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Em 1931, Charneca em Flor chegou sem Florbela Espanca

O terceiro livro de Florbela Espanca saiu em Coimbra semanas depois de a poeta partir, no dia em que fazia 36 anos.

Livro de sonetos aberto sobre uma mesa, com urzes floridas de um campo do Alentejo ao fundo.

Um livro de sonetos impresso em Coimbra em 1931

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Florbela Espanca escreveu, num soneto de Charneca em Flor publicado em 1931, o verso “Sou a charneca rude a abrir em flor!”. Quase cem anos depois, a linha ainda serve para quem passou um inverno inteiro fechado e sente, numa manhã qualquer, a vontade de voltar a falar.

Charneca é a terra baixa e seca do sul de Portugal, coberta de urze (um arbusto de flor miúda) e de mato rasteiro. Florbela nasceu nela, em Vila Viçosa, no Alentejo, em 8 de dezembro de 1894.

Ela morreu em Matosinhos, perto do Porto, na noite de 7 para 8 de dezembro de 1930. Fazia 36 anos naquele dia. A causa registrada foi uma dose alta de barbitúricos (remédios para dormir), tomada depois de duas tentativas anteriores no mesmo ano.

O livro estava pronto na gaveta. Florbela tinha mandado os originais a Guido Battelli, um professor italiano que ensinava na Universidade de Coimbra e acreditava nos sonetos dela quando quase ninguém em Lisboa acreditava.

Battelli levou o volume à prensa em janeiro de 1931. A primeira tiragem esgotou depressa, e no mesmo ano ele lançou uma segunda edição com um apêndice de poemas inéditos, chamado Reliquiae (relíquias, em latim).

Antes de Charneca em Flor, Florbela tinha publicado dois livros por conta própria. Livro de Mágoas saiu em 1919, em Lisboa, numa tiragem pequena paga pela família. Livro de Sóror Saudade saiu em 1923. Os jornais quase não falaram de nenhum dos dois.

O apelido de Sóror Saudade veio de um amigo, o poeta Américo Durão, que a chamou assim num soneto. Sóror é o tratamento dado às freiras. Florbela adotou o nome como título e como máscara: a religiosa da tristeza, fechada na cela.

Charneca em Flor desmonta a máscara. O último terceto do soneto que dá nome ao livro diz, com todas as letras, que ela já não é Sóror Saudade.

A primeira faixa abre esse soneto: o que a charneca queima, o que nasce no meio dela e por que a forma de catorze versos coube no grito.

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I  O Poema do Dia

A freira tira o hábito

O soneto se chama “Charneca em Flor” e abre o terceiro livro de Florbela Espanca. São catorze versos em decassílabo (verso de dez sílabas contadas até a última tônica), divididos em dois quartetos e dois tercetos, como manda a escola de Petrarca e de Camões.

No soneto, a poeta troca o nome triste que usava por uma paisagem que floresce.

Abre os meus olhos, cega, a febre ansiosa,
e já não sou, Amor, Sóror Saudade...
Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Florbela Espanca, Charneca em Flor, Charneca em Flor, 1931.

Em prosa: a febre do desejo abre os olhos da mulher, e ela avisa ao amado que deixou de ser a freira da saudade; agora tem olhos que ardem, uma boca com gosto de sol e de fruta, e se parece com a terra seca do Alentejo quando a primavera chega.

Êxtase é o arrebatamento, o estado de quem sai de si. Rude, aqui, quer dizer bruta, sem cultivo.

O burel e a mortalha

Nos versos de cima, Florbela fala em despir o burel, o pano grosso e escuro dos hábitos de frade e de freira. Junto com ele, larga a mortalha, o lençol em que se enrola o corpo para o enterro.

As duas roupas eram o figurino de Sóror Saudade. Ao tirá-las, a poeta encerra a personagem dos dois livros anteriores dentro de um único soneto.

As urzes queimadas

A primeira estrofe guarda a imagem mais forte do poema: rosas nascendo sob urzes queimadas. No Alentejo, os pastores queimavam o mato da charneca no fim do verão para o pasto renascer.

Florbela conhecia o cheiro dessas queimadas desde menina. No soneto, o fogo que destrói é o mesmo que prepara a flor.

A urze rebrota da raiz poucas semanas depois do fogo, e a charneca, que no verão parece morta, fica roxa e branca na primavera seguinte. Quem anda pelo Alentejo em abril vê o mato florido nos mesmos campos que estavam pretos em setembro.

A crítica portuguesa leu Charneca em Flor como o livro mais sensual de uma mulher publicado em Portugal até então. Em 1931, uma poeta escrever sobre a própria boca e o próprio desejo, sem disfarce de anjo nem de santa, ainda escandalizava a Lisboa católica.

Na hora de ler

Leia os dois primeiros versos devagar, com a pausa nas reticências. Depois acelere nos três últimos, até a exclamação. A voz sobe junto com a flor.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Os mágicos cansaços

Para um casamento, a página fica com outro soneto de Florbela Espanca no mesmo livro, “Se tu viesses ver-me”, um dos mais lidos em voz alta em Portugal e no Brasil.

Os versos servem ao altar porque pedem a pessoa amada na hora mais simples do dia.

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Florbela Espanca, Se tu viesses ver-me, Charneca em Flor, 1931.

Em prosa: se você viesse me visitar hoje no fim da tarde, naquela hora em que o cansaço parece encantado, quando a noite chega sem barulho, e me abraçasse inteira.

Avizinhar-se é chegar perto, virar vizinho. De manso quer dizer devagar, sem pressa.

O condicional

O soneto inteiro corre no tempo do desejo: viesses, prendesses. Nada aconteceu ainda. A mulher descreve a visita como quem ensaia.

No altar, o condicional muda de sentido. O casal que ouve já respondeu ao pedido: a pessoa veio, ficou, e o verso deixa de ser espera para virar memória do começo.

A hora escolhida

Florbela não pede a manhã nem a madrugada. Pede o fim da tarde, quando o corpo está gasto do trabalho e a luz baixa no horizonte.

A escolha diz muito sobre o amor que o soneto propõe: de todo dia, de quem chega cansado e encontra abrigo, longe da paixão de festa.

Os mágicos cansaços do segundo verso juntam duas palavras que raramente andam lado a lado. O cansaço pesa; o mágico encanta. Florbela pega o esgotamento comum do fim do expediente e o transforma em hora de encontro, em que o corpo cansado vira o lugar onde o amado cabe.

A vida por trás

Florbela casou três vezes. Com Alberto Moutinho, colega de escola, em 1913; com o militar António Guimarães, em 1921; e com o médico Mário Lage, em 1925, com quem morava em Matosinhos.

Os dois divórcios, num Portugal que mal aceitava o primeiro, deram assunto aos jornais e fecharam portas literárias para ela. O soneto de amor tranquilo nasceu dessa vida sem tranquilidade nenhuma.

Por que funciona no altar

• O corte: só o primeiro quarteto.

• O tom: baixo, quase conversado.

• O leitor: alguém que conhece o casal há anos.

Na hora de ler

Diga “à tardinha” com um sorriso. Pare nas reticências do último verso e deixe o silêncio fazer o abraço.

 

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III  Pra Dizer Adeus

O pó que vira alvorada

Numa despedida, a página volta a Charneca em Flor e ao soneto “Amar!”, que Florbela Espanca fechou com três versos sobre o fim.

O terceto serve ao adeus porque trata o fim como uma noite que amanhece.

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca, Amar!, Charneca em Flor, 1931.

Em prosa: se um dia eu tiver que virar pó, cinza e nada, quero que a minha noite seja um amanhecer, e que eu saiba me perder para me achar de novo.

Alvorada é a primeira luz do dia, antes do sol nascer.

O irmão no rio

Em junho de 1927, Apeles Espanca, irmão de Florbela e tenente da aviação naval, caiu com o hidroavião no rio Tejo, em Lisboa. O corpo nunca foi encontrado.

Florbela escreveu contos em memória dele, reunidos depois no livro As Máscaras do Destino. Os amigos contam que ela não se recuperou da perda.

Florbela escreveu sobre Apeles em cartas a amigos durante os meses seguintes. A dor de 1927 atravessa vários sonetos do livro, mesmo os que não falam dele pelo nome.

O que não se sabe

Os biógrafos discutem até hoje se o terceto foi escrito antes ou depois da queda de Apeles. Florbela não datava os manuscritos, e os originais enviados a Battelli se perderam, e ninguém consegue fixar o ano de cada soneto do livro.

A obra depois dela

Em vida, Florbela vendeu poucos exemplares. Depois de 1931, as reedições de Charneca em Flor se multiplicaram, e em 1964 Vila Viçosa recebeu os restos dela, trazidos de Matosinhos para o cemitério da terra natal.

Hoje Charneca em Flor é o livro de Florbela mais reeditado em Portugal e no Brasil, e o soneto “Amar!” aparece em quase toda antologia de poesia portuguesa do século XX. Em 1999, a banda portuguesa Trovante gravou “Perdidamente”, canção feita sobre os versos do soneto “Ser Poeta”, do mesmo livro, e Florbela chegou a quem nunca abriu Charneca em Flor.

Na hora de ler

Leia “pó, cinza e nada” bem devagar, uma palavra por vez. Levante a voz em “alvorada”. Termine baixo, nas reticências.

Florbela Espanca nunca viu o livro impresso.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, quem levou os originais de Charneca em Flor à prensa, em janeiro de 1931?

AAmérico Durão, o poeta amigo que criou o apelido Sóror Saudade
BGuido Battelli, professor italiano da Universidade de Coimbra
CMário Lage, o médico com quem Florbela morava em Matosinhos
DApeles Espanca, irmão de Florbela e tenente da aviação naval

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