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O Cajueiro, um dos rondós de Glaura, tem 52 versos de sete sílabas. Quatro deles formam o refrão, que abre o poema e volta quatro vezes, uma após cada estrofe de oito versos.
O refrão é o eixo do rondó: toda estrofe nova acaba devolvendo o leitor às mesmas quatro linhas.
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Cajueiro desgraçado, A que fado te entregaste, Pois brotaste em terra dura Sem cultura e sem senhor!
Mas se estéril te arruínas, Por destino te conservas, E pendente sobre as ervas Mudo ensinas ao pastor Que a fortuna é quem exalta, Quem humilha o nobre engenho; Que não vale humano empenho, Se lhe falta o seu favor.
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Silva Alvarenga, O Cajueiro, rondó, Glaura: poemas eróticos, Lisboa, Oficina Nunesiana, 1799.
Em prosa: cajueiro sem sorte, a que destino te entregaste, nascido em terra dura, sem trato e sem dono! Mas, se te arruínas estéril, o destino te conserva, e, curvado sobre o capim, ensinas calado ao pastor que a sorte levanta e rebaixa o talento nobre, e que o esforço humano nada vale quando falta o favor dela.
Fado é destino; cultura, no verso, é cultivo, o trato da terra. Engenho é talento, e fortuna, a sorte.
A rima que puxa a outra
No refrão, a rima anda em corrente, do fim de um verso para dentro do seguinte: desgraçado chama fado, entregaste chama brotaste, dura chama cultura.
Nas estrofes, cada quadra (o bloco de quatro versos) segue outro desenho fixo. O segundo e o terceiro versos rimam na ponta: conservas e ervas, engenho e empenho. A última palavra do primeiro verso rima com outra de dentro do quarto: arruínas ecoa em ensinas, exalta ecoa em falta.
O quarto verso de toda quadra, do refrão à última estrofe, termina em -or: senhor, valor, flor, cor, agricultor, pastor, favor.
O molde da canção
O rondó nasceu na França medieval, em canções de dança de roda com refrão repetido pelo grupo. Antonio Candido, em Formação da Literatura Brasileira (1959), apontou outra fonte para as estrofes de Silva Alvarenga: as canções de Pietro Metastasio, libretista italiano (autor dos textos que os compositores de ópera musicavam).
A música vinha de casa. A notícia biográfica de uma edição lisboeta de Glaura, de 1889, diz que o poeta tocava rabeca (o violino popular) com fama de exímio.
José Ramos Tinhorão, em livro de 2004, comparou os rondós às modinhas (canções de amor dos salões) de Domingos Caldas Barbosa, que as cantava com viola, o instrumento de cordas de arame parente do violão.
A coletânea de Caldas Barbosa, Viola de Lereno, saiu em 1798 pela mesma Oficina Nunesiana que imprimiu Glaura um ano depois. O livro de Silva Alvarenga traz só os versos, sem partitura.
Dois cajueiros
Glaura tem dois rondós chamados O Cajueiro. No primeiro, a árvore é estéril e sem dono. No segundo, o pastor chama a ninfa (divindade dos bosques) para a sombra de um cajueiro “que no outeiro desprezamos” (que desprezamos no morro), e a árvore dá “amorosos frutos”.
O cajueiro é nativo do Nordeste brasileiro. O beija-flor e a onça, bichos da terra, também passam pelo livro.
Na hora de ler
Diga o refrão nas cinco vezes no mesmo andamento. Nas estrofes, apoie a voz no -or do quarto verso, a rima que o ouvido já espera.
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