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Poesia do Dia   Poesia do Dia
ED 011

O caderno Dhálias voltou do Rio com outro nome

Uma poeta de vinte e três anos em Natal mandou os originais a Olavo Bilac, e os mil exemplares do livro acabaram em dois meses.

Um caderno de poemas escrito a lápis sobre a mesa de uma casa em Natal, em 1900.

Natal, 1900, os originais de Horto

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Em 1897, numa casa de Natal, uma moça juntou num caderno os poemas que vinha publicando nos jornais do Rio Grande do Norte e escreveu na capa um nome de flor: Dhálias. Ela escrevia a lápis, deitada numa chaise longue, porque a tuberculose já não deixava passar o dia inteiro de pé.

O caderno não ficou na gaveta. Henrique Castriciano, irmão dela, insistiu que os originais atravessassem o país e chegassem às mãos de um amigo dele no Rio de Janeiro, Olavo Bilac, o poeta mais celebrado do Brasil naquela virada de século. Outro irmão, Elói de Sousa, levou o volume.

Bilac leu e aceitou escrever o prefácio. Assinou embaixo: Rio, outubro de 99.

Avisa logo na abertura que não achou ali a joalheria de um parnasiano, e sim um livro de uma tão simples e ingênua sinceridade que surpreende e encanta. Chega a citar um ourives em francês só para dizer o que o livro não é.

E fez uma coisa que autor nenhum costuma deixar acontecer. Batizou o prefácio com o título de um dos poemas do caderno, e o volume inteiro foi junto. As dálias sumiram da capa, e o livro chegou às livrarias chamado Horto.

A impressão ficou pronta em 20 de junho de 1900, em Natal, na Tipografia d'A República, dentro da Biblioteca do Grêmio Polimático. São 232 páginas e 114 poemas. A tiragem foi de mil exemplares.

Em dois meses não havia mais exemplar para vender. A crítica do Rio elogiou, os intelectuais leram com pressa, e a autora, que tinha vinte e três anos quando os originais saíram de casa, ainda estava viva para acompanhar a corrida.

A seguir vêm a moça que escreveu o caderno, o poema que rebatizou o volume e as palavras dele que pedem tradução antes de qualquer leitura em voz alta.

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I  O Poema do Dia

A moça de Macaíba que escrevia a lápis

Órfã de pai e mãe antes dos cinco anos, criada pela avó e educada por freiras francesas em Pernambuco. Veja quem ela foi e o poema que rebatizou o livro.

Auta Henriqueta de Souza nasceu em Macaíba, no Rio Grande do Norte, em 12 de setembro de 1876. A mãe morreu de tuberculose quando ela tinha três anos, e o pai foi no ano seguinte, da mesma doença.

Quem criou os irmãos foi a avó. Auta estudou no colégio São Vicente de Paula, em Pernambuco, sob direção de religiosas francesas, e saiu de lá com francês, inglês e noções de música e de desenho.

Aos catorze anos apareceram os primeiros sintomas da tuberculose. Antes dos sintomas ela já tinha assistido, numa noite dentro de casa, a um irmão ser tomado pelas chamas.

O poema que abre o livro é o que deu nome a ele. Horto é o pomar cercado por muro, e é também o nome do lugar onde Jesus rezou na véspera da prisão, o Horto das Oliveiras.

A epígrafe vem do Evangelho da Paixão, a frase dita aos discípulos naquela noite: minha alma está triste até a morte, ficai aqui e velai comigo.

O desenho se repete do começo ao fim. Uma quadra de quatro versos, um dístico de dois que funciona como refrão, outra quadra, outro dístico.

E o poema é um diálogo. Ela fala primeiro, com medo. Jesus responde.

Oro de joelhos, Senhor, na terra
Purificada pelo teu pranto...
Minh'alma triste que a dor aterra
Beija os teus passos, Cordeiro santo!
 
Eu tenho medo de tanto horror...
Reza comigo, doce Senhor!
 
Filha adorada que o teu gemido
Ergueste na asa de uma oração,
Na treva escura sempre envolvido
Por que soluça teu coração?
 
Levanta os olhos para o meu rosto
Que à vista dele foge o Desgosto.
 
Não tenhas medo do sofrimento,
Ele é a escada do Paraíso...
Contempla os astros do Firmamento,
Doces reflexos de meu sorriso.

Auta de Souza, trechos de No Horto, poema de abertura do livro Horto, Natal, 1900.

A grafia está atualizada aqui. Na edição de 1900 se lia commigo com dois emes, soffrimento com dois efes e Paraiso sem acento. Nenhuma palavra mudou de lugar.

Três trechos pedem tradução antes da leitura. Aterra é aterroriza, do verbo aterrar; ergueste na asa de uma oração é mandar o gemido para cima montado numa reza; Desgosto vem com maiúscula porque no original é personagem, não sentimento.

Em voz alta, as duas partes levam cerca de cinquenta segundos. As reticências mandam no ritmo, e cada uma pede pausa maior que a da vírgula.

A linha de apresentação cabe numa frase: Auta de Souza, No Horto, do livro Horto, de 1900. Diga o nome, o livro e o ano, espere um segundo e comece.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Os versos que embalam um berço

Quinze quadras de sete sílabas escritas para serem cantadas, e uma dedicatória que diz para quem e para quê. Quatro delas bastam dentro da igreja, e nenhuma fala de despedida.

A ocasião é o batizado. Serve também na apresentação da criança à comunidade, na missa de ação de graças pelo nascimento e no primeiro aniversário rezado na paróquia.

O poema se chama Ao Pé de um Berço e traz dedicatória a Leopoldina Monteiro, com um recado entre parênteses da própria autora: pensei em ti escrevendo estes versos, quero que os cantes embalando o teu Milton.

E não ficou naquele berço. Na nota da edição de 1910, Henrique Castriciano conta que o povo se apoderou dos versos da irmã e passou a repeti-los ao pé dos berços, nos lares pobres e até nas igrejas, na forma de benditos anônimos.

Dorme, dorme, pequenino
Encanto de meu amor;
Que o sono doce e divino
Cerre-te as folhas, ó flor!
 
Meu coração é um ramo
Onde teci o teu ninho;
Dorme nele, gaturamo,
Ó sonho branco de arminho!
 
Dorme, santinho, as estrelas
Virão cobrir-te com um véu;
Não chores se queres vê-las
Fazer de teu berço um céu.
 
Olha, meu santo, Jesus,
Que tanto amava os meninos,
Vela sorrindo da Cruz
O sono dos pequeninos.

Auta de Souza, quatro quadras de Ao Pé de um Berço, no livro Horto, Natal, 1900.

Duas palavras param a leitura. Gaturamo é um passarinho pequeno e comum no Brasil; arminho é a pele branca dos mantos de cerimônia, que virou sinônimo de brancura sem mancha.

Onde parar: em o sono dos pequeninos. A quadra fecha com Jesus velando da cruz, que é a imagem que uma igreja cheia recebe bem.

A última quadra do poema não serve para o dia. Nela a autora diz que, na vida sem esperança, há de chorar pela criança. É uma frase dela sobre a própria doença, e num batizado muda a cena da sala inteira.

Na hora de ler

Diga antes de quem é e de quando é. Uma frase resolve: Auta de Souza, Ao Pé de um Berço, do livro Horto, de 1900.

Não encaixe o nome do bebê dentro do verso. A quadra tem sete sílabas contadas, e o nome estoura a conta e entrega a emenda na hora.

Se souber cantar, cante. O texto foi feito para acalanto, tem rima alternada e aguenta melodia simples sem virar apresentação musical.

Quatro quadras levam cerca de trinta e cinco segundos. Pare no fim de cada uma, que é onde a rima fecha.

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III  Pra Dizer Adeus

O soneto que ela deixou para a própria lousa

O mesmo livro traz um soneto escrito para ser lido de pé, diante de uma sepultura. O título diz o lugar: Ao Pé do Túmulo. A dedicatória diz para quem: aos meus.

Os dois quartetos falam de descanso. Os dois tercetos dão uma instrução, e a instrução é uma frase pronta para gravar na pedra.

Eis o descanso eterno, o doce abrigo
Das almas tristes e despedaçadas;
Eis o repouso, enfim; e o sono amigo
Já vem cerrar-me as pálpebras cansadas.
 
Amarguras da terra! eu me desligo
Para sempre de vós... Almas amadas
Que soluçais por mim, eu vos bendigo,
Ó almas de minh'alma abençoadas.
 
Quando eu daqui me for, anjos da guarda,
Quando vier a morte que não tarda
Roubar-me a vida para nunca mais...
 
Em pranto escrevam sobre a minha lousa:
“Longe da mágoa, enfim, no céu repousa
Quem sofreu muito e quem amou demais”.

Auta de Souza, Ao Pé do Túmulo, no livro Horto, Natal, 1900.

Lousa é a pedra que cobre a sepultura, e bendigo é abençoo. O resto do soneto se lê sem tradução.

Em 1951, meio século depois, a Academia Norte-Riograndense de Letras mandou fazer uma lápide para a autora com esses dois últimos versos. A proposta foi de Paulo Pinheiro Viveiros, presidente da casa naquele ano. O pedido de catorze linhas virou pedra de verdade.

O trecho: para falar em voz alta na cerimônia, leia os dois tercetos inteiros, de Quando eu daqui me for até amou demais. Para o cartão que acompanha as flores, use só as duas últimas linhas.

A linha de apresentação: diga quem assina e de quando é. Uma frase resolve: Auta de Souza, Ao Pé do Túmulo, do livro Horto, publicado em 1900.

A palavra que não se troca: demais, na última linha. O peso da frase está no exagero, e trocar demais por muito deixa a despedida morna.

Um cuidado com a sala. O soneto fala em amarguras da terra e em almas despedaçadas, e numa despedida de vida longa e tranquila a apresentação precisa dizer que a autora escreveu doente, aos vinte e poucos anos.

Para uma cerimônia mais leve existe outra saída, na edição ampliada de 1910. A última coisa que ela escreveu tem data, janeiro de 1901, e responde com uma pomba.

Lá vai a pomba voando
Livre, através dos espaços...
Sacode as asas cantando:
“Quebrei meus laços!”
 
Aqui, na amplidão liberta,
Quem pode deter-me os passos?
Deixei a prisão deserta,
Quebrei meus laços!

Auta de Souza, duas quadras de Fio Partido, escrito em janeiro de 1901 e recolhido na segunda edição do Horto, Paris, 1910.

A pomba não descreve a partida, descreve o fim de uma prisão. Serve para quem passou anos doente.

Um caderno de flores que saiu de Natal com um nome e voltou do Rio com outro, mil exemplares que acabaram em dois meses e um pedido de catorze linhas que a terra dela levou meio século para atender.

“Que verso alguém da sua família repetia em voz alta?”

 
 
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No texto, por que o caderno que a autora batizou de Dhálias virou livro com outro nome, Horto?

AA editora achou o nome de flor fraco para vender
BOlavo Bilac deu ao prefácio o título de um dos poemas, e o livro inteiro foi junto
CA censura da época proibiu nomes de flores em capas de livro
DHenrique Castriciano trocou o nome antes de mandar os originais ao Rio

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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