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Luz Mediterrânea, o livro que bastou
Raul de Leoni publicou um único livro de poemas em 1922, aos 27 anos, e os sonetos de Luz Mediterrânea estão em domínio público desde 1997.
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Petrópolis, 1922: um livro sobre a mesa
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A Vida passa, efêmera e vazia: um adiantamento eterno que se espera, numa eterna esperança que se adia. Raul de Leoni fechou assim o soneto Legenda dos Dias, impresso em 1922 no livro Luz Mediterrânea, e o verso resolve hoje a leitura em voz alta que precisa falar de tempo sem soar como conselho: quem diz a linha entrega à sala um relógio, não uma lição de vida.
Raul de Leoni Ramos nasceu em Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, em 30 de outubro de 1895, filho de Carolino de Leoni Ramos, ministro do Supremo Tribunal Federal, e de Augusta Villaboim de Leoni Ramos. Formou-se bacharel em ciências jurídicas e sociais pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro em 1916 e, desde 1914, assinava colaborações nas revistas Fon-Fon! e Para Todos.
A carreira dele passou pela diplomacia e pela política antes de passar por uma editora. Em 1918 foi mandado para Montevidéu, no Uruguai, depois de recusar posto igual junto ao Vaticano; ficou três meses na cidade, voltou ao Brasil e foi eleito deputado na Assembleia fluminense. Escreveu também no Jornal do Brasil, no Jornal do Comércio, em O Jornal e em O Dia.
Em 1922, aos 27 anos, ele reuniu os sonetos em Luz Mediterrânea, editado pela Garnier. Foi o que publicou em vida. No ano seguinte adoeceu dos pulmões, trocou a política por um emprego em companhia de seguros, recebeu o diagnóstico de tuberculose, recolheu-se em casa e não chegou aos 32 anos: parou em Itaipava, distrito de Petrópolis, em 21 de novembro de 1926.
Pela contagem da lei 9.610, que libera a obra setenta anos depois do primeiro dia do ano seguinte ao fim da vida do autor, os versos dele estão em domínio público no Brasil desde 1997. Ler em sarau, imprimir em programa de cerimônia, gravar em placa de bronze: nenhum desses usos pede autorização a ninguém, e nenhum deles rende centavo a herdeiro.
A edição de hoje põe três sonetos do livro em situação de leitura em voz alta: o dia inteiro em catorze linhas para abrir um sarau, os versos de Argila para uma cerimônia de casamento e os tercetos de Unidade para uma despedida.
A primeira parada é o soneto que cabe um dia inteiro, da alvorada ao poente.
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I O Poema do Dia
A esperança que se adia
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Quem abre um sarau com poema sobre o tempo costuma escolher um texto que manda aproveitar o instante. A sala ouve o conselho, concorda de cabeça e esquece a linha antes do segundo poema da noite.
Legenda dos Dias resolve a abertura porque narra um dia inteiro, da primeira luz ao fim da tarde, sem mandar ninguém fazer nada. Quem escuta recebe uma cena, e a cena é a própria manhã de quem está ali sentado.
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O Homem desperta e sai cada alvorada Para o acaso das cousas... e, à saída, Leve uma crença vaga, indefinida, De achar o Ideal nalguma encruzilhada...
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Raul de Leoni, primeira quadra do soneto Legenda dos Dias, no livro Luz Mediterrânea, 1922.
Cousas, com u, era a grafia corrente do plural de coisa no português impresso de 1922, e sobreviveu nas edições seguintes por fidelidade ao original. Quem lê em voz alta pronuncia cô-zas, sem forçar o arcaísmo, quer dizer, sem transformar a palavra velha em piada de sotaque.
Alvorada é o clarão que vem antes do sol aparecer, e Leoni usa o substantivo no lugar do verbo amanhecer para dar ao verso uma hora exata. Encruzilhada é o cruzamento de estradas, o ponto em que quem anda precisa escolher, e a palavra carrega a superstição de quem cresceu ouvindo histórias de beira de estrada.
O soneto avança para o meio da tarde e devolve o homem à casa com a sombra recolhida, prometendo a si mesmo que o ideal aparece na jornada seguinte. O fecho gira a mesma roda mais uma vez e nomeia o mecanismo: uma espera que se estica e um prazo que se empurra para frente.
A construção pertence ao neoparnasianismo, o grupo de poetas brasileiros dos anos 1910 e 1920 que manteve a forma fixa dos parnasianos e trocou a decoração de mármore por assunto de pensamento. Leoni é lido também como simbolista por parte da crítica, e o rótulo muda pouco na hora de dizer o poema em voz alta.
A leitura das catorze linhas leva cinquenta segundos, e serve a sarau de bar, noite de microfone livre e roda de leitura em casa.
Na hora de ler
Diga o nome completo do poeta, a cidade e o ano antes do primeiro verso. Petrópolis, 1922, um deputado de 27 anos publicando o primeiro livro: a ficha muda a escuta da sala inteira.
Marque as reticências da segunda linha com um segundo de silêncio. Elas são o intervalo entre sair de casa e encontrar o mundo, e a pausa entrega o intervalo sem que você precise explicá-lo.
Desça o volume nos dois últimos versos. O soneto termina em duas palavras longas, espera e adia, e a voz baixa deixa a sala ouvir a rima sem esforço.
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II Pra Ler no Altar
Nascemos um para o outro
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Numa cerimônia de casamento, quem lê no altar costuma pegar um texto que descreve o amor como contrato já cumprido, sereno, sem risco. A sala escuta a descrição de um móvel enquanto duas pessoas de verdade tremem na frente de todo mundo.
Argila serve ao altar porque trata o casal como matéria rara, e matéria é uma ideia que a sala consegue ver: barro, carne, mão. O poema fala de origem comum, que é exatamente o que uma cerimônia afirma em voz alta.
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Nascemos um para o outro, dessa argila De que são feitas as criaturas raras; Tens legendas pagãs nas carnes claras E eu tenho a alma dos faunos na pupila...
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Raul de Leoni, primeira quadra do soneto Argila, no livro Luz Mediterrânea, 1922.
Fauno, na segunda linha da segunda dupla de versos, é a divindade campestre da mitologia romana, metade homem e metade bode, que os poetas usam como sinal de desejo antigo. Leoni põe a alma do fauno na pupila, quer dizer, no olho, e o gesto transforma um olhar de padrinho em declaração sem que a palavra desejo apareça.
Argila é barro, a matéria com que várias tradições descrevem a fabricação do primeiro ser humano. Ao dizer que os dois nasceram da mesma porção de barro, o poema afirma origem partilhada, e a afirmação cai bem numa cerimônia que junta duas famílias diferentes na mesma fileira de cadeiras.
A quadra seguinte traz a Grécia esplêndida e tranquila e a luz olímpica, o repertório grego que o título do livro anuncia. Mediterrânea aponta para esse mar: sol alto, mármore, corpo sem culpa.
Os tercetos finais falam de um mundo concebido pelo amor dos dois e de deuses nascidos do ventre dela. A imagem é grandiosa e agrada em casamento de gente que gosta de mitologia; em cerimônia com família reservada, ela pesa, e o leitor faz bem em parar antes.
A origem: diga que os versos são brasileiros, escritos por um poeta de Petrópolis e publicados em 1922. Uma frase basta, e ela evita que a sala imagine tradução de grego.
O corte: pare no fim da segunda quadra se a cerimônia for formal. O terceto do ventre é bonito e íntimo demais para avó de noiva ouvir de surpresa.
O cuidado: avise, em meia frase, que fauno é figura da mitologia romana. Sem o aviso, metade da sala entende a palavra como elogio duvidoso ao noivo.
Na hora de ler
Segure a primeira linha inteira num fôlego só. Nascemos um para o outro é a frase que a sala espera ouvir, e cortá-la no meio para respirar desmonta a promessa.
Leia as reticências do quarto verso como porta aberta, não como suspense. Um segundo, os olhos subindo do papel para o casal, e o poema entrega o resto sozinho.
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