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Miniaturas, os sonetos que Gonçalves Crespo imprimiu em Coimbra em 1870
Filho de mãe brasileira negra, ele saiu do Rio aos 14 anos e fez de Coimbra a oficina dos versos curtos e polidos.
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Coimbra, 1870: o estudante e os sonetos
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Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. Gonçalves Dias escreveu o verso em Coimbra, em 1843, e ele dá forma à saudade de um estudante brasileiro longe de casa, a mesma que António Cândido Gonçalves Crespo levou para aquela cidade duas décadas depois.
Gonçalves Crespo nasceu no Rio de Janeiro em 11 de março de 1846. O pai era um comerciante português; a mãe, Francisca Rosa da Conceição, era brasileira e negra, e o filho guardou a casa da infância nos versos que viria a escrever.
Aos 14 anos, o menino embarcou para Portugal. A família o mandou estudar na terra do pai, e o Brasil ficou guardado na memória e no papel.
Fez os preparatórios (os exames que davam entrada na universidade) e chegou a Coimbra para cursar Direito, a carreira que abria as portas da magistratura e da política.
Coimbra fervia. Em 1865, Antero de Quental e Teófilo Braga tinham brigado em público com os poetas veteranos de Lisboa, na polêmica conhecida como Questão Coimbrã. Os estudantes discutiam verso nos cafés e nas repúblicas, as casas que dividiam.
Crespo escolheu uma trilha própria. Juntou-se ao grupo de João Penha, que publicava a revista A Folha e defendia o soneto bem medido, de rima rica e imagem nítida. Os críticos chamariam esse gosto de parnasianismo (a escola do verso polido e da forma fixa).
Em 1870, aos 24 anos e ainda estudante, ele publicou o primeiro livro em Coimbra. O título era Miniaturas: poemas curtos, quase todos sonetos, com cenas pequenas e acabadas, como retrato pintado em marfim.
Muitos desses quadros moravam no Brasil. A roça, o engenho, as mulheres negras da infância e uma praia com um navio partindo apareciam ali, escritos por quem tinha cruzado o oceano ainda menino.
Para o leitor português, a paisagem era exótica. Para o autor, era a casa que ele não via havia dez anos.
O soneto que abre esta leitura nasceu dessa memória atravessada.
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I O Poema do Dia
A mulher que ficou na praia
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Num quarto de estudante em Coimbra, António Cândido Gonçalves Crespo escreve um soneto sobre uma mulher parada na areia, olhando um navio que vai embora.
O soneto abre bem uma leitura porque mostra uma dor inteira em quatro versos, sem uma palavra de queixa.
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Quando se fez ao largo a nave escura, Na praia essa mulher ficou chorando, No doloroso aspecto figurando A lacrimosa estátua da amargura.
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Gonçalves Crespo, Mater Dolorosa, Miniaturas, 1870.
Mater Dolorosa quer dizer Mãe Dolorosa, em latim: é o título que a Igreja dá a Maria diante da cruz. Crespo emprestou a imagem sagrada para uma mãe comum, de pé na areia.
Fazer-se ao largo é sair do porto para o mar aberto. Nave, aqui, é navio, palavra antiga que os poetas preferiam pelo som.
O verso é o decassílabo (verso de dez sílabas), a medida dos sonetos de Camões. Crespo conta as sílabas com cuidado de ourives, e a rima casa escura com amargura e chorando com figurando.
A estrofe tem um movimento só. O navio se afasta no primeiro verso; nos três seguintes, a mulher fica e vira pedra. A palavra estátua faz o trabalho: a dor imobiliza.
O terceiro verso pede cuidado na boca. Doloroso aspecto junta vogais que se emendam numa sílaba só, a sinalefa (fusão de duas vogais vizinhas na contagem do verso), e quem lê com pressa ganha uma batida que o poeta não escreveu.
O quarteto não diz quem vai no navio. O título responde: é o filho.
Os leitores de Crespo costumam ligar a cena ao embarque do próprio poeta, aos 14 anos, no porto do Rio. O soneto não traz data nem nome, e o autor não deixou carta que confirme a leitura; o que se sabe é que a mãe ficou no Brasil e o filho atravessou o Atlântico.
Miniaturas reúne dezenas de peças desse tamanho. Ao lado da praia, há cenas de roça, de rede na varanda e de sesta no calor, todas medidas com igual rigor.
Os árcades do século anterior vestiam o Brasil de pastor inventado. Crespo pintava o que tinha visto: as amas, os escravizados no engenho, a mãe na areia.
O livro saiu em tiragem pequena e circulou entre os poetas de Coimbra e de Lisboa, que passaram a procurar o estudante carioca nos saraus.
Na hora de ler
Leia o primeiro verso depressa, como quem vê o navio sumir.
Nos três últimos, diminua o passo e pare em amargura.
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II Pra Ler no Altar
O soneto do casamento
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Num casamento, Gonçalves Crespo cede a página a Luís Vaz de Camões, o mestre do soneto em língua portuguesa e o molde que todo estudante de Coimbra copiava verso a verso.
A estrofe serve ao altar porque define o amor pelos contrários, e todo casal reconhece algum deles.
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Amor é fogo que arde sem se ver, É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer.
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Luís Vaz de Camões, Amor é fogo que arde sem se ver, Rimas, 1595.
Desatinar é perder o juízo. A dor que desatina sem doer é a que tira o sono sem ferir o corpo.
O recurso tem nome: paradoxo (afirmação que parece se contradizer). Cada verso junta dois termos que brigam, fogo e invisível, ferida e indolor, e o soneto inteiro vive dessa tensão.
A forma também conta. O soneto tem catorze versos, em dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três), e Camões usa os quartetos para empilhar definições antes de virar o raciocínio nos tercetos.
Rimas saiu em Lisboa em 1595, quinze anos após o enterro de Camões na mesma cidade. O poeta não viu o livro impresso; foram amigos e editores que juntaram os papéis.
Gonçalves Crespo casou-se em 1874, em Lisboa, com Maria Amália Vaz de Carvalho, escritora portuguesa que publicava versos e crônicas.
Ela vinha de família lisboeta letrada; ele trazia o diploma de Coimbra e um livro bem recebido. A casa do casal virou ponto de encontro de escritores, e os saraus reuniam a geração de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão.
Os dois escreviam sob o mesmo teto. Maria Amália assinava crônicas na imprensa e, em 1912, seria a primeira mulher eleita para a Academia das Ciências de Lisboa.
O soneto de Camões serve ao altar porque não promete felicidade. Diz que o amor confunde, e quem casa sabe disso de cor.
• O tom: leia como quem descreve um retrato, firme e sem sorriso forçado.
• O corte: pare no quarto verso. O soneto segue até uma pergunta, como o amor pode unir se é contrário a si próprio, e Camões a deixa sem resposta de propósito.
• O leitor: um padrinho lê melhor que o noivo, porque a voz de fora dá peso ao retrato.
Na hora de ler
Faça uma pausa curta em cada ponto e vírgula.
Diga o quarto verso olhando para os noivos.
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