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Em 1929, Jorge de Lima pôs a negra Fulô no refrão

Em Novos Poemas, o chamado da casa-grande vira refrão, e a escrava do título leva a história até o último verso.

Varanda de uma casa de engenho antiga, com uma rede armada e um corredor escuro ao fundo.

Uma casa de engenho alagoana do começo do século XX

▼
 

Jorge de Lima publicou em 1929, no livro Novos Poemas, o verso “Ó Fulô! Ó Fulô!”. Quase cem anos depois, o grito ainda ensina como soava uma casa de engenho: alguém chama do quarto, e uma moça negra atravessa o corredor correndo.

O poema se chama Essa Negra Fulô. Conta a chegada de uma escrava ao bangüê (o engenho de açúcar antigo, movido a boi ou a água) do avô do narrador, em Alagoas, e o que acontece com ela dentro da casa-grande.

A Sinhá (a senhora da casa) chama por Fulô o tempo todo. Manda forrar a cama, pentear os cabelos, abanar o corpo, coçar as costas, contar história para dormir.

Cada ordem abre com o mesmo chamado. O leitor ouve o nome da moça tantas vezes que, no fim, o poema parece escrito com a voz da patroa e o corpo da escrava.

Jorge de Lima tirou a forma das cantigas do Nordeste. O verso tem sete sílabas, a medida da redondilha maior (o verso das quadrinhas e dos romances de cordel), e a rima volta sempre no som de Fulô.

Novos Poemas saiu no Rio de Janeiro e foi lido como um livro modernista do Nordeste. Essa Negra Fulô virou o poema mais declamado dele: entrou em saraus, em rádios e em antologias escolares.

A leitura mudou com o tempo. Os primeiros leitores riam da esperteza da moça. Leitores de hoje veem, no mesmo texto, uma jovem escravizada acusada de roubo, açoitada e desejada pelo dono.

As duas leituras cabem nos versos. O poema descreve sem julgar, e o julgamento fica com quem lê, quase um século depois da primeira edição.

A primeira faixa mostra como a ordem da patroa vira refrão e como o nome de Fulô ocupa o poema de ponta a ponta.

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I  O Poema do Dia

O nome gritado no corredor

Essa Negra Fulô, de Jorge de Lima, abre com uma notícia de família: um dia chegou ao engenho do avô uma negra bonitinha, chamada Fulô. O narrador conta de longe, como neto.

O refrão nasce da boca da Sinhá, e o nome repetido acaba virando o centro do poema.

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vai forrar a minha cama,
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

Jorge de Lima, Essa Negra Fulô, Novos Poemas, 1929.

Em prosa: a patroa grita pela moça e despeja as tarefas de uma vez. Arrumar a cama, pentear o cabelo, despir a senhora.

O parêntese é a chave da estrofe. O narrador avisa de quem é a voz, e o leitor entende a hierarquia da casa sem ninguém explicar.

A ordem em forma de canto

O poema alterna três vozes. A do neto, que conta. A da Sinhá, que manda. E o coro, que repete “Essa negra Fulô! / Essa negra Fulô!” entre os blocos, como o estribilho (a parte que volta) de uma cantiga de roda.

O estribilho tem só três palavras. Muda de sentido a cada volta: primeiro soa como apresentação, depois como queixa, no fim como espanto.

A acusação de roubo

No meio do poema, somem objetos da Sinhá. O lenço de rendas, o cinto, o broche, o terço de ouro. A patroa acusa Fulô, e o Sinhô (o dono do engenho) vai castigar a moça sozinho.

O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,

Jorge de Lima, Essa Negra Fulô, Novos Poemas, 1929.

O cabeção era a blusa larga de pano grosso das escravas da casa. O poema mostra a moça nua diante do senhor, e a cena de castigo vira cena de desejo.

O desfecho

No último bloco, quem some é o próprio Sinhô. A Sinhá procura o marido e pergunta à moça onde ele está. O poema termina no refrão, sem dizer o que houve no quarto. O leitor sabe tanto quanto a patroa.

A pergunta final da Sinhá repete a fórmula das perguntas sobre o lenço e o broche: “Cadê, cadê teu Sinhô”. O marido entra na mesma lista dos objetos roubados. O poema não confirma o roubo nem o romance, e deixa a dúvida inteira no colo de quem ouve.

Críticos do século XXI apontaram o centro do problema: Fulô aparece pelos olhos dos donos e nunca diz o que sente. Leitores do movimento negro passaram a ler o poema como retrato da violência da casa-grande.

Na hora de ler

Diga “Ó Fulô!” alto, sem pressa, e baixe a voz no parêntese da Sinhá.

 
 

II  Pra Ler no Altar

A princesa dos peixinhos

Num casamento, Essa Negra Fulô inteira não serve: o poema fala de castigo, desejo e posse. Uma estrofe só pode subir ao altar, a história que a própria Fulô conta à patroa antes de dormir.

É o único trecho em que a escrava fala, e ela escolhe falar de encanto.

Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.

Jorge de Lima, Essa Negra Fulô, Novos Poemas, 1929.

Em prosa: havia uma princesa num castelo, e o vestido dela era bordado com os peixinhos do mar.

A Sinhá pede a história como pediu a cama feita. Fulô obedece e, por quatro versos, troca a casa-grande por um castelo e o pano grosso por um vestido de mar.

A fórmula do conto

Logo depois, Fulô fecha o conto com uma fórmula antiga das contadoras de história do Nordeste: “Entrou na perna dum pato, / saiu na perna dum pinto”. A frase não tem lógica, tem ritmo. Serve para dizer “acabou” sem dizer.

Jorge de Lima ouviu fórmulas assim na infância em União dos Palmares, Alagoas. Muitas contadoras da região eram amas negras, e o poeta entregou a fala a uma delas.

O pedido seguinte do conto também vem pronto da tradição oral: “o Rei-Sinhô me mandou / que vos contasse mais cinco”. Fulô transforma a ordem da casa em brincadeira de roda, e a patroa adormece sem perceber a troca.

Por que funciona no altar

A cena também tem uma ironia boa para a ocasião. A patroa manda, a moça obedece, e quem sai do conto com vestido de peixinhos é a princesa inventada por Fulô. A imaginação fica com a escrava.

A estrofe fala de beleza dada a quem não tinha nada. Num casamento, soa como promessa de tratar o outro como gente de castelo.

• O corte: só os quatro versos da princesa.

• O tom: de quem conta para criança dormir.

• O leitor: uma avó, uma madrinha, alguém da família que contava história.

Na hora de ler

Antes, diga numa frase de quem é a voz: de Fulô, a moça do poema. Depois leia devagar, olhando para os noivos.

Pare um instante em “vestido” e deixe “os peixinhos do mar” sair como quem mostra um bordado.

 

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III  Pra Dizer Adeus

Três palavras no fim

Numa despedida, Essa Negra Fulô entrega o refrão inteiro. Três palavras, ditas duas vezes, e o nome de uma mulher fica na sala.

O estribilho serve ao adeus porque diz o nome e não pede mais nada.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Jorge de Lima, Essa Negra Fulô, Novos Poemas, 1929.

Os dois versos fecham o poema. Depois da acusação, do castigo e do marido sumido, a Sinhá não tem resposta. Sobra o nome.

Para quem criou a família

Muitas famílias brasileiras guardam uma mulher como Fulô na memória: a ama, a cozinheira, a babá que ficou trinta anos na casa. Em velório de gente assim, os parentes procuram o que ler e quase sempre falta texto.

O refrão de Jorge de Lima cabe ali com cuidado. Diz o nome, repete, e reconhece que aquela mulher ocupou a casa inteira.

O verso não traz adjetivo de elogio, nem data, nem lugar. Fica o pronome, a cor e o apelido, as três marcas que a casa-grande dava a quem trabalhava nela. Dito por um neto, num velório, o mesmo verso devolve o nome a quem nunca foi chamado por outro.

O cuidado com o resto

O refrão funciona sozinho porque o ouvido brasileiro já o conhece. Gerações de alunos decoraram o poema na escola, e muita gente de idade ainda recita os primeiros blocos de cor. Na sala do velório, alguém completa o verso em voz baixa.

Leia só o refrão. O poema completo traz o açoite, a nudez e a acusação de roubo, e pesa numa despedida.

Troque “Fulô” pelo nome de quem partiu, se a família pedir. A forma aguenta: três sílabas, ou duas, sustentam o verso de sete.

O nome da moça

Fulô é apelido. Vem de flor, dita no jeito do interior de Alagoas. O poema nunca diz o nome de batismo dela, nem de onde veio, nem com quem.

O silêncio é do próprio texto. Não existe registro de uma Fulô real no engenho do avô de Jorge de Lima, e o poeta nunca contou se houve.

Na hora de ler

Diga o primeiro verso firme. Respire. Diga o segundo mais baixo, quase para si.

Fulô não tem sobrenome.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, onde Jorge de Lima ouviu, na infância, as fórmulas das contadoras de história que aparecem no poema?

AMaceió, Alagoas
BRecife, Pernambuco
CUnião dos Palmares, Alagoas
DRio de Janeiro

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