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Ilusão, o livro de 1911 que Emiliano Perneta lançou no ano em que virou Príncipe dos Poetas

Em Curitiba, um poeta de 45 anos juntou num volume os versos que espalhou por jornais desde a juventude e recebeu a coroa dos pares.

Poeta de bigode e terno escuro com coroa de louros num parque de Curitiba, livro na mão.

Curitiba, 1911: Ilusão chega às livrarias

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Ó Formas alvas, brancas, Formas claras de luares, de neves, de neblinas: Cruz e Sousa abriu com esses versos o livro Broquéis, em 1893, e eles ainda mostram como soava a poesia que queria cantar o que não se vê.

A escola tinha nome, simbolismo, e uma ambição estranha para a época: o verso devia sugerir a névoa em volta da pedra, sem descrever a pedra. Música, cor, perfume, a palavra escolhida pelo som tanto quanto pelo sentido.

O Rio de Janeiro torcia o nariz. A crítica dos jornais grandes chamava os simbolistas de nefelibatas (gente que anda nas nuvens), e o apelido pegou como zombaria.

Longe da capital, a escola achou casa. Curitiba, uma cidade de poucas ruas calçadas, frio de serra e imigrantes recém-chegados, reuniu nos anos de 1890 um grupo de rapazes que imprimia revista própria e discutia verso nas confeitarias.

Um deles assinava poemas em jornal desde os vinte anos. Escrevia para folhas de São Paulo, de Curitiba, do Rio, e quase tudo ficava ali, em papel que amarelava e ia embora com o lixo da semana.

Quem quisesse reler um soneto dele precisava ter guardado a página certa, recortada com tesoura e colada num caderno.

Os amigos guardavam recortes. Ele mesmo parecia pouco interessado em fazer livro, e passou duas décadas como poeta conhecido de quem lia jornal, sem um volume que reunisse a obra madura.

Em 1911, aos 45 anos, o livro saiu. Teve título de uma palavra, impressão em Curitiba e versos escolhidos entre os que o tempo de redação tinha deixado de pé.

No mesmo ano, os escritores da cidade fizeram uma festa pública para ele e lhe deram uma coroa e um título. A cerimônia virou notícia nos jornais locais e o título acompanhou o poeta até o fim.

O livro, o poeta e a coroa abrem a leitura de hoje, na primeira faixa.

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I  O Poema do Dia

Vinte anos em papel de jornal

Emiliano David Perneta nasceu em 3 de janeiro de 1866, nos arredores de Curitiba, filho de família de sitiantes. Em 1911, publicou Ilusão, o livro que reuniu a obra de duas décadas de imprensa.

O livro abre a leitura porque deu forma de volume a um poeta que até ali existia em recorte.

Príncipe dos Poetas Paranaenses

Título conferido a Emiliano Perneta pelos escritores de Curitiba, 1911.

Perneta estudou Direito em São Paulo e se formou em 1889. Nos anos de faculdade, conviveu com os jovens que liam Baudelaire, o poeta francês de As Flores do Mal, e trouxe esse gosto de volta para o Paraná.

Antes de Ilusão, saíram dele livros curtos e folhetos: Músicas, de 1888, ainda estudante, e textos avulsos de combate. Nenhum reunia o que escreveu depois dos trinta anos.

Em Curitiba, juntou-se a Dario Vellozo, Silveira Neto e ao irmão, Júlio Perneta, no grupo da revista O Cenáculo, que circulou de 1895 a 1897. Ali o simbolismo paranaense ganhou papel e leitor.

O grupo misturava poesia com interesse por ocultismo, filosofia grega e as sociedades secretas da época. Vellozo, o mais metódico, depois ergueu em Curitiba o Templo das Musas, prédio de colunas no bairro Vale da Ordem, ainda de pé.

Trabalhou como promotor, professor e jornalista. Escrevia à noite, publicava de manhã, e o poema do dia virava embrulho de pão na semana seguinte.

Ilusão juntou sonetos e poemas longos de temas que ele repetia: a noite, o desejo, a revolta contra a vida pequena da província, a figura do poeta que não cabe na cidade.

O tom variava. Há versos de luxo e de pecado, no gosto de Baudelaire, e há versos de campo, de pinheiro e geada, que só um paranaense escreveria.

O título resume a tese do livro: a vida que se deseja é sempre ilusão, e o poeta escreve sabendo disso.

A coroação aconteceu no Passeio Público de Curitiba, em 1911. Escritores, estudantes e autoridades foram ao parque; houve discursos, música e uma coroa de louros posta na cabeça do poeta.

Príncipe era o título que a república das letras dava ao poeta mais celebrado de um lugar. Bilac seria escolhido Príncipe dos Poetas Brasileiros dois anos depois, em 1913, por votação da revista Fon-Fon.

Perneta aceitou a coroa com a ironia de quem conhecia a cidade. Seguiu morando em Curitiba e escrevendo para os jornais dela.

Na festa, recebeu a coroa diante de rapazes que tinham a metade da idade dele e o liam desde o colégio, em recortes guardados no caderno.

Ilusão saiu em tiragem pequena e virou peça rara de sebo. A obra dele está em domínio público no Brasil desde 1992.

Na hora de ler

Leia o título como um anúncio, devagar e sem ênfase.

Diga Curitiba e 1911 com a mesma calma.

 
 

II  Pra Ler no Altar

O fogo que arde sem se ver

Num casamento, a casa cede a página a Luís Vaz de Camões, o poeta português que toda escola brasileira do tempo de Perneta punha nas mãos dos alunos.

O quarteto serve ao altar porque descreve o amor pelo que ele tem de contrário.

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

Luís de Camões, soneto Amor é fogo que arde sem se ver, Rimas, 1595.

Quarteto é a estrofe de quatro versos que abre o soneto. Camões gastou os quatro numa única figura, repetida: cada verso junta duas palavras que brigam.

A figura tem nome, paradoxo (a frase que parece se contradizer e acerta no sentido). Fogo que não se vê, ferida que não se sente, alegria triste.

Desatina quer dizer enlouquece, tira do juízo. A dor de amor, no verso final, faz perder a cabeça sem machucar o corpo.

O livro Rimas saiu em Lisboa em 1595, quinze anos depois que Camões partiu. Foram amigos e editores que reuniram os sonetos espalhados em cópias de mão.

A história lembra a de Ilusão: poemas que corriam soltos e só viraram livro tarde, pela mão de quem os guardou.

O soneto segue nos tercetos com a mesma lista de contrários e fecha com uma pergunta: como pode o amor causar amizade nos corações, se é tão contrário a si mesmo? Camões não responde, e o poema termina aberto de propósito.

Para o altar, os quatro primeiros versos bastam. Eles dizem aos noivos que o amor vai doer e contentar ao mesmo tempo, sem pedir que escolham.

O metro é decassílabo (dez sílabas poéticas, contadas até a última tônica). Lido com calma, cada verso cabe numa respiração.

Camões escreveu em português do século 16, e algumas formas soam antigas, mas nenhuma palavra do quarteto pede dicionário além de desatina. A clareza explica a presença dele em tantas cerimônias.

• O tom: sereno, quase de conversa.

• O corte: só o primeiro quarteto, os quatro versos acima.

• O leitor: o padrinho ou a madrinha mais velhos da cerimônia.

Na hora de ler

Faça uma pausa curta depois de cada ponto e vírgula.

Olhe para os noivos no último verso.

 

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III  Pra Dizer Adeus

Enfim te vejo

Numa despedida, a casa dá a página a Antônio Gonçalves Dias, que publicou Ainda uma vez, adeus! em 1851, no livro Novos Cantos.

A estrofe serve ao adeus porque é o reencontro de quem já sabe que vai perder.

Enfim te vejo! enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.

Gonçalves Dias, Ainda uma vez, adeus!, Novos Cantos, 1851.

Pesar de quanto sofri é a forma antiga de apesar de tudo o que sofri. Cessar quer dizer parar.

O poema nasceu de um amor proibido. Gonçalves Dias pediu a mão de Ana Amélia Ferreira do Vale, e a família dela recusou o casamento; anos depois, os dois se cruzaram em Lisboa, ela já casada com outro.

A recusa da família, segundo os biógrafos, veio da origem dele: Gonçalves Dias era filho de um comerciante português com uma mulher mestiça, e a família dela não aceitou o casamento.

O poeta escreveu os versos a partir desse encontro. O adeus do título é o segundo, o definitivo, dito a quem continua viva e longe.

Numa cerimônia de despedida, a estrofe diz o que fica sem dizer: eu não deixei de querer você, mesmo com tudo o que passou.

Gonçalves Dias partiu em 1864, no naufrágio do navio Ville de Boulogne, na costa do Maranhão, voltando da Europa. Era o único passageiro que não conseguiu deixar o navio.

Perneta partiu em Curitiba em 19 de janeiro de 1921, dez anos depois da coroa. Deixou pronto o poema dramático Pena de Talião, de 1914, e versos que os amigos reuniram depois.

Os últimos anos foram de doença e de pouco dinheiro. Ainda assim, ele seguiu indo às redações e lendo para os mais jovens os poemas novos.

Curitiba deu o nome dele a uma rua do centro.

Na hora de ler

Leia Enfim te vejo como quem chega atrasado e ainda assim chega.

Pare antes de Pesar de quanto sofri.

“Que verso da sua cidade ainda espera virar livro?”

Ele tinha 55 anos.

 
 
Quiz da edição

Em 1911, onde aconteceu a cerimônia que deu a Emiliano Perneta o título de Príncipe dos Poetas Paranaenses?

ANo Templo das Musas, erguido por Dario Vellozo
BNo Passeio Público de Curitiba
CNo Largo da Ordem, centro histórico de Curitiba
DNa sede da revista O Cenáculo

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