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Para um casamento, a página fica com outro soneto de Florbela Espanca no mesmo livro, “Se tu viesses ver-me”, um dos mais lidos em voz alta em Portugal e no Brasil.
Os versos servem ao altar porque pedem a pessoa amada na hora mais simples do dia.
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Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, A essa hora dos mágicos cansaços, Quando a noite de manso se avizinha, E me prendesses toda nos teus braços...
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Florbela Espanca, Se tu viesses ver-me, Charneca em Flor, 1931.
Em prosa: se você viesse me visitar hoje no fim da tarde, naquela hora em que o cansaço parece encantado, quando a noite chega sem barulho, e me abraçasse inteira.
Avizinhar-se é chegar perto, virar vizinho. De manso quer dizer devagar, sem pressa.
O condicional
O soneto inteiro corre no tempo do desejo: viesses, prendesses. Nada aconteceu ainda. A mulher descreve a visita como quem ensaia.
No altar, o condicional muda de sentido. O casal que ouve já respondeu ao pedido: a pessoa veio, ficou, e o verso deixa de ser espera para virar memória do começo.
A hora escolhida
Florbela não pede a manhã nem a madrugada. Pede o fim da tarde, quando o corpo está gasto do trabalho e a luz baixa no horizonte.
A escolha diz muito sobre o amor que o soneto propõe: de todo dia, de quem chega cansado e encontra abrigo, longe da paixão de festa.
Os mágicos cansaços do segundo verso juntam duas palavras que raramente andam lado a lado. O cansaço pesa; o mágico encanta. Florbela pega o esgotamento comum do fim do expediente e o transforma em hora de encontro, em que o corpo cansado vira o lugar onde o amado cabe.
A vida por trás
Florbela casou três vezes. Com Alberto Moutinho, colega de escola, em 1913; com o militar António Guimarães, em 1921; e com o médico Mário Lage, em 1925, com quem morava em Matosinhos.
Os dois divórcios, num Portugal que mal aceitava o primeiro, deram assunto aos jornais e fecharam portas literárias para ela. O soneto de amor tranquilo nasceu dessa vida sem tranquilidade nenhuma.
Por que funciona no altar
• O corte: só o primeiro quarteto.
• O tom: baixo, quase conversado.
• O leitor: alguém que conhece o casal há anos.
Na hora de ler
Diga “à tardinha” com um sorriso. Pare nas reticências do último verso e deixe o silêncio fazer o abraço.
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