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Finis Patriae, o fim da pátria que Guerra Junqueiro pôs em verso em 1890

Londres exigiu a retirada da África, Lisboa cedeu e o poeta publicou no mesmo ano o livro em que Portugal fala da própria queda.

Poeta português do século 19 escrevendo à mesa, com um mapa da África pintado de rosa aberto ao lado.

Lisboa, 1890: o ano do ultimato

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Heróis do mar, nobre povo, nação valente e imortal: Henrique Lopes de Mendonça escreveu esses versos em 1890, e eles ainda explicam por que um país inteiro precisou cantar a própria coragem naquele inverno. A canção nasceu de uma humilhação.

Em 11 de janeiro de 1890, o governo britânico de Lord Salisbury mandou a Lisboa um ultimato (exigência com prazo curto e ameaça de força). Portugal devia retirar suas tropas das terras entre Angola e Moçambique.

Essas terras formavam o mapa cor-de-rosa, o projeto português de ligar a costa do Atlântico à costa do Índico por uma faixa contínua de território. No papel, a faixa aparecia pintada de rosa, e daí veio o apelido.

Londres queria a mesma região para um plano próprio: uma linha de domínio britânico descendo do Cairo até a Cidade do Cabo. A Marinha Real tinha navios prontos para mostrar que a exigência valia.

O rei D. Carlos I estava no trono havia poucas semanas. O governo cedeu logo, e a notícia correu Lisboa em horas.

Vieram multidões nas ruas, vidraças quebradas nas casas de ingleses e boicote a produtos britânicos. A estátua de Camões, no Chiado, foi coberta de crepe preto, o pano fino do luto.

No mesmo ano, Alfredo Keil compôs a música de A Portuguesa sobre a letra de Lopes de Mendonça. A primeira versão mandava marchar contra os bretões; em 1911, quando a canção virou hino oficial, os bretões viraram canhões.

Abílio Manuel Guerra Junqueiro, poeta de 39 anos nascido em Freixo de Espada à Cinta, em Trás-os-Montes, respondeu sem marcha nem refrão.

Já era conhecido por A Velhice do Padre Eterno, de 1885, um livro em versos contra o clero que vendeu bem e rendeu inimigos. Tinha estudado Direito em Coimbra e sentava no Parlamento como deputado.

Escolheu outro caminho: um livro curto em que a pátria fala por si, na primeira pessoa, e admite que perdeu.

Esse livro abre a leitura de hoje.

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I  O Poema do Dia

A pátria que fala sozinha

Finis Patriae saiu em Lisboa em 1890, poucos meses após o ultimato, assinado por Abílio Manuel Guerra Junqueiro. O título é latim e quer dizer fim da pátria.

O poema abre a leitura porque faz o país falar da própria queda, sem disfarce de vitória.

Finis Poloniae!

Frase atribuída a Tadeusz Kościuszko, batalha de Maciejowice, 1794.

Finis Poloniae quer dizer fim da Polônia. A tradição conta que o general polonês Tadeusz Kościuszko gritou a frase ao cair ferido diante do exército russo; ele mesmo negou depois que a tivesse dito.

A frase correu a Europa do século 19 como a fórmula do país que some do mapa. Em 1795, a Polônia foi de fato repartida entre Rússia, Prússia e Áustria.

Junqueiro trocou uma palavra e apontou a fórmula para Portugal. O leitor de 1890 entendia o recado pela capa.

O livro não traz heróis. Em versos de raiva e de luto, o poeta põe em cena um país empobrecido, governantes que se dobraram a Londres e um povo que pagou a conta sem ser ouvido.

A voz que fala é a da própria pátria, ferida e lúcida. Não pede vingança contra os ingleses; aponta para dentro, para a monarquia e para os políticos de Lisboa.

O poema circulou num país em febre. Em 31 de janeiro de 1891, militares republicanos se levantaram no Porto, e a revolta foi esmagada no mesmo dia.

A forma ajuda o tom. Junqueiro escrevia em versos longos e sonoros, de pregador, feitos para serem lidos diante de plateia; nos cafés de Lisboa e do Porto, havia quem decorasse trechos.

Antero de Quental, o poeta dos sonetos, presidiu no Porto, em 1890, a Liga Patriótica do Norte, criada como resposta ao ultimato. A raiva de Junqueiro tinha companhia na sua geração.

O choque também mudou a política. Até 1890 os republicanos eram minoria barulhenta; com o ultimato, a culpa caiu sobre a coroa, e o partido ganhou leitores e votos.

Junqueiro seguiu no tema. Em 1896 publicou Pátria, um poema dramático que leva os reis da dinastia de Bragança a julgamento, com o mesmo tom de acusação.

Os versos estão livres para citar no Brasil, porque Junqueiro partiu em 1923; a lei de direitos autorais solta a obra 70 anos após o ano da partida do autor.

Na hora de ler

Leia o título primeiro, sozinho, e só então comece o poema.

Nas passagens de acusação, fale baixo e firme, como quem depõe num tribunal.

 
 

II  Pra Ler no Altar

O fogo de Camões

Num casamento, Guerra Junqueiro cede a página a Luís Vaz de Camões, o poeta cuja estátua Lisboa cobriu de luto em 1890 e que a geração de Junqueiro tinha festejado dez anos antes.

O soneto serve ao altar porque define o amor pelas contradições que todo casal conhece.

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

Luís Vaz de Camões, soneto, Rimas, 1595.

Desatinar é perder o juízo, ficar fora de si. O verso diz que o amor tira o rumo sem machucar.

Cada linha junta dois opostos: fogo que não aparece, ferida que não se sente, alegria triste. A figura se chama paradoxo (afirmação que parece se contradizer e, lida com calma, faz sentido).

Em 10 de junho de 1880, Portugal celebrou os 300 anos da partida de Camões com um cortejo cívico em Lisboa. Teófilo Braga, republicano e historiador, organizou a festa.

O cortejo atravessou a cidade com carros alegóricos, estudantes e operários. Para os republicanos, Camões era o símbolo de um Portugal maior que a dinastia reinante.

A geração de Junqueiro saiu dessa festa com Camões como bandeira. Quando o ultimato veio, foi à estátua dele que a multidão correu.

As Rimas saíram em 1595, quinze anos após a partida do poeta. Camões não viu o livro impresso.

O soneto completo tem mais duas estrofes de quatro versos e duas de três. Nas últimas linhas, Camões pergunta como um sentimento tão contrário a si mesmo consegue gerar amizade entre as pessoas, e deixa a pergunta como elogio ao amor.

Os oito primeiros versos usam a mesma estrutura: é, é, é. A repetição se chama anáfora (retomar a mesma palavra no começo de versos seguidos) e dá ao texto o ritmo de uma promessa.

No altar, o soneto dispensa essa história. Quem promete ali sabe que o amor arde, fere e alegra, e promete mesmo assim.

• O tom: sereno, sem teatro; a força está nas palavras.

• O corte: pare no quarto verso. O soneto tem catorze, e o altar pede uma estrofe.

• O leitor: um padrinho ou uma madrinha, de frente para os noivos.

Na hora de ler

Faça uma pausa curta depois de cada ponto e vírgula.

Diga o último verso mais devagar que os outros.

 

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III  Pra Dizer Adeus

A lira destemperada

Numa despedida, Guerra Junqueiro divide a página com Camões outra vez, agora no adeus de Os Lusíadas, onde o poeta larga a epopeia (poema longo que narra feitos de um povo) cansado do próprio país.

A estrofe serve ao adeus porque é a voz de quem termina a obra e admite que já não tem fôlego.

No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.

Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, canto X, estrofe 145, 1572.

No mais quer dizer chega. Destemperada é a lira desafinada; enrouquecida, a voz rouca.

Camões avisa que a rouquidão não vem do canto, vem de cantar para um povo que não escuta. Nos versos seguintes, ele descreve a pátria metida numa austera, apagada e vil tristeza.

Três séculos depois, Finis Patriae retomou a queixa. Junqueiro também cantava para um país que, a seu ver, tinha parado de ouvir.

Junqueiro viveu para ver a resposta da história. O mapa cor-de-rosa terminou num papel assinado. O tratado anglo-português de 1891 fixou as fronteiras, e as terras do meio, onde hoje ficam o Malawi e o Zimbábue, ficaram com os britânicos.

A monarquia caiu em 5 de outubro de 1910. A República nomeou Junqueiro ministro plenipotenciário (embaixador com plenos poderes) na Suíça, e ele foi viver em Berna.

Os Lusíadas saíram em 1572, com licença do rei D. Sebastião. Seis anos depois, o jovem rei desapareceu na batalha de Alcácer Quibir, no Marrocos, e Portugal perdeu a independência para a Espanha em 1580.

A estrofe 145 ficou lida como profecia dessa perda. Para a geração de 1890, o ultimato repetia a lição: um país que para de escutar fica à mercê de quem é mais forte.

Nos últimos anos, o poeta da raiva voltou-se para a fé, com versos de tom místico. Os amigos estranharam a mudança; ele dizia que procurava a mesma pátria por outro caminho.

Junqueiro partiu em Lisboa em 7 de julho de 1923. Em 1966, seus restos foram levados ao Panteão Nacional.

Na hora de ler

Leia No mais, Musa como quem fecha um livro.

Abaixe a voz no último verso, sem pressa.

“Que verso você diria a um país que perdeu?”

Ele tinha 72 anos.

 
 
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Em que ano Guerra Junqueiro publicou Finis Patriae, o livro em que a pátria fala da própria queda?

A1885, junto com A Velhice do Padre Eterno
B1896, junto com o poema dramático Pátria
C1890, poucos meses após o ultimato britânico
D1891, logo após a revolta militar no Porto

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