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ED 049
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O apelido que virou livro em Lisboa

Um colega de faculdade chamou Florbela Espanca de Sóror Saudade num verso, e ela respondeu com um soneto e um livro em 1923.

Folha antiga de soneto sob a luz colorida de um vitral, com o título Sóror Saudade, numa mesa de Lisboa.

Lisboa, 1923: a irmã que se chamou Saudade

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Irmã, Sóror Saudade, me chamaste. Florbela Espanca abriu com essa linha um soneto de 1923, e ela resolve hoje o aperto de quem recebe um apelido carinhoso e não sabe o que fazer com ele: a poeta guardou o apelido, respondeu em verso e deu a ele a capa de um livro.

Florbela d'Alma da Conceição Espanca nasceu em Vila Viçosa, no Alentejo português, em 8 de dezembro de 1894. Foi registrada como filha de mãe solteira; o pai, João Maria Espanca, criou a menina em casa, mas só a perfilhou (reconheceu como filha no papel) muito depois da morte dela.

Em 1917, já casada pela primeira vez, entrou na Faculdade de Direito de Lisboa. Numa turma quase só de homens, ela era uma das raras alunas, e ali conheceu Américo Durão, estudante de Direito e poeta que publicava versos na imprensa lisboeta.

Durão escreveu um soneto para a colega e, dentro dele, deu a ela um título de convento: Sóror Saudade. Sóror vem do latim soror (irmã) e era o tratamento das freiras em Portugal, como em Sóror Mariana, a freira de Beja das cartas de amor famosas no século 17.

O poema de Durão não entra aqui por inteiro. Ele morreu em 1969, e pela lei 9.610 os versos dele seguem protegidos no Brasil até 2040. O que se conhece do texto é o gesto: um amigo chamando de irmã e de freira da saudade uma mulher que escrevia sobre a própria tristeza.

Florbela já tinha um livro, o Livro de Mágoas, pago do próprio bolso em 1919. A resposta a Durão virou o soneto de abertura do segundo, publicado em Lisboa em janeiro de 1923, também em edição da autora, com o título de Livro de Sóror Saudade.

Ela morreu em 1930, e a obra está em domínio público no Brasil desde 1º de janeiro de 2001. Os versos dela podem ir impressos num programa de cerimônia sem pedir licença a herdeiro.

Três leituras saem desse livro: o soneto do apelido para um sarau, uma estrofe de Fanatismo para um altar e os dois tercetos finais de Sóror Saudade para uma despedida.

A primeira parada são os dois quartetos em que ela recebe o nome.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Poema do Dia

O nome que acendeu como vitral

Num sarau, quem lê um soneto de amor costuma escolher o que fala do amado; este fala de um apelido, e a sala se reconhece em quem já foi batizado por alguém querido.

Sóror Saudade funciona para abrir uma roda de leitura porque conta uma cena pequena, datada, com dois personagens e um presente. O presente é uma palavra.

Irmã, Sóror Saudade, me chamaste...
E na minh'alma o nome iluminou-se
Como um vitral ao sol, como se fosse
A luz do próprio sonho que sonhaste.

Florbela Espanca, primeiro quarteto de Sóror Saudade, Livro de Sóror Saudade, Lisboa, 1923.

O soneto é a forma fixa de catorze versos, dividida em dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três). Florbela escreveu quase toda a obra nessa forma, e a crítica portuguesa a chama de sonetista antes de lhe dar qualquer outro rótulo.

Vitral é a janela de vidros coloridos das igrejas. A imagem conversa com o apelido de convento: o nome dado por Durão entra nela como sol atravessando o vidro de uma capela, e acende o que estava escuro.

O segundo quarteto põe data e estação no presente:

Numa tarde de Outono o murmuraste;
Toda a mágoa do Outono ele me trouxe;
Jamais me hão-de chamar outro mais doce;
Com ele bem mais triste me tornaste...

Florbela Espanca, segundo quarteto de Sóror Saudade, 1923.

Hão-de é a grafia portuguesa antiga de hão de. O verso diz que ninguém vai chamá-la por um nome mais doce, e o seguinte admite o preço: o apelido deixou a poeta mais triste. Ela aceita as duas partes do presente.

A epígrafe do soneto traz o nome de Américo Durão. Florbela não escondeu de quem veio o batismo; pôs o amigo na página, logo acima do primeiro verso.

Na hora de ler

Diga antes de começar quem deu o apelido e em que ano. A plateia precisa saber que existe um tu real, um colega de faculdade, para ouvir o me chamaste como resposta.

Leia as reticências do primeiro verso como pausa longa. Florbela as pôs ali para que o nome ficasse suspenso antes da luz do vitral.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Os mundos que podem voar

Num casamento, quem sobe ao altar quer um verso de entrega total que não soe exagerado para os convidados, e a poesia de amor antiga costuma pecar pelo excesso.

Fanatismo serve ao altar porque assume o excesso desde o título e termina numa promessa de três palavras. O exagero vem declarado, e a sala sorri junto.

Fanatismo está no mesmo Livro de Sóror Saudade, de 1923. É um dos sonetos dela mais cantados em Portugal, musicado como fado e gravado por intérpretes que levaram o poema a plateias que nunca tinham aberto o livro.

O primeiro quarteto diz que a alma dela anda perdida de sonhar com o amado e que os olhos andam cegos de tanto vê-lo. A estrofe que interessa ao altar é a última:

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!...

Florbela Espanca, último terceto de Fanatismo, Livro de Sóror Saudade, Lisboa, 1923.

De rastros quer dizer de joelhos, arrastando-se no chão, a posição de quem reza. Florbela põe a noiva nessa postura e, no mesmo verso, olhando nos olhos do amado: humildade e coragem juntas.

Princípio e fim é a tradução da fórmula Alfa e Ômega, a primeira e a última letra do alfabeto grego, que o Apocalipse de João usa para Deus. Uma plateia cristã reconhece a origem e aceita a comparação como elogio.

O terceto anterior prepara a virada. Alguém diz a ela que tudo no mundo é frágil e passa, e ela responde com o verso dos mundos e dos astros. O casamento é justamente a resposta a quem lembra que tudo passa.

A origem: diga que o poema é português e de 1923. A data mostra que a entrega total não é invenção de canção de rádio.

O corte: leia só o último terceto, com uma frase de ligação antes: disseram a ela que tudo passa. O resto do soneto pede tempo que a cerimônia não tem.

O cuidado: não leia Deus com peso de sermão. A palavra está ali como medida do amor, e o tom de oração pesaria sobre os noivos.

Na hora de ler

Faça a pausa depois de astros, onde o verso vira. Princípio e fim precisam chegar devagar, uma palavra de cada vez.

Olhe para o noivo ou a noiva no tu és. O pronome aponta para uma pessoa presente, e a sala acompanha o olhar.

 

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III  Pra Dizer Adeus

As pétalas do nome lindo

Numa despedida, quem fala procura um jeito de chamar pela pessoa que partiu sem transformar a cerimônia num lamento, e poucos poemas ensinam a repetir um nome com doçura.

Os tercetos de Sóror Saudade servem ao adeus porque descrevem alguém que diz um nome querido baixinho, nas horas ruins, para se acalmar. É o que uma família faz depois do enterro.

E baixinho, na alma de minh'alma,
Como bênção de sol que afaga e acalma,
Nas horas más de febre e de ansiedade,

Como se fossem pétalas caindo,
Digo as palavras desse nome lindo
Que tu me deste: Irmã, Sóror Saudade...

Florbela Espanca, tercetos de Sóror Saudade, Livro de Sóror Saudade, Lisboa, 1923.

Afagar é acariciar. A bênção de sol que afaga e acalma retoma o vitral do primeiro quarteto: o nome continua sendo luz, agora morna, e já não acende, só aquece.

O soneto termina onde começou, no apelido. A volta ao primeiro verso é um recurso antigo da forma, e aqui ganha função prática: quem diz um nome em voz baixa, repetido, faz de uma palavra um consolo.

Florbela passou o apelido adiante. O livro de 1923 abre com esse soneto e leva o nome inteiro na capa, de modo que cada leitor que o abre repete, sem saber, o batismo dado por Durão numa tarde de outono em Lisboa.

Durão sobreviveu à poeta por quase quarenta anos. Ele publicou livros de poesia até a velhice e morreu em Lisboa em 1969.

Para uma despedida, a troca é simples. Onde o soneto diz Irmã, Sóror Saudade, a família pode dizer o apelido pelo qual chamava quem partiu. Florbela autorizou o gesto no próprio texto: o nome é de quem o deu.

Na hora de ler

Leia os seis versos sem pausa longa entre os tercetos, como uma frase só. A sintaxe corre do baixinho até o apelido, e interromper quebra a corrente.

No último verso, troque Sóror Saudade pelo apelido de quem partiu, se a família quiser. Diga antes que o poema permite a troca.

“Que apelido você diria baixinho, como Florbela dizia o dela?”

Ela tinha 28 anos.

 
 
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Onde Florbela Espanca conheceu Américo Durão, o colega que criou o apelido Sóror Saudade?

ANa redação de um jornal em Lisboa
BNa Faculdade de Direito de Lisboa
CNum sarau literário em Vila Viçosa
DNa Faculdade de Letras de Coimbra

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