões, primeira estrofe do soneto Sete anos de pastor Jacob servia, das Rimas publicadas em Lisboa em 1595.
O primeiro verso entrega ofício, prazo e personagem em oito palavras. Pastor, sete anos, Jacó. Quem ouve já sabe que vai acompanhar alguém trabalhando de graça por um motivo, e a curiosidade se instala antes do segundo verso.
O terceiro verso é o giro do soneto e a razão de ele funcionar em casamento. A correção pública, servia a ela e não ao pai, transforma a obrigação de trabalho em escolha pessoal, e é exatamente essa troca que dois noivos estão fazendo diante da sala.
A palavra prêmio no quarto verso merece atenção. Ela é palavra de contrato, de disputa, de pagamento por serviço prestado, e Camões a coloca no lugar onde qualquer poeta menor teria posto amor. A escolha mantém o soneto seco e evita o açúcar que estraga leitura de cerimônia.
A origem: diga em uma frase que a história vem do livro do Gênesis e que o poeta português a colocou em soneto no século dezesseis, e pare por aí, porque a plateia não precisa da genealogia bíblica completa.
O corte: com pouco tempo, leia só a primeira estrofe, que já entrega prazo, trabalho e escolha. Com espaço, leia o soneto inteiro, porque a segunda metade dobra o prazo e melhora o final.
A troca: para personalizar sem tocar na métrica, diga o nome dos noivos na frase de apresentação e deixe o poema como está, com Jacó e Raquel intactos.
Na hora de ler
Segure o ritmo no primeiro verso. Ele carrega a informação toda e é o único momento em que a sala precisa prestar atenção em número.
Faça a virada do terceiro verso com voz de correção, não de descoberta. O poeta está desfazendo um mal-entendido, e a leitura melhora quando a voz sabe disso desde o começo.
Diga a ficha em uma frase. Soneto português do século dezesseis sobre um homem que trabalhou sete anos para ficar com quem queria.
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