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La Divina Increnca, o livro de 1915 que pôs a Canção do Exílio no sotaque do Brás

Um engenheiro paulista inventou um barbeiro italiano, Juó Bananére, e reescreveu os poemas da escola na língua das ruas de imigrantes.

Homem de bigode e chapéu-coco numa barbearia do Brás em 1915, com um livro aberto sobre o balcão.

São Paulo, 1915: o Brás vira poema

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Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá: Gonçalves Dias escreveu o verso em Coimbra, em 1843, e todo aluno brasileiro do começo do século 20 sabia a estrofe de cor, o que fazia dela o alvo perfeito para uma piada.

Em São Paulo, a piada esperava num bairro de fábrica. O Brás de 1910 tinha cortiços, tecelagens e uma estação de trem por onde desciam famílias vindas da Calábria, de Nápoles e do Vêneto.

Os paulistas de nascimento chamavam o bairro de pequena Itália. Na rua, ninguém falava italiano de livro nem português de escola: falava-se uma terceira língua, feita das duas, com verbos de uma e sotaque da outra.

O barbeiro dizia migna para minha. O verdureiro trocava o lh por gn e engolia o s do plural. As crianças, filhas de imigrante, levavam a mistura para a sala de aula e voltavam para casa com Gonçalves Dias decorado.

Um estudante de engenharia ouvia aquela fala todo dia no bonde. Filho de família paulista antiga, nascido no Vale do Paraíba, ele não tinha sangue italiano e tinha ouvido de músico.

Começou a escrever como se fosse um deles. Inventou um barbeiro do Abaixo do Piques, a ladeira entre o centro e o Bexiga, que mandava cartas à imprensa num português todo torto e se achava o maior poeta do Brasil.

As cartas fizeram sucesso. Os leitores recortavam as colunas, os políticos citados reclamavam, e o barbeiro inventado ficou bem mais famoso que o engenheiro que o escrevia.

Em 1915, o personagem lançou livro próprio. Pegou os poemas que a escola obrigava a decorar, de Camões, de Bilac, de Gonçalves Dias, e reescreveu um por um no idioma do Brás.

O sabiá virou passarinho de bairro operário. A palmeira continuou lá, com outra grafia, ainda abrindo o primeiro verso.

O estudante, o barbeiro e o livro abrem a leitura de hoje, na primeira faixa.

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I  O Poema do Dia

Um barbeiro que nunca existiu

Alexandre Ribeiro Marcondes Machado nasceu em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, em 11 de abril de 1892. Em 1915, assinando Juó Bananére, publicou La Divina Increnca.

O poema abre a leitura porque põe o verso mais decorado do país na boca de quem acabava de chegar.

Migna terra tê parmeras,
Che ganta inzima o sabiá.
As aves che stó aqui,
Tambê tuttos sabe gorgeá.

Juó Bananére, Migna terra, La Divina Increnca, 1915.

No português da escola, a estrofe diz: minha terra tem palmeiras, que canta em cima o sabiá; as aves que estão aqui também todas sabem gorjear.

O achado está no último verso. Gonçalves Dias escreveu que as aves daqui não gorjeiam como as de lá; o barbeiro do Brás, recém-chegado, acha que todas cantam igual e encerra a saudade numa frase de conformado.

O título do livro já é piada. La Divina Commedia é o poema de Dante Alighieri, terminado por volta de 1321; increnca é encrenca (confusão, briga) escrita do jeito que o bairro pronunciava.

Paródia (imitação que copia a forma de um texto para rir do conteúdo) era o método do volume inteiro. Bananére escolhia o poema mais solene que encontrava e trocava cada palavra pela versão da rua.

Machado estudou na Escola Politécnica de São Paulo e se formou engenheiro civil. Trabalhou em obra e escritório; a escrita vinha à noite, quase sempre com prazo de revista.

O personagem estreou em O Pirralho, semanário de humor fundado em 1911 por Oswald de Andrade, então um rapaz de 21 anos com dinheiro da família para gastar em papel.

Ali saía a coluna As Cartas d'Abax'o Pigues, ou seja, as cartas do Abaixo do Piques, escritas como se viessem do barbeiro do bairro e assinadas com floreio de doutor.

O alvo preferido era a política. Bananére zombava de governadores, do presidente Hermes da Fonseca e dos coronéis do café, no tom de quem fingia não entender nada e assim dizia tudo.

Os estudiosos chamam a fala dele de linguagem macarrônica (mistura cômica de duas línguas). A grafia de Bananére copiava a pronúncia real dos imigrantes, anotada por alguém que escutava a rua com atenção de engenheiro.

O livro reuniu sonetos, odes e trovas na mesma língua, com dedicatórias pomposas a figurões da cidade e notas de rodapé falsas. Circulou de mão em mão em São Paulo e ganhou novas impressões nas décadas seguintes.

Na hora de ler

Leia o gn de migna como nh, sem caricatura.

Deixe o sabiá do segundo verso soar como na escola.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Ouvir estrelas

Num casamento, a casa cede a página a Olavo Bilac, um dos alvos favoritos de Bananére, que publicou o soneto Ora (direis) ouvir estrelas em 1888, no livro Poesias.

O terceto serve ao altar porque diz que só quem ama escuta o que os outros chamam de loucura.

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Olavo Bilac, soneto XIII de Via Láctea, Poesias, 1888.

Terceto é a estrofe de três versos que encerra o soneto. O de Bilac responde a uma acusação feita logo no primeiro verso: alguém diz ao poeta que ele perdeu o senso por conversar com as estrelas.

Via Láctea é a sequência de 35 sonetos de amor que abre Poesias. O décimo terceiro virou o mais famoso, recitado em sarau e copiado à mão em álbum de moça por décadas.

O poema funciona como diálogo. Nos quartetos, o poeta conta que fica a noite em claro falando com as estrelas; nos tercetos, o interlocutor pergunta o que elas dizem, e a resposta vem nos versos acima.

Vos e direi soam antigos. Vós é a segunda pessoa do plural, o tratamento formal da época, que hoje se diz vocês.

Bananére reescreveu o soneto em La Divina Increnca. Na versão do Brás, o amigo chama o poeta de maluco logo de saída, e as estrelas viram assunto de barbearia.

A paródia só funcionava porque o original estava na boca de todos. Rir de Bilac em 1915 era rir do poeta mais celebrado do país, que dois anos antes recebera da revista Fon-Fon o título de Príncipe dos Poetas Brasileiros.

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu no Rio de Janeiro em 1865 e partiu em 1918. A obra dele está em domínio público no Brasil desde 1989.

Para o altar, o terceto basta. Ele diz aos noivos que o amor dá um ouvido novo, capaz de escutar o que os outros acham tolice.

Os três versos têm dez sílabas poéticas cada, a medida chamada decassílabo, e cabem numa respiração calma. Quem lê não precisa de dicionário para nenhuma palavra do trecho, e o ponto de exclamação do primeiro verso já marca onde subir o tom.

• O tom: firme, de quem responde a uma provocação.

• O corte: só o último terceto, os três versos acima.

• O leitor: um amigo dos noivos que saiba esperar a pausa.

Na hora de ler

Pare depois de E eu vos direi.

Diga estrelas devagar, olhando para os noivos.

 

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III  Pra Dizer Adeus

Sem que eu volte para lá

Numa despedida, a casa dá a página a Antônio Gonçalves Dias, que escreveu a Canção do Exílio em Coimbra, em julho de 1843, e a publicou em 1846, no livro Primeiros Cantos.

A estrofe serve ao adeus porque é a súplica de quem está longe e quer voltar.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;

Gonçalves Dias, Canção do Exílio, Primeiros Cantos, 1846.

Primores quer dizer belezas, o que a terra tem de melhor. Cá e lá são aqui e lá: Portugal, onde ele estava, e o Maranhão, onde nasceu.

Gonçalves Dias tinha 20 anos e estudava Direito na Universidade de Coimbra quando escreveu o poema. A estrofe pertence à última parte da canção e repete palmeiras e sabiá como quem repete um endereço.

O pedido não se cumpriu. Em 1864, voltando doente da Europa, ele viajava no navio Ville de Boulogne, que naufragou na costa do Maranhão, à vista da terra natal.

Numa cerimônia de despedida, a estrofe diz o que a família sente e não consegue formular: a pessoa queria voltar para casa, e casa era um lugar com nome.

Bananére também tinha uma terra para onde voltar, a inventada. Em 1933, Machado lançou o jornal Diário do Abax'o Piques, assinado pelo barbeiro e escrito na mesma língua das cartas.

O jornal durou pouco. Machado partiu em São Paulo em 22 de agosto de 1933, de doença, e deixou La Divina Increnca e centenas de colunas espalhadas por revistas e jornais.

Os modernistas de 1922 leram Bananére antes da Semana de Arte Moderna. Oswald de Andrade, o dono de O Pirralho, levou adiante a ideia de que o português do Brasil podia entrar no poema do jeito que se falava na rua.

A obra de Juó Bananére está em domínio público no Brasil desde 2004.

Na hora de ler

Leia Não permita Deus sem pressa.

Pare antes de Sem que eu volte para lá.

“Que verso você aprendeu de cor e só depois entendeu?”

Ele tinha 41 anos.

 
 
Quiz da edição

Antes de virar livro em 1915, onde as cartas do barbeiro Juó Bananére apareceram pela primeira vez?

ANa revista Fon-Fon
BNo semanário O Pirralho
CNa sequência de sonetos Via Láctea
DNo livro Primeiros Cantos

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