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Glaura, 59 rondós depois da prisão

Preso quase três anos por causa da Sociedade Literária, Silva Alvarenga imprimiu em Lisboa, em 1799, os rondós da pastora Glaura.

Bilhete dobrado com versos copiados à mão, dentro de um livro pequeno, sob um galho de cajueiro.

Versos copiados à mão sob um galho de cajueiro

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Manuel Inácio da Silva Alvarenga abriu Glaura, livro de poemas impresso em Lisboa em 1799, com um verso que o romano Ovídio escreveu no ano 12, banido para a costa do mar Negro: “Carminibus quaero miserarum oblivia rerum” (nos versos, procuro esquecer as desgraças). A frase ainda descreve quem sai de um ano ruim e busca numa canção umas horas sem pensar nele.

O poeta tinha motivo para escolher o verso. Nascido em Vila Rica em 1749, filho de um músico pobre, estudou direito em Coimbra e se fixou no Rio, onde dava aula de retórica (a arte de falar e escrever para convencer) desde 1782.

Em 1786, ajudou a refundar a Sociedade Literária, um grupo de médicos, padres e letrados que se reunia para discutir ciência e poesia, e virou o secretário. Em 1794, o vice-rei, o conde de Resende, mandou fechar o grupo, com medo das ideias da Revolução Francesa, e prender os sócios.

A devassa (o inquérito da Coroa) teve como juiz António Dinis da Cruz e Silva, também poeta, autor do poema satírico O Hissope. Entre os papéis apreendidos com o professor havia um livro de Mably, filósofo francês que questionava o poder dos reis. Silva Alvarenga respondeu que o comprara de um marinheiro, junto com livros em latim, sem conhecer o conteúdo.

Ficou preso perto de três anos numa fortaleza da Ilha das Cobras, na baía de Guanabara. Saiu em 1797, sem julgamento, por ordem da rainha D. Maria I: o processo não achou prova contra ele.

Dois anos depois, Glaura saiu pela Oficina Nunesiana, tipografia de Lisboa, com 59 rondós (poemas de refrão que volta, no molde da canção) e 57 madrigais (poemas curtos de amor, de origem italiana). No livro, o pastor Alcindo canta a pastora Glaura. Alcindo Palmireno era o nome de pastor do próprio autor na Arcádia, a moda literária que vestia os poetas de pastores.

A primeira faixa abre O Cajueiro, rondó sobre uma árvore nascida em terra dura, e o desenho de rimas que Silva Alvarenga repetiu nos 59.

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I  O Poema do Dia

O cajueiro da terra dura

O Cajueiro, um dos rondós de Glaura, tem 52 versos de sete sílabas. Quatro deles formam o refrão, que abre o poema e volta quatro vezes, uma após cada estrofe de oito versos.

O refrão é o eixo do rondó: toda estrofe nova acaba devolvendo o leitor às mesmas quatro linhas.

Cajueiro desgraçado,
A que fado te entregaste,
Pois brotaste em terra dura
Sem cultura e sem senhor!

Mas se estéril te arruínas,
Por destino te conservas,
E pendente sobre as ervas
Mudo ensinas ao pastor
Que a fortuna é quem exalta,
Quem humilha o nobre engenho;
Que não vale humano empenho,
Se lhe falta o seu favor.

Silva Alvarenga, O Cajueiro, rondó, Glaura: poemas eróticos, Lisboa, Oficina Nunesiana, 1799.

Em prosa: cajueiro sem sorte, a que destino te entregaste, nascido em terra dura, sem trato e sem dono! Mas, se te arruínas estéril, o destino te conserva, e, curvado sobre o capim, ensinas calado ao pastor que a sorte levanta e rebaixa o talento nobre, e que o esforço humano nada vale quando falta o favor dela.

Fado é destino; cultura, no verso, é cultivo, o trato da terra. Engenho é talento, e fortuna, a sorte.

A rima que puxa a outra

No refrão, a rima anda em corrente, do fim de um verso para dentro do seguinte: desgraçado chama fado, entregaste chama brotaste, dura chama cultura.

Nas estrofes, cada quadra (o bloco de quatro versos) segue outro desenho fixo. O segundo e o terceiro versos rimam na ponta: conservas e ervas, engenho e empenho. A última palavra do primeiro verso rima com outra de dentro do quarto: arruínas ecoa em ensinas, exalta ecoa em falta.

O quarto verso de toda quadra, do refrão à última estrofe, termina em -or: senhor, valor, flor, cor, agricultor, pastor, favor.

O molde da canção

O rondó nasceu na França medieval, em canções de dança de roda com refrão repetido pelo grupo. Antonio Candido, em Formação da Literatura Brasileira (1959), apontou outra fonte para as estrofes de Silva Alvarenga: as canções de Pietro Metastasio, libretista italiano (autor dos textos que os compositores de ópera musicavam).

A música vinha de casa. A notícia biográfica de uma edição lisboeta de Glaura, de 1889, diz que o poeta tocava rabeca (o violino popular) com fama de exímio.

José Ramos Tinhorão, em livro de 2004, comparou os rondós às modinhas (canções de amor dos salões) de Domingos Caldas Barbosa, que as cantava com viola, o instrumento de cordas de arame parente do violão.

A coletânea de Caldas Barbosa, Viola de Lereno, saiu em 1798 pela mesma Oficina Nunesiana que imprimiu Glaura um ano depois. O livro de Silva Alvarenga traz só os versos, sem partitura.

Dois cajueiros

Glaura tem dois rondós chamados O Cajueiro. No primeiro, a árvore é estéril e sem dono. No segundo, o pastor chama a ninfa (divindade dos bosques) para a sombra de um cajueiro “que no outeiro desprezamos” (que desprezamos no morro), e a árvore dá “amorosos frutos”.

O cajueiro é nativo do Nordeste brasileiro. O beija-flor e a onça, bichos da terra, também passam pelo livro.

Na hora de ler

Diga o refrão nas cinco vezes no mesmo andamento. Nas estrofes, apoie a voz no -or do quarto verso, a rima que o ouvido já espera.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Sem nada mais a pedir

Para um casamento, a página traz A Alegria, rondó de Glaura em que o pastor anuncia a volta do amor e termina sem nada a pedir.

Os versos servem ao altar porque marcam um dia: o amor voltou, e quem fala não quer mais nada.

Sem o amor, ó Glaura, tudo
Era mudo e triste e feio;
Tudo cheio de alegria
Neste dia o vê tornar.

Ah! não fujas destes prados,
Onde amor há de seguir-te;
Mas não tenho que pedir-te,
Nem os fados mais que dar.

Silva Alvarenga, A Alegria, rondó, Glaura: poemas eróticos, Lisboa, Oficina Nunesiana, 1799.

Em prosa: sem o amor, Glaura, tudo era mudo, triste e feio; neste dia, tudo o vê voltar, cheio de alegria. Ah, não fujas destes campos, onde o amor há de te seguir; mas não tenho mais o que te pedir, nem os destinos têm mais o que me dar.

Tornar é voltar, e prados são campos de pasto. Fados, no plural, são as sortes que o destino reparte.

Neste dia

O refrão diz neste dia, e o molde do rondó faz a expressão voltar cinco vezes. Num casamento, o dia do poema coincide com o dia da cerimônia.

Numa das estrofes, o pastor lembra a serra estéril que já teve “a cor das minhas mágoas”. Hoje, diz o verso seguinte, “brilha o sol nas águas”, e riem a terra, o céu e o mar.

Os diamantes do Jequitinhonha

Em outro rondó do livro, O Amante Satisfeito, o pastor deixa ao mundo os metais e as pedras “do feliz Jequitinhonha”, o rio do norte de Minas onde a Coroa portuguesa extraía diamantes. Ele escolhe Glaura e a lira (o instrumento de cordas dos poetas antigos).

Para um mineiro de Vila Rica, a cidade do ouro, o verso dispensava a riqueza da própria terra.

Quem era Glaura

Se houve mulher real por trás de Glaura, ninguém provou: o livro não lhe dá sobrenome, cidade nem data, e a moda da Arcádia pedia nome inventado para a amada.

Por que funciona no altar

No altar, o refrão vira anúncio: o amor voltou, e os convidados sabem para quem.

• O corte: o refrão e a última quadra.

• O tom: de quem conta uma boa notícia, sem pressa.

• O leitor: um amigo do noivo, na voz de Alcindo.

Na hora de ler

Leia o refrão olhando para os noivos. Na última quadra, diminua o passo em “Mas não tenho que pedir-te” e pare depois de “Nem os fados mais que dar”.

 

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III  Pra Dizer Adeus

A lira pendurada

Numa despedida, a página vai a A Saudade, rondó de Glaura na voz de um pastor que perdeu a amada, e ao rondó que encerra a série.

Os versos servem ao adeus porque dizem o que o tempo não gasta: o nome de quem partiu.

Tudo, ó Glaura, tudo existe
Feio e triste de saudade:
Voa a idade e não consome
O teu nome e o meu amor.

Cercarei de roxos lírios
O lugar em que descansas:
Ai, perdidas esperanças,
Vãos delírios do pastor!

Silva Alvarenga, A Saudade, rondó, Glaura: poemas eróticos, Lisboa, Oficina Nunesiana, 1799.

Em prosa: tudo, Glaura, tudo está feio e triste de saudade; o tempo voa e não gasta o teu nome nem o meu amor. Vou cercar de lírios roxos o lugar onde descansas: ai, esperanças perdidas, sonhos vãos do pastor!

Idade, no verso, é o tempo que corre, e consome quer dizer gasta.

A morte de Glaura

Perto do encerramento dos rondós, o livro muda de tom. No rondó A Morte, o refrão conta a perda em dois versos: “Num só dia, ingrata sorte! / Tudo a morte me roubou.”

O livro não diz do que Glaura morre. Em A Saudade, o pastor culpa o “fado acerbo” (o destino cruel) e lembra o rosto dela “sem cor”.

O adeus à lira

Logo depois vem Adeus à Lira, o rondó que encerra a série. A lira era o símbolo da poesia, e o pastor a deixa pendurada: “Adeus, lira; a mão cansada / Pendurada aqui te deixa”.

Os 57 madrigais ocupam a segunda metade do livro. Os rondós acabam com a mão do poeta parada.

O professor calado

Fora do livro, Silva Alvarenga voltou às aulas de retórica e à advocacia. Januário da Cunha Barbosa, aluno dele e primeiro biógrafo, escreveu em 1841, na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que o mestre saiu da prisão taciturno e desgostoso.

Nos últimos dois anos de vida, escreveu para O Patriota, um dos primeiros periódicos literários impressos no Brasil. Morreu no Rio em 1814, aos 65 anos.

Na hora de ler

Leia o refrão devagar e respire depois de “saudade”. Se a família quiser, troque Glaura pelo nome de quem partiu: o verso de sete sílabas aceita sem tropeço um nome de duas sílabas, como Pedro ou Marta.

Para levar à cerimônia, copie as oito linhas à mão num bilhete dobrado.

O exemplar de 1799 guardado pela Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, tem 248 páginas e 14 centímetros de altura.

Cabe num bolso.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, quem deu a ordem que libertou Silva Alvarenga da prisão na Ilha das Cobras, depois de quase três anos sem julgamento?

AO conde de Resende, vice-rei que mandara fechar a Sociedade Literária
BAntónio Dinis da Cruz e Silva, juiz da devassa
CA rainha D. Maria I
DMably, o filósofo francês do livro apreendido

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