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Essa Negra Fulô, de Jorge de Lima, abre com uma notícia de família: um dia chegou ao engenho do avô uma negra bonitinha, chamada Fulô. O narrador conta de longe, como neto.
O refrão nasce da boca da Sinhá, e o nome repetido acaba virando o centro do poema.
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Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá) vai forrar a minha cama, pentear os meus cabelos, vem ajudar a tirar a minha roupa, Fulô!
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Jorge de Lima, Essa Negra Fulô, Novos Poemas, 1929.
Em prosa: a patroa grita pela moça e despeja as tarefas de uma vez. Arrumar a cama, pentear o cabelo, despir a senhora.
O parêntese é a chave da estrofe. O narrador avisa de quem é a voz, e o leitor entende a hierarquia da casa sem ninguém explicar.
A ordem em forma de canto
O poema alterna três vozes. A do neto, que conta. A da Sinhá, que manda. E o coro, que repete “Essa negra Fulô! / Essa negra Fulô!” entre os blocos, como o estribilho (a parte que volta) de uma cantiga de roda.
O estribilho tem só três palavras. Muda de sentido a cada volta: primeiro soa como apresentação, depois como queixa, no fim como espanto.
A acusação de roubo
No meio do poema, somem objetos da Sinhá. O lenço de rendas, o cinto, o broche, o terço de ouro. A patroa acusa Fulô, e o Sinhô (o dono do engenho) vai castigar a moça sozinho.
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O Sinhô foi açoitar sozinho a negra Fulô. A negra tirou a saia e tirou o cabeção,
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Jorge de Lima, Essa Negra Fulô, Novos Poemas, 1929.
O cabeção era a blusa larga de pano grosso das escravas da casa. O poema mostra a moça nua diante do senhor, e a cena de castigo vira cena de desejo.
O desfecho
No último bloco, quem some é o próprio Sinhô. A Sinhá procura o marido e pergunta à moça onde ele está. O poema termina no refrão, sem dizer o que houve no quarto. O leitor sabe tanto quanto a patroa.
A pergunta final da Sinhá repete a fórmula das perguntas sobre o lenço e o broche: “Cadê, cadê teu Sinhô”. O marido entra na mesma lista dos objetos roubados. O poema não confirma o roubo nem o romance, e deixa a dúvida inteira no colo de quem ouve.
Críticos do século XXI apontaram o centro do problema: Fulô aparece pelos olhos dos donos e nunca diz o que sente. Leitores do movimento negro passaram a ler o poema como retrato da violência da casa-grande.
Na hora de ler
Diga “Ó Fulô!” alto, sem pressa, e baixe a voz no parêntese da Sinhá.
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